31 de agosto de 2010

O cinema de Rafael Saar encontra Luhli, Lucina e Baby do Brasil

Luhli & Lucina - foto de Luiz Fernando Borges da Fonseca

Baby do Brasil em show no Sesc Pompéia-SP - Foto de Gabriel Chiarasrelli
Depois de seis curtas-metragens, entre eles o premiado Depois de Tudo (2008) com Ney Matogrosso e Nildo Parente, o cineasta Rafael Saar engata em 2010 duas produções que prometem chacoalhar o cinema documental brasileiro. O longa-metragem Apocalipse segundo Baby com previsão de lançamento para 2012, enfocará toda a carreira da cantora niteroiense ( ou baiana da Baía de Guanabara, como ela mesmo diz), incluindo a longa jornada junto aos Novos Baianos e os projetos solos posteriores, mas com ênfase na sua incessante busca espiritual , numa ponte entre a Baby esotérica e a evangélica atual. Já Luhli & Lucina – Porque sim, porque não?, produzido em parceria com o Canal Brasil, concluirá a maioria das filmagens este ano para lançamento em 2011. A cultuada dupla, que já foi Luli & Lucinha, existiu entre 1971 e 1997 e deixou marcas na história da nossa música, ao lançar um dos primeiros discos independentes brasileiros e tratar pioneiramente de temas ecológicos. As duas continuam a mil, em produções solos e vários projetos culturais/sociais. Luhli foi quem apresentou Ney Matogrosso a João Ricardo do Secos & Molhados e foi co-autora de dois dos maiores sucessos da banda, O Vira e Fala (João Ricardo- Luhli). Lucina iniciou carreira no grupo Manifesto, que acompanhou Gutemberg Guarabyra na apresentação da sua vitoriosa Margarida, no II Festival Internacional da Canção de 1967. Além da face musical, o longa trará à tona a vida alternativa e comunitária de Luhli, Lucina e o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca, um “casal de três” que deu muito o que falar na época.

Luhli, Lucina e os tambores - foto de Luiz Fernando Borges da Fonseca
Entrei em contato com Rafael Saar via internet, para falar sobre cinema e jogar um pouco de luz sobre os dois trabalhos:

AM –Baby do Brasil, Luhli e Lucina viveram à fundo o conceito de comunidade hippie. Ney Matogrosso era hippie antes dos Secos & Molhados e sempre manteve ao longo da carreira uma postura “alternativa”. Quais são as pontas que ligam esses quatro peculiares artistas brasileiros ao cinema de Rafael Saar?

RS-Todos eles são especialmente cinematográficos por possuírem uma proposta estética sonora e visual muito interessante e particular. Além disso o pioneirismo destes artistas, que tendo surgido todos num mesmo momento histórico de repressão do país, mudaram desde os meios de produção musical, passando pelas influências que deixaram na própria música brasileira e chegando ao comportamento da sociedade.

AM-"Luhli & Lucina – Porque sim, porque não?" dará grande enfoque ao singular relacionamento entre Luhli, Lucina e Luiz Fernando Borges da Fonseca. "Apocalipse segundo Baby", adentrará o esoterismo e o mundo evangélico para seguir a carreira da múltipla Baby do Brasil. Com você não tem essa de ‘suavidade nos temas’, né?

RS-São histórias lindas e instigantes e o que proponho é tratar estes temas de forma natural. Seja no amor de Luhli, Lucina e Luís, ou de Baby e Pepeu; seja na música gospel de Baby ou na pesquisa de pontos de umbanda de Luhli e Lucina; discutir ou entender de que forma estes aspectos influenciaram e influenciam a arte que eles produzem.

Baby do Brasil em show no Sesc Pompéia-SP - Foto de Gabriel Chiarasrelli

AM-Existe uma amnésia crônica e um desleixo generalizado no Brasil em relação à sua memória cultural. Como conseqüência, resgatar documentos e materiais de arquivo torna-se um dos maiores obstáculos na produção de documentários. Como andam estas “escavações” para as duas produções?

RS-Os obstáculos são muitos nas escavações de material de arquivo, que são fundamentais neste tipo de proposta de trabalho. É uma pena que os arquivos, principalmente de emissoras de TV, cuidem tão mal de acervos tão preciosos à memória cultural. Estamos ainda em busca de muitos programas e filmes dados como perdidos, tanto dos Novos Baianos, como de Luhli e Lucina.
É uma pena também que o acesso e o preço que se paga por esse acesso seja tão alto, e por vezes inviabilize que idéias se concretizem, e que as pessoas tenham a possibilidade de conhecer sua história.
Conto muito com a ajuda de colecionadores, pesquisadores e fãs em geral que tenham imagens desses artistas para que os projetos se concretizem.

AM-Como você vê o atual mercado de documentários no Brasil? Existe um novo boom do gênero no país, paralelo ao sucesso alcançado pela literatura biográfica?
 
RS-Com a dificuldade que tem se encontrado para financiamento de projetos de ficção, que são bem mais caros, e com o digital e o barateamento dos meios de produção, o documentário ganhou um impulso muito grande. O importante agora é fazer com que toda esta produção chegue ao grande público, na salas de cinema e na TV aberta, e saia do pequeno circuito de festivais.
 
AM-Obrigado, Rafael, pela entrevista. Alguma colocação final?
 
RS-Quem puder contribuir com material como filmes, vídeos, áudios e fotos para os projetos, entre em contato com rafaelsaar@gmail.com
 
AM-Valeu!
 
Seguem os promos das duas produções:
http://www.youtube.com/watch?v=jupTPIMI63Y   Baby  
http://www.youtube.com/watch?v=bu7Fbo9EXAM Luhli e Lucina Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=zt4hGb8Rugs  Luhli e Lucina Parte 2

27 de agosto de 2010

O melhor de Chico nas bancas

Hoje nas bancas chegou o primeiro disquinho/livreto da 'Coleção Chico Buarque' (Abril Coleções). Ao que parece, a Abril engata a mesma marcha da Folha, que lançou num fôlego só, coleção sobre bossa nova e na sequência, série com compositores da velha guarda da MPB, que termina justamente nesta semana, após 25 volumes. O formato é o mesmo, mas a nova coleção, além de focar um artista só, recupera os discos oficiais de carreira, lançados originalmente em vinil. Como a inclusão de todos os discos da longa carreira de Chico ficaria inviável para um lançamento desses, optou-se por uma seleção com os 20 discos mais relevantes, onde o principal jurado, ao que parece, é o próprio Francisco Buarque. A começar por esse primeiro, Chico Buarque 1978, que já na apresentação aparece como o disco escolhido pelo próprio compositor para inaugurar a coleção. Eu estou com ele: esse sempre foi, ao lado do Construção (1971 - o 2º da coleção) meu 'disco do Chico de cabeçeira'. As suas faixas misturam trilha de teatro e cinema, músicas liberadas depois de anos no cabide da censura e inéditas imponentes. Nesta amálgama surgem vários Chicos: o político (Apesar de Você/ Cálice/Tanto Mar), o cronista (Feijoada Completa/ Trocando em Miúdos/Pivete), o desbravador da alma feminina ( O Meu Amor/ Pedaço de Mim) e até o narrador satírico/crítico de si mesmo ( Até o Fim). Um clássico disco pra iniciar uma coleção interessante. Pra encerrar eu iria comentar sobre uma grande lacuna, que a primeira vista eu não havia localizado: Chico Canta (1973) não está entre as capinhas da coleção e eu já ia reclamar, por ser esse um clássico iminente, talvez o mais político deles e o mais decapitado ( há músicas sem letra nenhuma e outras com o áudio avariado). Mas então botei a vista em Calabar, o Elogio de Traição (1973) e saquei tudo: a coleção não só incluiu as músicas de Chico Canta, como manteve o nome da peça que na época foi censurada e não pôde dar nome ao disco. Uma boa surpresa inicial - veremos se o repertório será idêntico. De resto, alguns discos paralelos à discografia oficial, como o italiano, c/ arranjos de Ennio Morricone ( Per Un Pugno di Samba - 1970) e o ao vivo, e fácil de encontrar até hoje ( Ao Vivo Paris - Le Zenith - 1986). De lacuna mesmo, só o Vol.4 (1970), um disco bacana ( que inclui o desabafo Agora Falando Sério), mas que talvez o compositor não goste tanto, por ter sido uma imposição da gravadora após o fracasso de vendas do primeiro disco em italiano. O resto, só alegria: estão incluídos os imbatíveis Construção, Meus Caros Amigos (1976), Vida (1980) e Chico Buarque (1984). Os iniciais, que firmaram Chico como grande cronista, do naipe de Noel Rosa e Sinhô: Chico Buarque 1 (1966), Vol.2 (1967) e Vol.3 (1968). E os da última lavra, que se não chegam aos pés dos antigos, também não comprometem a obra. Resumo da Ópera do Malandro: entre violências gratuitas dos jornais diários, fofocas inúteis das revistas de celebridades e pornografia e futebol saindo pelo ladrão, a coleção Chico Buarque é um alento aos olhos de quem merece um oásis logo de manhãzinha, depois do café com pão de sexta-feira.

