No ano passado, participei mais uma vez do melhor evento de quadrinhos de São Paulo, o Gibi SP Festival, capitaneado pelos queridos Wilson Simonetto e Helena Hernandes. Entre tantas surpresas boas e encontros emocionantes, pude finalmente conhecer ao vivo o escritor e pesquisador Eduardo Pereira, que veio diretamente de Fortaleza-CE para lançar a sua biografia sobre Akira Toriyama, criador do megassucesso "Dragon Ball". Não pudemos conversar tanto como gostaríamos, por conta da movimentação constante em nossas respectivas mesas do evento, mas conseguimos trocar rapidamente bons papos culturais. Gentilmente, Eduardo, sabendo de meu gosto e de minhas atividades como poeta, me presenteou com livros de poesias viscerais, cada um a seu modo, e com fortes laços com o Ceará. Abaixo, um pouco sobre eles:
Fúria/José Alcides Pinto
José Alcides Pinto (1923-2008), jornalista, escritor e poeta nascido em Fortaleza-CE, é um verdadeiro ícone da poesia brasileira e um dos nomes mais conhecidos da Geração de 45. Filho de um capitão de tropa de ciganos, exerceu a pofissão de jornalista em vários jornais da capital federal entre os anos 1940 e 1960, como Diário Carioca, O Jornal, Diário de Notícias, Correio da Manhã, além da revista Leitura. Para os irmãos Pongetti, organizou duas antologias de novos poetas brasileiros, em 1950 e 1951 e em 1956, fundou no Ceará uma sucursal do movimento concretista. Com mais de 50 livros na carreira, entre contos, romances, poesia, ensaios críticos e peças teatrais, ganhou o prêmio Olavo Bilac pelo conjunto da obra, outorgado pela ABL. Sua literatura, carregada de polêmicas (sua obra poético-erótica Relicário Pornô, de 1982, é uma das mais incensadas e discutidas dentro desse gênero literário), vem recheada de mistérios, sobressaltos, universos fantásticos e sobrenaturais - como ele mesmo sempre deixava claro em suas conversas. Morreu atropelado por uma motocicleta em Fortaleza, aos 85 anos, em plena forma intelectual.
Poemas do Povo da Noite/ Pedro Tierra
Pedro Tierra é o pseudônimo de Hamilton Pereira da Silva, um sobrevivente do inferno carcerário do período mais perverso da ditadura militar. Esse livro nasceu dentro de centros de detenção e porões de tortura, com poemas lidos e declamados posteriormente em reuniões e atos pela Anistia e democracia na virada dos anos 1970/1980. A obra já está em sua 5ª edição, a última, publicada pela Fundação Perseu Abramo.
Esse livro de poesias de Paul Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros (nome de batismo do colunista e político Artur da Távola, 1936-2008) passou quase despercebido em 1986. Távola, que teve seu mandato de deputado estadual cassado pelo regime militar e iniciou sua carreira de comunicador no Chile, onde se exilou, já era bem conhecido como jornalista em jornais impressos (onde mantinha colunas sociais e sobre TV) quando lançou esse livro de poesias. Deputado Constituinte e um dos fundadores do PSDB, apresentou em seguida um programa sobre música clássica na TV Senado (por quase 20 anos) e foi diretor da Rádio Roquette Pinto. Lançou vários livros com o pseudônimo que usava na imprensa, mas um de seus grandes sonhos era ser reconhecido como poeta. Não conseguiu, mas graças a sua viúva Mirian Ripper - que dizia que o marido deixara poemas inéditos para três livros - teve um livro póstumo lançado, com 24 poemas inéditos (selecionados por Mirian), O Jugo das Palavras (Record, 2013). A sua poesia é bem interessante e transborda jogo de palavras, em um ritmo alucinante.