20 de agosto de 2010

Além de Os Flinststones e Os Jetsons, havia também outra família típica de Hanna-Barbera:Os Muzzarelas

Quando é lançada a pergunta aos fãs e apreciadores de desenhos animados: "Quais foram as séries clássicas da Hanna-Barbera protagonizados por famílias?", a resposta quase sempre é imediata: "Flinststones e Jetsons". Estas foram realmente as mais famosas, mas houve também outra, caracterizada também em um tempo antigo, mas bem mais a ver com a nossa civilização moderna: Os Muzzarelas, família de "classe média" da Roma Antiga. Muitas gags são similares às duas famílias mais famosas: os eletrodomésticos e objetos "adaptados" da época, comportamentos modernos acoplados à rotina e todo o perfil psicológico inerente aos membros cosanguíneos. Aqui temos o chefe de família sempre às voltas com o aluguel, a esposa que resolve suas trapalhadas, a caçula espertinha e o irmão que não quer saber de trabalho. O animal de estimação também surpreende: se na pré-história há um jovem dinossauro (Dino) e no futuro um simpático cão falastrão (Astro), entre os membros da família romana reina o folgazão e sensível Brutus, um enorme leão que de feroz não tem nada. Segue o primeiro episódio da série, dividido em três:

19 de agosto de 2010

Baú do Seu João 4 - Cinelândia- setembro de 1954 ( da Série Revistas de cinema que sobreviveram à terrível batalha contra os cupins cinéfilos




Aconteceu no começo do mês. Meu pai me ligou com uma voz esquisita e eu logo saquei que havia algo terrível no ar. E havia mesmo: suas mais de duzentas revistas de cinema, que ficavam guardadas em caixas no velho guarda-roupa do "quartinho" ( cômodo separado da casa, no fundo do quintal) foram devoradas por uma impiedosa horda de cupins famintos. Gelei da cabeça aos pés e enquanto corria os 100 metros que separam nossas casas, já imaginava os buracos nos lindos olhos azuis de Marilyn, os rombos na barriga de Kim e as mordidas nas pernas da Audrey. Ao chegar lá, meus temores se materializaram: Cinemin, Cinelândia, Cine-Fan e Filmolândia, dezenas delas, em pandarecos, corcomidas pelos pequenos monstros cinéfilos que devoraram sem piedade, em pouco mais de um mês, capas com starlets e mocinhos, cenas de filmes antológicos e centenas de fotos do cast de ouro de Hollywood. Nem John Wayne deu jeito. Os maiores heróis do far-west e das milionárias sagas da época foram engolidos pelos miseráveis e minúsculos gulosos, sem mesmo terem tempo de sacar seus revólveres ou espadas. Moçoilas estonteantes não puderam nem retocar a maquiagem. Entre mortos e feridos, eu e Seu João ainda conseguimos retirar do desastre alguns exemplares intactos ou quase, cerca de vinte deles. Uma das edições resgatadas é esta acima, de 1954, com a capa da suprema loira ( que vendia mesmo sem ter matéria nenhuma sobre ela na edição) e que contém também a curiosa matéria que selecionei sobre a acidentada viagem de Ava Gardner ao Rio de Janeiro em setembro de 1954. Esta e outras que salvamos, serão postadas aos poucos no Almanaque do Seu João. Quanto aos cupins, da mesma forma que a Hollywood clássica, que sucumbiu aos seus próprios excessos, também eles tiveram uma morte agonizante e lenta, embebidos em veneno viscoso, após um mês de extravagante comilança entre os poderosos da indústria cinematográfica.

18 de agosto de 2010

Chorinho raro no Porta Curtas

De vez em quando dou uma bisbilhotada no ótimo Porta Curtas, portal patrocinado pela Petrobras com um acervo de mais de 700 curtas. Tem muitos filmes curiosos, novidades e raridades como este curta abaixo, "Chorinhos e Chorões", de 1974, dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, com a consultoria de Lucio Rangel, arquivos de Almirante e narração de Hugo Carvana (que não parece em nada com o Hugo Carvana interpretando...). Vale a pena rever mestres como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Cesar Faria ( pai de Paulinho da Viola) e Luperce Miranda.



13 de agosto de 2010

Sexta Feira, 13 de agosto, com Zé Ramalho e sua trupe cordelista

Sexta feira? Dia 13? E ainda por cima agosto? como homenagear este dia cabalístico? Pensei em Black Sabbath, mas ia ficar meio óbvio. Aí me lembrei da capa mais sexta-feira 13 da nossa música brasileira (acima). Zé Ramalho - A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979) - CBS - é certamente a capa mais performática já feita por estas plagas. Estão lá, além do anfitrião paraibano, Zé do Caixão (José Mojica Marins), que dispensa apresentações, seu assistente careca, a atriz Xuxa Lopes, com uma providencial maquiagem vampiresca, e por último a figura naturalmente performática do artista Hélio Oiticica, que morreria logo depois. Toda esta encenação cordelista foi produzida pelo cineasta Ivan Cardoso, famoso por seus filmes de "Terrir" ( terror escrachado setentista). Além da capa para deleite, fiquem com um post do Som Barato do ano passado, que dá todas as coordenadas da obra em textos de Marcelo Fróes, Sidney Rezende e do próprio Zé Ramalho, uma matéria sobre exposição fotográfica de Ivan Cardoso em 2009 ( que inclui uma bela cena com todos os integrantes da contra-capa do 'Peleja') e uma seleção das grande músicas deste disco. A ultraconhecida Admirável Gado Novo, aparece em clipe feito para o Fantástico - e o mais inacreditável é a cena em que aparece um militar batendo em um cidadão - esse clipe foi ao ar em pleno governo Geisel. Terror é pouco.

7 de agosto de 2010

Morris e o elefante

Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar do jingle " Ô, Mônica, abrace o elefante, e beije ele bastante..". Quem tem por volta dessa idade também se lembra da música "Feelings" de Morris Albert, um grande sucesso de 1975. A música de Maurício Alberto Kaisermann (o verdadeiro nome de Morris) vendeu horrores no mundo todo, teve uma versão vertida para o punk ( pelo Offspring) e em 1988 foi declarada pela Suprema Corte da Califórnia ( EUA) como plágio de "Pour Toi", uma música francesa de 1956. Eu nunca escutei a tal música francesa, mas o jingle do Extrato de Tomate Elefante da Cica sim, e dá para se perceber semelhanças na linha melódica (mas não suficientes para se caracterizar plágio) . Segundo o criador da turma da Mônica e xará do compositor, a música Feelings se "inspirou" no jingle criado alguns bons anos antes. Abaixo, o jingle todo (c/a declaração de Maurício de Sousa) e a inevitável Feelings...

6 de agosto de 2010

Quadrinhos? Literatura? Não, Mr.Crumb quer discos 78 rpm brasileiros dos anos 20/30

Quem foi na Flip para ouvir de Robert Crumb alguma teoria nova sobre a nona arte ou a linguagem dos quadrinhos na novo jornalismo, perdeu a viagem. Na verdade, Robert Crumb quiçá sabe porque realmente está no Brasil. É famosa a sua aversão a entrevistas, holofotes e qualquer assunto relativamente recente. "Sou um artista da idade média", diz de si mesmo. E dá-lhe mau humor e respostas evasivas. Embora seja o grande propagador do quadrinho underground que surgiu paralelamente ao acid rock em San Francisco nos anos 60 e tenha feito arte para capa de disco de rock (Janis Joplin & Big Brother & The Holding Co.), Crumb odeia qualquer música feita depois dos anos 50 e não conhece nada sobre os novos autores de HQ. Seu maior lance é blues e música de raiz. Daí o seu real interesse por discos de 78 das décadas de 20 e 30 onde quer que aterrisse. Procurem no baú de seus avós, pois ele paga bem!
Para quem quer conhecer mais sobre o Robert Crumb:
Matéria do UOL ( Maurício Stycer), que me deu a deixa:

Hoje é dia de relembrar três grandes da MPB: Baden Powell, Adoniran Barbosa e Moacir Santos




Os dois, Baden e Adoniran, nasceram no dia 06 de agosto. Moacir Santos faleceu há 4 anos atrás, em um dia 16/08. Um dia para relembrar três artistas excepcionais.

Baden Powell - Um dos mais criativos violonistas brasileiros, nasceu em 06/08/1937 e faleceu em 26/09/2000 - mês que vem já se vão 10 anos. Veja, ouça e leia mais no blog-irmão Consciarte, do meu amigo Rick Berlitz, especialista em bossa-nova:

Adoniran Barbosa - Este gênio paulista, nascido em 06/08/1910, completa hoje 100 anos e não poderia ficar de fora. Aqui mesmo no blog, já postei sobre Adoniran três vezes: relembrem:
No mês, mas principalmente entre hoje e domingo, há uma intensa programação em torno dos 100 anos do homem. Destaquei alguns bons programas para vcs (e um vídeo, pra não perder o costume):
*Vida Rouca: Wandi Doratiotto e Danilo Moraes- Usando cavaquinho, violão, guitarra e samplers, os músicos dão novos arranjos às canções de Adoniran.
Quando: Hoje (dia 06), às 21h
Onde: Auditório Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº - portão 2 do Parque do Ibirapuera) - Tel: (11) 5908-4299
Quanto: De R$ 15 a R$ 30
*Feira de Artes da praça Benedito Calixto celebra Adoniran Barbosa - A praça reúne amigos e parceiros musicais do cantor, além de exibir livros, discos e fotos de Adoniran. O jornalista e historiador Celso Campos Jr. participa do Autor na Praça, autografando a biografia no encontro que contará também com Sérgio Rubinato, sobrinho que entoará alguns dos clássicos do tio Adoniran. Outros shows ao vivo e uma mostra de filmes com a participação do sambista também fazem parte da celebração.
Quando: Sábado (07), a partir das 14h
Onde: Praça Benedito Calixto, 159 - Pinheiros
Quanto: Grátis
*Trovadores Urbanos - O grupo de serenatas tocará as principais músicas do sambista em três sextas-feiras do mês de agosto, na Janela do Sobrado, em Perdizes. Sucesso de público, o Seresta de Sexta vem chamando a atenção pelo seu formato inusitado: os músicos se apresentam na janela do sobrado, literalmente.
Quando: Dias 13/8, 20/8 e 27/8, das 20h às 22h
Onde: Rua Aimberê, 651, Perdizes
Quanto: Grátis
*100 anos de Adoniran com shows no CCSP - Diversos cantores, como Fabiana Cozza (08/08), Cauby Peixoto (15/08), Wanderléa (22/08) e Demônios da Garoa (29/8) se apresentam ao longo do mês de agosto para homenagear o centenário do compositor.
No sábado (07/8) 19h, tem Vânia Bastos e Maria Alcina. Domingo (08/8) às 18h , Osvaldinho da Cuíca, Fabiana Cozza e Milena.
Quando: dias 07, 08, 14, 15, 21, 22, 28 e 29/8. Sábados, às 19h, e domingos, às 18h
Onde: Centro Cultural São Paulo – Sala Adoniran Barbosa (Rua Vergueiro, 1000) 11 3397-4002 Quanto: Grátis
* Ouça/veja Adoniran interpretando algumas de suas criações geniais:
Moacir Santos - Nascido em 26/07/1926 em Pernambuco, maestro, compositor, arranjador, instrumentista, Moacir é um mito. Mais conhecido dos músicos do que propriamente do público, fez história no Brasil com seus arranjos para Ari Barroso e grandes nomes da bossa e antes de partir definitivamente para os States nos anos 60, deixou-nos um dos mais importantes discos da música brasileira, As Coisas (1965). Não contente, fez história por lá também, lançando discos primorosos (o primeiro foi indicado ao Grammy) e regendo como nunca. Antes de falecer, em 06/08/2006, teve bons lançamentos em CDs no Brasil e foi finalmente reconhecido em seu país, ganhando o Prêmio Tim (disco do ano) e o Prêmio Shell (conjunto da obra).
Em alguns momentos de sua biografia, Baden Powell se fez presente:Vinicius de Moraes se referiu a ele no famoso "Samba da bênção", composto em parceria com Baden Powell, nos versos: "...A bênção, Maestro Moacir Santos, que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os Santos...". Moacir participou também, de um disco de Baden Powell, como pianista e cantando em dueto com Alaíde Costa.
Músicas de Moacir de Santos:

A vida cinematográfica de Cartola

O saudoso Cartola, gênio intuitivo da nossa música, virou filme em 2006, e ainda por cima, filme bem falado por público e crítica. E não deveria ser diferente. A sua vida foi tão conturbada e movimentada, que daria pra se fazer uma penca de filmes bons, todos com doses cavalares de drama, comédia, aventura e sobremaneira, amor. Cartola nasceu Angenor é só foi descobrir que não era Agenor nos anos 60. Nasceu pobre no subúrbio, em 1908, e já na década seguinte a família se mudou para o morro, a sua amada Mangueira, que na época contava com pouco mais de 50 barracos. Com muito custo consegue terminar o primário, mas aos 15 anos, com a morte da mãe, se afasta ( ou é afastado) da família e cai na boêmia. Ainda na juventude se mostra bamba no samba e no copo e se faz respeitado pela malandragem local. Faz bicos em tipografias e na construção civil, e é na obra que conquista o apelido para a vida inteira: para evitar que o cimento e o cal caísse em seu cabelo, usava um chapéu alto, quase uma cartola. Antes dos 20, adoecido pelas noitadas no meretrício, é amparado pela vizinha Deolinda, casada e com uma filha, que acaba acolhendo-o em casa. O marido, Astolfo não agüenta a situação e sai de casa, fazendo de Cartola um chefe de família precoce. Em 1925 funda com Carlos Cachaça, amigo pra vida toda e parceiro mais constante, e outros sambistas como Massú e Zé Espinguela, o Bloco dos Arengueiros, que depois de se unir a outros blocos da comunidade, vira escola de samba em 1928, a segunda do Rio de Janeiro, com o pomposo nome G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira. Tanto o nome como as inusitadas cores verde e rosa foram escolha de Cartola. A partir daí, se tornou o principal compositor da escola, que até 1940 sagrou-se quatro vezes campeã do Carnaval do Rio. Além do seu prestígio dentro da verde e rosa, lançou seus sambas para fora do morro, primeiro em 1931, com a venda de Que Infeliz Sorte para Mario Reis, que fez grande sucesso nas rádios ao ser repassada para Francisco Alves, e em seguida, com outras criações, nas vozes de Araci de Almeida, Carmen Miranda, Mário Reis e Sílvio Caldas (o último,também parceiro). Com outro parceiro, Noel Rosa, compôs muitos sambas que se perderam nas noites de bebedeiras de ambos e nunca foram gravados – a exceção foi o samba ‘Qual foi o mal que te fiz’, gravado por Francisco Alves e creditado só ao mangueirense. Grande testemunha dessa parceria foi Deolinda, que deu muito banho no reincidente Noel, que vivia encharcando com seu companheiro e acabava pousando por ali. Noel logo faleceu, os sambas pingavam aqui e ali, mas o dinheiro era sempre curto e Cartola precisava de um emprego fixo. Na virada da década cria com Paulo da Portela um programa de rádio bem diferenciado, onde os ouvintes eram apresentados a sambas inéditos da dupla e podiam batizá-los. Também são dessa época as famosas gravações do maestro Leopoldo Stokowski no navio S.S.Uruguay, atracado no Rio em uma daquelas viagens da “boa vizinhança” EUA-Brasil. O maestro juntou a nata da música popular brasileira da época (Pixinguinha, Donga, João da Baiana, componentes da Mangueira, entre outros) e as execuções captadas na ocasião saíram posteriormente nos EUA em álbuns de 78 rpm. Algumas dessas faixas chegaram a sair no Brasil décadas depois em tiragem limitada através do Museu Villa-Lobos, mas logo voltaram a ser itens raríssimos como de início (para conhecer toda a saga, leiam as heróicas reportagens de Daniella Thompson feitas em 2005 http://daniellathompson.com/Texts/Stokowski/Cacando_Stokowski.htm .Cartola, claro, estava entre os escolhido e foi elogiado pessoalmente por Heitor Villa-Lobos, que ajudara o músico americano, mas dinheiro que é bom, never( na verdade, o compositor chegou a receber, um ano e meio depois, um pagamento que lhe rendeu três maços de cigarros vagabundos). Em 1941, logo depois de algumas apresentações com Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres em São Paulo, Cartola simplesmente desaparece de cena. Por 15 anos, escafedeu-se do mapa! Depoimentos posteriores do compositor dão algumas pistas desse período, mas propositadamente o mantém na obscuridade: ‘coisas pesadas’ e ‘me envolvi com uma mulher’ são os termos usados. O que se sabe é que até 1946, ficou à beira da morte por conta de uma meningite e enviuvou-se de Deolinda. O fato é que Cartola sumiu, e do esconderijo em que estava, ainda pôde ouvir ou saber da vitória de sua Mangueira em 1948, com um samba seu e de Carlos Cachaça, “Vale do São Francisco”. Muitos achavam que o sambista tinha batido as botas, até que em meados dos anos 50, foi ‘encontrado’ pelo cronista Stanislaw Ponte Preta, lavando carros em um condomínio de Ipanema. Logo em seguida, Sérgio levou-o de volta para a rádio e Jota Efegê conseguiu-lhe um emprego no Diário Carioca. Outros como o cartunista Lan e o crítico e especialista Lúcio Rangel também abriram-lhe portas. Cartola voltava à vida. No fim da década, já enamorado de Eusébia Silva do Nascimento, a Zica,consegue algumas pontas em filmes, como no famoso Orfeu Negro de 1959 (veja aqui a aparição do casal nos 5min55: http://www.youtube.com/watch?v=ZtDNtvAJOC0 ).
Nos anos 60, volta a falar com o pai, reaproxima-se das composições e abre a porta de sua casa para os diversos amigos sambistas e boêmios. Nestas reuniões, onde a boa comida de Zica e a roda de samba imperavam, brota-se a idéia de um restaurante, que viria a se tornar realidade em 1964, com a inauguração do Zicartola, em 1964, na Rua da Carioca. Logo a casa se torna famosa, tanto pelos quitutes de Zica, como pela reunião da melhor música feita no morro e na cidade. Sambistas veteranos encontravam-se ali com a nova geração: Nara Leão ( que gravaria Cartola no show Opinião), Zé Keti, presença constante no palco ( e que também participaria do Opinião), o jovem Paulinho da Viola ( um dos primeiros da geração 60 a gravar Cartola), Nélson Cavaquinho e Hermínio Bello de Carvalho, entre outros. A casa não durou muito, mas ficou pra sempre cravada na história do Rio do Janeiro. Cartola prosseguiu, ainda pobre, mas finalmente com casa própria e emprego fixo (como contínuo) e redescoberto pela nova geração. A sua maior frustração era não ter um disco próprio. Essa lacuna só foi preenchida em 1974, quando o produtor Pelão ( João Carlos Botezelli), que já havia feito milagre no ano anterior ao produzir o disco de Nelson Cavaquinho, conseguiu convencer Aloísio Falcão, da gravadora Marcus Pereira, a fazer um disco solo do veterano compositor. Depois de algumas resistências internas, o disco não só saiu, como foi aclamado pela crítica e virou clássico no ato. Dois anos depois, repetiu-se a dose e o sucesso foi ainda maior: duas das músicas mais conhecidas de Cartola entraram no vinil de 76, ‘As Rosas Não Falam’ e ‘O Mundo é um Moinho’. A fase era tão boa, que Cartola finalmente estreou seu primeiro show individual, um sucesso que ficou em cartaz por meses.
A repercussão dos trabalhos na Marcus Pereira fez com que o compositor assinasse contrato com a major RCA Victor, que providenciou a produção de Sergio Cabral para o próximo disco, outro primor. Aos 70 anos, engatilhou ainda um quarto disco solo, enquanto finalmente tinha um retorno financeiro e um conforto merecedor junto à Zica. Mas a saúde começava a cobrar os excessos de uma vida toda. Cartola ainda fez alguns shows e recebeu merecidas homenagens, até que em novembro de 1980, ao lado de sua amada Zica, despediu-se da vida e entrou para sempre na história da música brasileira. Um filme é pouco para Cartola. Que se façam outros. Que venham outros livros, que se divulgue o site ( abaixo). Cartola, sábio do povo, poeta intuitivo, melodista nato, merece.
*Site: http://www.cartola.org.br/
*Com o pai (trecho do filme Cartola-2006): http://www.youtube.com/watch?v=acLkgRX28D8
*Com Paulinho da Viola (trecho do filme Cartola): http://www.youtube.com/watch?v=26wDkehacic&feature=related

29 de julho de 2010

Uma Noite em 67

A Folhona finalmente soltou hoje uma matéria consistente sobre música/cinema ( pois vem apanhando do Estadão nesta área por meses). O tema é o aguardado filme "Uma Noite em 67" de Ricardo Calil e Renato Terra, que tenta resgatar o clima de um dos festivais mais disputados de todos, o III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, aquele que teve violão jogado na platéia e levou para a final Chico Buarque e MPB-4 (Roda-Viva), Caetano Veloso e Beat Boys(Alegria, Alegria), Edu Lobo e Marília Medalha ( Ponteio) e Gilberto Gil e Mutantes ( Domingo no Parque). Teve também Roberto Carlos surpreendendo ao levar para a final "Maria, Carnaval e Cinzas" do ex-lavrador Luis Carlos Paraná. Fora as vaias, muitas vaias. O documentário foca na noite da finalíssima, incluindo a apresentação ( completa, não só do arremesso) de Sérgio Ricardo ( já mostrada aqui), além de preciosas declarações dos envolvidos, que ao que parece, longe do calor dos acontecimentos, finalmente desanuviam historicamente detalhes cruciais do festival e consequências posteriores. Pena que muitas das declarações, como as de Maria Medalha e Arnaldo Baptista, só constarão no DVD. O filme já foi visto em abril no festival É Tudo Verdade e teve pré-estréia na segunda (26), mas a estréia comercial é amanhã (30), no Frei Caneca Unibanco Augusta (tels: 3288-6780 -salas 1 a 3 e 3287-5590 -salas 4 e 5), Espaço Unibanco Pompeia (Tel: 3673-3949), Frei Caneca Unibanco Arteplex (Tel: 3472-2365), Cine UOL Lumière (Tel: 3071-4418) e Cine Bombril (Tel: 3285-3696). Segue a matéria da Folha + uma esclarecedora entrevista com Sérgio Ricardo na Folha.com.

26 de julho de 2010

Anima Mundi

Aos 18 anos de idade, o festival internacional de animação Anima Mundi reflete bem a maturidade alcançada pelo setor no Brasil. E foi o próprio festival um dos vetores que alavancaram a animação a um nível nunca antes visto. Se lá no início, em 93, o festival idealizado pelos animadores Aída Queiroz, Cesar Coelho, Lea Zagury e Marcos Magalhães, tinha o objetivo de mostrar e divulgar os diversos trabalhos nacionais e internacionais, tanto os cults como os que não conseguiam botar a "cara" pra fora em circuito comercial, hoje ele pode ser considerado um verdadeiro catalisador do setor, por difundir, debater e atrair empresas e patrocínios. Estão aí os longas em produção, as parcerias com emissoras de tv, as produtoras independentes e os contatos externos que comprovam a excelente fase. A versão carioca do festival fechou agora e a partir de quarta, 28, começa a maratona paulistana, que segue até o dia 1º de agosto.
Neste ano, além de mestres e escolas de todas as partes do globo, haverá a participação ao vivo nos debates de Stephen Hillemburg, o criador do fenômeno Bob Esponja.
Mais informações - horários, locais de exibição e preços - no site oficial do evento.
http://www.animamundi.com.br/

24 de julho de 2010

A arte de Gonçalo Pavanello

Na semana, estava andando em Santo André com as crianças, quando resolvi mostrar-lhes o belo casarão antigo que comporta a Casa do Olhar, um belo espaço próximo à igreja do Carmo, totalmente dedicado às artes e tombado desde 1992. Além da bela arquitetura da casa, a criançada se deliciou com a exposição presente, do artista plástico e designer gráfico Gonçalo Pavanello. Sua arte chama a atenção pelas múltiplas cores, a visão surrealista e as colagens surpreendentes. Pena que estou postando tarde e a mostra só vai até hoje. Quem não conseguir ver ao vivo, pode visitar a página do artista e conhecer sua trajetória e obras, pelo menos até uma outra oportunidade de presenciar seu trabalho in loco. Vale a pena e alegra o espírito.

22 de julho de 2010

Chega ao fim a longa história impressa do Jornal do Brasil


O JB impresso faria 120 anos em 2011, mas conforme o dono, Nélson Tanure, o velho jornal não estará mais nas bancas para comemorar a data. Em setembro, segundo o mesmo Tanure, permanecerá em atividade somente a redação do JB online. Triste fim para um jornal que viu três séculos diferentes em sua existência e revolucionou a imprensa brasileira pelo menos uma vez, em sua reforma gráfica iniciada em 1956 e consolidada nos anos 60. De 1891, ano de fundação até meados dos anos 50, o Jornal do Brasil se transformara numa grande tribuna popular, com classificados enchendo as páginas e as notícias cotidianas tomando o lugar da cobertura política mais ostensiva. Se o jornal nascera totalmente intelectual, primeiro com Joaquim Nabuco e logo depois com Rui Barbosa, sofrendo reveses políticos, invasões e até fechamento temporário, ao entrar no século XX, assumiu uma postura popularesca - a até sensacionalista em algumas ocasiões- mas sem tomar partido em movimentos políticos, como o da Revolta da Chibata. Assim o jornal permaneceu por 50 anos: popular, carregado de classificados, voltado para a periferia e os esportes. No primeiro período, os irmãos proprietários Mendes passaram o controle para o Conde Pereira Cordeiro, que seguiu no leme até a sua morte no início dos anos 50. E foi a partir daí que o Jornal do Brasil começou de fato a marcar história na imprensa nacional. Primeiro, a viúva, Condessa Maurina, assumiu, trazendo para o comando o já veterano de jornal Aníbal Freire e o genro Manuel Francisco do Nascimento Brito. Em seguida, com a vinda do poeta Reynaldo Jardim, que já tinha programa na rádio JB, inicia-se o Suplemento Dominical, embrião do Caderno B, que iria misturar em suas páginas, poesia com ciência, artes plásticas, música e literatura, tudo com um grafismo concretista inédito. O CDJB, iniciado em 1956 foi o primeiro caderno da imprensa brasileira exclusivamente dedicado à variedades e cultura e tornou-se modelo para todos os segundos cadernos e cadernos culturais subsequentes. Foi em suas páginas que o movimento concretista cravou o seu manifesto inaugural. A transformação do caderno incentivou a Condessa a mexer graficamente em todo o jornal. Nesse período de transformação gráfica passaram pela chefia editorial Odylo Costa Filho ( 57 a 59), Janio de Freitas (59 a 61) e Alberto Dines, que foi quem consolidou a reforma editorial e permaneceu no jornal por 12 anos. Os nomes que passaram pelo Suplemento e Caderno B ( desde 09/1960) impressionam: Reynaldo Jardim, Mário Faustino, Ferreira Gullar, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Mário Pedrosa, Amílcar de Castro, Drummond, Clarisse Lispector, Fernando Sabino, Henfil, Ziraldo, Carlos Leonam. Sem falar nos colunistas de outros cadernos, como João Saldanha, Carlos Castelo Branco, Armando Nogueira e Alceu Amoroso Lima. Outro grande feito no período foi a implementação por Dines, do Departamento de Pesquisa ( depois CPDoc) que também serviria de modelo para outros bancos de dados que viriam. Bom... depois foi depois. Veio a ditadura, houve algumas represálias políticas e a censura de praxe. O último grande acontecimento em termos editoriais foi o surgimento em 1976 do Caderno Domingo, que fez até um certo estardalhaço. Quanto aos bastidores, os proprietários sempre bateram na tecla que durante a ditadura houve boicote econômico intenso ao jornal, que inclusive foi prejudicado em várias concessões para emissoras de TVs. Independente do que houve realmente, o jornal começou a ficar mal das pernas ainda nos anos 70 e nunca mais se estabilizou. A Condessa morreu nos anos 80, Nascimento Brito se afastou nos anos 90 e o jornal ficou nas mãos de Nelson Tanure a partir de 2001. Nos últimos tempos, diminuiu de tamanho, enxugou páginas, demitiu medalhões e até as tirinhas de quadrinhos sumiram. Triste fim para um jornal que deixou marcas.

16 de julho de 2010

Almanaque do Malu - Ano 1

Hoje o blog completa 1 ano. Agradeço a todos que compartilham este espaço, seja comentando, dando dicas, replicando no twitter, colaborando com idéias e textos. A todos que ajudam e seguem o blog, meu muito obrigado. Para comemorar a data, pensei num post bem almanaqueiro. Selecionei alguns aniversariantes do dia, o que deu pano pra uma ótima miscelânea de música e cinema:
*Ginger Rogers ( nasceu em 16/07/1911)-http://www.youtube.com/watch?v=HYHZh-xnqhE&feature=related
*Elizeth Cardoso (nasceu em 16/07/1920)-http://www.youtube.com/watch?v=MTpDo6SWEy0&feature=related
*Bola Sete (nasceu em 16/07/1923)- http://www.youtube.com/watch?v=iD1eUStbuUY
*Eliane Lage (nasceu em 16/07/1928)-http://www.youtube.com/watch?v=NHGDszwz7Fc
*Stewart Coperland (nasceu em 16/07/1952)-http://www.youtube.com/watch?v=q3QXA0Ki-RI

Além destes, dois grandes das artes faleceram em 16/07. Oduvaldo Vianna Filho morreu em 16/07/1974 e Sidney Miller em 16/07/1980. Ambos antes dos 40 anos:
http://www.youtube.com/watch?v=cKZwbs24qXQ
http://www.youtube.com/watch?v=MsY0QsgTQyQ

O Cruzeiro na rede

O Léo Engelmann, sempre com dicas ducas, me mandou por e-mail link com a revista Cruzeiro n°1, de 1928, na íntegra para degustação. Pelo visto, é só um aperitivo do responsável pelo acerco, Dr. Douglas Ferrari. Não é a primeira vez que lançam a revista na internet. O site Memória Viva vem fazendo um trabalho primoroso de resgate, não só disponibilizando o conteúdo de verdadeiras jóias editoriais, mas adaptando as páginas para a leitura online. Lá tem várias edições do O Cruzeiro e otras cosas raras. Toda a iniciativa para capturar do limbo revistas como Cruzeiro e Senhor, só para citar as publicações mais relevantes, torna-se um oásis para os olhos. Estes dois exemplos aqui, pela qualidade, são oásis das mil e uma noites na paisagem árida da memória nacional.
http://www.memoriaviva.com.br/

13 de julho de 2010

Rock Rock Rock

No Dia Internacional do Rock, não vou ficar explicando o rock, nem conjecturando sobre. Rock é um estado de espírito, música velha para jovens, música jovem para velhos. Rock é Elvis, e também é Sex Pistols. É Beatles, Stones, Dylan, Led, Legião, Cássia Eller e Tinta Preta. É Bill Halley e Ramones. The Who e The Smiths. PIL, REM, ZZTop, 10CC, MC5, 365. Ira e Iron. Nirvana e Mutantes. Celly Campello e Autoramas. Stone Temple Pilots e Kães Vadius. Rock pode ser rural, punk, soft, hard, roll, progressivo, eletrônico, acústico, de garagem, de arena, farofa, surf, skate, de baile, de game, psicodélico, jovem guarda, instrumental, rockabilly, virtual. Rock é rock!
Top Rock 25 :
1- http://www.youtube.com/watch?v=tpzV_0l5ILI
2-http://www.youtube.com/watch?v=QFq5O2kabQo
3-http://www.youtube.com/watch?v=S1TKUk9nXjk
4-http://www.youtube.com/watch?v=PShb9YiCEy0&feature=related
5-http://www.youtube.com/watch?v=Ey64bKA2mKA&feature=related
6-http://www.youtube.com/watch?v=j157erDp3oM&feature=related
7-http://www.youtube.com/watch?v=uQYDvQ1HH-E
8-http://www.youtube.com/watch?v=76yQFV58-0o
9-http://www.youtube.com/watch?v=fN6XRwnYzL4
10-http://www.youtube.com/watch?v=QDoW1vFLJp4
11-http://www.youtube.com/watch?v=N9i2fqxSjTI
12-http://www.youtube.com/watch?v=RdyEEk5WrrI
13-http://www.youtube.com/watch?v=ICXdQR1VVhw
14-http://www.youtube.com/watch?v=PqwFfGgLPzM&feature=PlayList&p=34B71EE95C06B0B0&playnext_from=PL&index=0&playnext=1
15-http://www.youtube.com/watch?v=dNcjo28HU54
16-http://www.youtube.com/watch?v=kdqLt2A9STk
17-http://www.youtube.com/watch?v=1QP-SIW6iKY
18-http://www.youtube.com/watch?v=O90Hj75wJkw
19-http://www.youtube.com/watch?v=OVwXJZXam8k&feature=related
20-http://www.youtube.com/watch?v=5Fga738T4HI&feature=related
20-http://www.youtube.com/watch?v=jspgKZN5DjU&feature=related
21-http://www.youtube.com/watch?v=6cXZk7T0fwM
22-http://www.youtube.com/watch?v=7tDMbEeCHFA
23-http://www.youtube.com/watch?v=4R1TvVtBYbc
24-http://www.youtube.com/watch?v=oPAkELRTwb4&feature=related
25-http://www.youtube.com/watch?v=FqWYyBtKrx0&feature=related

Paulo Moura: Seis décadas de sopro que oxigenaram a música instrumental brasileira

Paulo Moura faleceu ontem e eu nem sabia que ele estava doente. Talvez porque a imagem que eu sempre tive dele era de vitalidade, vigor, super poder. Um super herói do sax e da clarineta, que podia estar de manhã gravando, à tarde participando de algum ensaio de orquestra e à noite, soprando magia em alguma gafieira de subúrbio ou recebendo prêmio importante em festival portentoso. E sempre foi assim. Desde os anos 40, quando começou a estudar música para fugir da profissão de alfaiate que o irmão mais velho lhe impingia. Bandeou pro lado do pai e dos outros irmãos, todos músicos. Em 1944 já tocava com o pai, Pedro Moura, em bailes populares de São José do Rio Preto, sua cidade natal. No ano seguinte, chega ao Rio e cai de cabeça nos estudos musicais e nos primeiros bicos como músico em gafieiras e inferninhos cariocas, até desenbocar no começo dos 50 nas grandes orquestras, primeiro na de Oswaldo Borba na Rádio Globo, e pouco depois transferindo-se para a TV Tupi com Zacharias e Sua Orquestra. Bom, a partir daí, super Paulo Moura dá asas a sua versatilidade e começa a se meter em vários projetos ao mesmo tempo. Grava com grandes músicos e cantores na EMI e na RCA Victor, entra para a cavalaria do exército - direto para a banda de música -, diploma-se como clarinetista na Escola Nacional de Música, toca com Leonard Berstein, e logo na sequência conhece Ary Barroso e sua fina orquestra, com quem viaja para o México. Ainda no início dos 50, enquanto excursiona com Ary Barroso, Paulo viaja à Nova York com o trompetista Julio Barbosa e ao tentar localizar seu ídolo Charlie Parker, acaba fazendo amizade com Dizzy Gillespie. Nessa época (e vejam só, ainda estamos em 1953), ensaia em sua casa com músicos considerados no futuro, precursores do que viria a ser a bossa nova, como João Donato, seu amigo desde sempre, Bebeto do Tamba Trio, e o "rapaz de bem" Johnny Alf, que visitava a turma para mostrar algumas de suas composições. Continua se aperfeiçoando nos estudos e perfilando sessions night para o pão do mês. Em 1956, finalmente um disco próprio: ao tomar conhecimento da gravação de Zé da Gaita para Moto Perpétuo de Paganini, se vira do avesso para executá-la na clarineta, em exaustivos ensaios e técnicas de respiração. O resultado da corajosa versão sai em um 78 rotações pela CBS que vira sensação nos programas de TV da época. Por esses tempos, organiza sua primeira orquestra, que chega a tocar semanalmente na Rádio JB e grava um 33 pela Sinter, mas logo Paulo se fixa na Rádio Nacional e aflora outra faceta de sua carreira que o seguiria dali por diante e lhe traria prestígio: a de arranjador e orquestrador, azeitada por preciosos ensinamentos de Moacir Santos e Maestro Cipó. Outro feito de herói, em pleno 1958 da guerra fria: acompanhar os cantores Nora Ney, Jorge Goulart, Dolores Duran, Maria Helena Raposo em excursão por território soviético. De quebra, na volta, grava o LP Sweet Sax, com standards americanos. No ano seguinte, entra para a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio, espaço que só iria deixar em 1978. Depois de 2 LPs, um com obras de Radamés Gnatalli e outro com tangos e boleros, Paulo adentra a bossa nova pela porta da frente, ao integrar o Bossa Rio, que iria participar do famoso festival da bossa no Carnegie Hall em 1964. Primeiro conjunto instrumental do movimento a incorporar sopros, o Bossa Trio surgiu das improvisações de Moura com Sérgio Mendes e o baixista Otávio Bailly no Beco das Garrafas e foi com essa formação que gravou o LP
Cannonball Adderley e o Bossa Rio, com o conceituado saxofonista, no mesmo ano do Carnegie. Outra contribuição essencial sua para a bossa foi a participação como arranjador de quatro faixas do LP Edison Machado é samba novo, um disco seminal para a música instrumental brasileira. No decorrer da década, se aprimora como arranjador e lidera formações cruciais no período: Orquestra Popular, Paulo Moura e Quarteto ( com Wagner Tiso, que começava aqui uma longa parceria, Luis Alves e Paschoal Meirelles) e Hepteto Paulo Moura, os dois últimos lançando uma sequência fundamental de LPs de bossa/jazz. Nos anos 70, não só continua múltiplo, como surpreende. O famoso Milagre dos Peixes Ao Vivo de Milton Nascimento, gravado no Teatro João Caetano no Rio, tem sua batuta à frente da orquestra. Simultaneamente, a música Mandrake, feita com Wagner Tiso, faz inusitado sucesso nas rádios cariocas ( por ser tema instrumental). Em 1976, surpreende o mundo da música com o LP Confusão Urbana Suburbana e Rural com produção de Martinho da Vila, que vira clássico instantâneo ao unir percussão afro, sopro e chôro em temas próprios ou em parcerias com Martinho e Tiso. Com esse sucesso, Paulo Moura intensificou suas viagens internacionais, incluindo África e Ásia. Nesta fase, incluiu duas novas áreas em seu repertório: trilha ( como a que fez para Plantão de Polícia, na Globo) e atuação ( pequenas participações como ator no cinema). Entre meados dos 70 e toda a década seguinte, Moura mergulhou em duas ressurreições: a do Chôro, onde se tornou um dos líderes da retomada e o da Gafieira, a partir de uma descompromissada apresentação no Gafieira Estudantina, no Rio, que iria estender-se por oito meses e mudaria o foco de sua carreira. Os lançamentos vêm em torrente: Consertão (1982), com Elomar, Arthur Moreira Lima e Heraldo do Monte, belo encontro erudito/popular barroco, Mistura e manda (1983), uma retomada do espírito do Confusão Suburbana, e como tal , sucesso internacional, Clara Sverner e Paulo Moura (1983), primeiro projeto de muitos com Clara, Encontro (1984), com Clara Sverner (piano), Turíbio Santos (violão) e Olívia Byington (voz), Gafieira Etc & Tal (1986), Vou vivendo (1986), de novo com Clara Sverner, Quarteto Negro (1987), com Zezé Motta, Djalma Correia e Jorge Degas, cujo repertório foi tocado no Olympia de Paris e Clara Sverner e Paulo Moura interpretam Pixinguinha, de 1988 ( olha ela aí outra vez). Em 1992, mais um disco a constar nas listas tops da música instrumental internacional: Dois Irmãos, gravado com Raphael Rabello, pela Caju Music, que logo lhe faz ser agraciado com o Prêmio Sharp de Melhor Instrumentista Popular do ano e que iria se repetir em 1999, com o CD Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas, nas categorias Melhor Grupo Instrumental e Melhor Solista, trabalho que também lhe daria o Grammy Latino. O novo século entrou e Paulo Moura continuou com lançamentos de fôlego, do alto de seus setenta e alguns anos de janela: K-Ximblues, homenagem ao seu ídolo do sax K-Ximbinho (2001), o ao vivo Paulo Moura visita Gershwin & Jobim (2001), Estação Leopoldina, incursão pelos sambas dos subúrbios ligados pela rede Leopoldina de trens ( indicado ao Grammy de 2003), a inevitável parceria de Paulo Moura com o precoce Yamandu Costa em El Negro Del Blanco, de 2004, que lhe garantiu o Prêmio Tim de Melhor Solista Popular. Em 2006, o CD Dois Panos para Manga, concebido em uma reunião na casa do diretor de TV Mario Manga, traz surpresas e comoção no encontro de dois gênios. Paulo Moura reune-se ao amigo de adolescência João Donato em um sutil passeio pelo repertorio do Sinatra Farney Fã Club, aquele mesmo clubinho em que ambos desfiavam sons que se incorporariam no DNA da bossa nova. No ano seguinte, mais queixos caídos e ouvidos atônitos na audiência, com o CD Samba de Latada, trazendo sons do sertão pernambucano. Já o CD Pra Cá e pra Lá, de 2008, é mais um indicado ao Grammy. No ano passado, 76 anos nos ombros e fôlego de menino, excursionou para a Tunísia e Equador, com grande repercussão. No meio do ano, ainda guardou forças para o CD AfroBossaNova, em parceria com o guitarrista baiano Armandinho, e mais uma vez o calejado instrumentista mostrou que jazz, samba e batuque podem dar um suculento caldo. Paulo Moura, mexeu, remexeu, temperou e misturou a música brasileira por seis décadas. Muitos tentam essa mistura, mas no caso específico aqui, há um componente único: o super-sopro.
(com informações do site Paulo Moura e do Dicionário Cravo Albin de MPB)
Paulo Moura em ação, em shows e documentário:

10 de julho de 2010

Sönksen

Estava outro dia na casa do meu primo Roberto Alves Bezerra, professor dos bons, quando ele me veio com uma latinha sui generis que guardara por anos e encontrara agora, esquecida no fundo de uma gaveta. Não acreditei no que vi: a latinha branca em suas mãos era nada mais nada menos que a saudosa embalagem metálica ovalada das balas Sönksen!! Não resisti e cliquei-a para este post, homenagem à todas as guloseimas desaparecidas de nossa infância.

8 de julho de 2010

Vinte anos depois de Cazuza, Ezequiel Neves fecha seu longo, louco e generoso ciclo na cultura rock nacional


Ezequiel Neves quebrou o padrão de muitos crazys dos anos 70 e ao invés de viver 1000 anos em 10, viveu 74 anos à 1000 por hora. Incessante, irreverente e exagerado como seu amigo maior, Cazuza, sempre fez tudo o que lhe deu na veneta, e como não poderia ser diferente, resolveu partir no dia 07/07, dia da morte do cantor. Coincidências não existem, meus caros. Não para Ezequiel Neves.
Ezequiel foi um dos nossos mais importantes críticos de música, principalmente quando o assunto era rock. Participou dos veículos mais autênticos da década de 70, como a primeira versão brasileira da Rolling Stone, hippie até o osso e que não durou muito. A sua vida sempre foi pautada pelo rock, primeiro escrevendo, e logo empresariando bandas, caso do Made in Brazil, ainda em meados dos anos 70. Empresariando é modo de dizer, pois com ele a função se transformava em apadrinhamento mesmo, no bom sentido da palavra: brigava pelos pupilos, corrias atrás de shows, insistia com veemência nas rádios, e se fosse o caso, ajudava a carregar os instrumentos. No jornalismo, os pseudônimos utilizados não negavam sua preferência pelo estilo: Zeca Jagger e Zeca Zimmerman, em homenagem ao vocalista da sua banda preferida e o maior escritor do rock, Bob Dylan, respectivamente. Quando usou nome feminino , também deu bandeira para outra paixão sua ao longo da vida: Angela Dust era o apelido de uma droga sintética produzida nos 70.
No final da década, bandeou para a gravadora Som Livre a pedido do produtor Guto Graça Melo, onde trabalhou com cantores como Elizeth Cardoso e Cauby Peixoto. Quando voltou à mesma gravadora depois de um breve hiato, sua função já era mais parecida com um caçador de novos talentos e foi dentro da Som Livre, em 1982, que caiu em sua mão uma certa fita de um certa banda de rock novata. Essa demo, mal ele sabia, iria transformar sua vida para sempre. Segundo relatos do próprio Zeca, a fita estava em poder de Leonardo Neto ( atual empresário de Marisa Monte) e Nelson Motta ( o homem que estava em vários lugares ao mesmo tempo nos anos 70), que pensavam em incluir uma ou duas músicas daquele material em uma coletânea “jovem”. Ezequiel se apoderou da fita, se apaixonou no ato pela banda, e principalmente pelo abusado vocalista e suas letras fora do padrão rock -logo descobriu que era Cazuza, conhecido seu das noites boêmias do Leblon. Resolveu “assumir” os meninos e bateu de frente com a cúpula da Som Livre para lançar um disco inteiro, já que Cazuza era filho do todo poderoso João Araújo, presidente da empresa. O produtor tinha relações estreitas com o executivo, e acabou ganhando a parada. O resto é história: o Barão estourou, Cazuza logo ficou maior que a banda, Ezequiel participou de composições do vocalista (‘Codinome, Beija-Flor’ e ‘Por Que a Gente é Assim?’) e se tornou seu amigo/conselheiro ad eternum. Depois do desencarne precoce de Cazuza, Zeca seguiu a mil, pois como seu comparsa mesmo dizia, o tempo não para. Impulsionou Cássia Eller para as paradas, reavivou a carreira de Ângela Ro Ro e foi mostrado de corpo e alma no filme Cazuza, de Sandra Werneck. Continuou “guru” dos roqueiros e popeiros de plantão, dando forças para Frejat e seu Barão, Ritchie, Kid Abelha, entre outros.
Uma de suas últimas aparições na TV foi justamente no especial de Cazuza feito pela Rede Globo, onde mesmo debilitado por vários problemas de saúde, fez questão de dar seu essencial depoimento.
Então Ezequiel Neves finalmente cansou. Vinte anos depois de Cazuza, resolveu alçar vôo para outras dimensões. A mil por hora, tenham a certeza.

5 de julho de 2010

O colossal legado de Aramis Millarch


Aramis Millarch foi um dos maiores jornalistas culturais do Brasil e deixou para a posteridade, números que impressionam: 50 mil artigos, escritos em cerca de 20 periódicos; 4 mil fitas ( cassete e de rolo) com 572 personalidades entrevistadas em 720 horas de gravações; um acervo pessoal de 32 mil discos, a maioria de jazz e MPB, e 5 mil livros, quase todos de cinema.
Aramis adorava o que fazia e escrever sobre cultura, travando contato com personalidades da área, era para ele necessidade básica, como comer e dormir. Nascido em 1943, antes dos 18 anos já era repórter e em 1962 iniciou a seminal coluna Tablóide no jornal Estado do Paraná, que manteve por longos 30 anos, até a sua morte, em 1992, um dia após completar 49 anos. Mas a coluna era só a espinha dorsal das múltiplas atividades das quais participou. Mesmo residindo em Curitiba, escreveu sobre música, cinema e cultura em vários veículos pelo Brasil, muitos deles assinados com um dos 10 pseudônimos que criou ao longo da carreira jornalística. No Última Hora, assinava J. Lyra de Moraes ( J de João Gilberto, Lyra de Carlos Lyra e Moraes de Vinicius de Moraes) e no fatídico AI-5, além de receber carta de demissão do jornal, ainda teve cassada sua autorização para ministrar aulas no curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná. Laureado com o Prêmio Esso de Jornalismo, escreveu também para emissoras de rádio - Rádio Cultura foi uma delas - e com Elói Zanetti, produziu o programa Domingo sem Futebol ( Rádio Ouro Verde). Incansável, fundou e foi primeiro presidente da Associação dos Pesquisadores de Música Popular Brasileira, além de participar de inúmeros júris de festivais, debates e movimentos pró-cultura.
Felizmente, graças ao empenho de sua viúva, Marilene Zicarelli Millarch e do filho Francisco Millarch, todo esse legado descrito não se perdeu no tempo. A sua famosa coluna Tablóide pode ser consultada e pesquisada no site Tablóide Digital ( http://www.millarch.org/ ), página mantida pela família, que pretende disponibilizar digitalmente todos os artigos escritos pelo jornalista em 30 anos ininterruptos de colaboração na imprensa. Para esta imensa empreitada, criou-se, aliás, um link com instruções específicas para que qualquer colaborador voluntário participe da equipe de produção e ajude na indexação e revisão. Outro grande trabalho de resgate foi iniciado em 2006, quando os produtores Samuel Ferrari Lago, Rodrigo Barros Homem D’El Rey e Luiz Antonio Ferreira conheceram através de Francisco Millarch o gigantesco material guardado pelo jornalista com entrevistas em áudio e vídeo. Com o patrocínio da Petrobrás e captado pela Lei Rouanet, conseguiram finalizar e lançar em dezembro de 2009 o box Aramis Millarch – 30 anos de Jornalismo Cultural, incluindo oito DVDs e um livro biográfico, distribuído para 450 bibliotecas brasileiras e disponível por dois anos no site Tablóide Digital. Ali estão encontros inesquecíveis com grandes personalidades da nossa cultura: Elis Regina, Chico Anysio, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil, Cartola, Hermínio Bello de Carvalho, Lúcio Alves, Carlos Lyra, Tito Madi, Toquinho, Flávio Rangel, Zuza Homem de Mello, João de Barro, Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé, Francis Hime, Paulo Leminski, Herivelto Martins, Maysa ( em sua última entrevista), entre tantos outros. Um dos homens que mais lutaram pela preservação da cultura brasileira, Aramis Millarch teve seu esforço de uma vida recompensado: ao contrário de tantos acervos essenciais, destruídos e inutilizados pelo Brasil afora, o seu colossal legado vive e servirá de fonte para inúmeras gerações futuras.

2 de julho de 2010

Soul Train - Trem da black music, inédito no Brasil

No ar entre 1971 e 2006, Soul Train foi um dos três programas mais longevos da televisão americana. Unindo música, platéia ao vivo e dança, mostrou em mais de três décadas o surgimento de diversos estilos da black music, além da aparição de vários artistas consagrados. O programa de auditório estreou em 02/10/1971 e virou cult já em seus primeiros tempos, por antecipar tendências, mostrar pela primeira vez estilos de dança - como o hip-hop e street styles do subúrbio e festejar com muito swing e balanço a cultura negra americana como nenhum outro. Um dos quadros de maior sucesso era o Soul Train Line Dance, onde dançarinos revezavam passos entre duas filas paralelas.Mesmo depois de seu término, em 23/03/2006 - 35 anos de existência portanto - continuou sendo exibido por mais dois anos em formato compacto como The Best of Soul Train, com seus melhores momentos. Chegou a ter também sua versão na televisão britânica e atualmente empresta a marca para uma grande premiação musical anual. As emissoras daqui nunca se interessaram em retransmití-lo, e pelo menos até onde eu sei, nem mesmo trechos chegaram até nós. Mas graças à internet, podemos hoje acompanhar toda a trajetória deste festivo e essencial programa, sempre apresentado pelo seu produtor executivo Don Cornelius. A Time Life chegou a compilar em 9 DVDs (!!!) o melhor do Soul Train, com 130 performances selecionadas e a Warner finaliza, com roteiro de Malcolm Spellman, adaptação ficcional para o cinema. Replicarão no Brasil? só com muita sorte. Fiquemos por enquanto com grandes performances disponíveis no Youtube ( e não são poucas), por ordem cronológica:
#(1971) -The Honey Cone - Want Ads - http://www.youtube.com/watch?v=17qH2wNtu-c&NR=1
#Episódio 26 (1972) - Curtis Mayfield -Get Down- http://www.youtube.com/watch?v=i0cNxS-MlpQ&feature=related
# Episódio 35 -The Jackson 5 -I Want You Back-http://www.youtube.com/watch?v=pBa56BSy_K4
# (1973) - The Jackson 5- Get it Together - http://www.youtube.com/watch?v=ieHDf6ViXAg
# Episódio 104 (1974) -The O'Jays -For the Love of Money - http://www.youtube.com/watch?v=OCkLEo-DT1Q
#(1974) - Isley Brothers - Whos's That Lady - http://www.youtube.com/watch?v=XXIxDSmtb84&feature=related
#(1975) - David Bowie - Interview+Fame - http://www.youtube.com/watch?v=g847umrk2jc
# Episódio 371 (1981) - Rick James -Superfreak - http://www.youtube.com/watch?v=zqBHC6f6Dko&feature=related
# (1981) (chute- não há referência de ano) -Brass Construction -One to One - http://www.youtube.com/watch?v=cNUKJR_UTgM
# (1983) - Con Funk Shun -You Are the One -http://www.youtube.com/watch?v=suamEHV1AK8&feature=related
# Episódio 464 (1985) - The Temptations - Treat Her Like A Lady- http://www.youtube.com/watch?v=KClf-hGluxA

30 de junho de 2010

O rarefeito Paulo Vanzolini circulando nas bancas

A Folha continua com sua coleção de discos em banca, Raízes da Música Popular Brasileira, e o homenageado da semana é o raro e único Dr. Paulo Vanzolini, zoólogo de profissão, sambista de intuição. Raro sempre - pelo seu próprio jeito esquivo, sempre passando ao largo dos holofotes - compôs poucas músicas, e as que viveram pra contar história, viraram standards, clássicos, jóias do nosso cancioneiro e do chamado samba paulista. No disquinho estão duas que chegaram ao grande público, Ronda e Volta por Cima, em interpretações definitivas de Márcia e Mauricy Moura, respectivamente. Grande parte das canções selecionadas para a coleção saiu no antológico disco Onze Sambas e Uma Capoeira, lançado por Marcus Pereira, ainda em fins dos anos 60, pelo selo Jogral. Jogral, pra quem não sabe, foi um pequeno grande reduto da melhor música do período (bons tempos de festivais e espetáculos em botecos) onde Marcus Pereira e o próprio Vanzolini frequentavam assiduamente e mantinham uma cota mínima na sociedade. Luis Carlos Paraná, ex-lavrador, compositor e intérprete participante de festivais, abriu o bar em meados dos anos 60, já com o intuito de abarcar a MPB que despontava desses inflamados concursos engendrados pelas emissoras de TV. O Jogral fez um sucesso enorme e corroborou para que Marcus Pereira se empolgasse e resolvesse homeagear um dos mais ilustres frequentadores da casa, o Dr. Paulo, que com o seu humor sempre afiadíssimo, rapidez de raciocínio e verve de cronista, já era considerado um gênio da raça. Pro disco foi um pulo. O selo saiu como Jogral mesmo, distribuido como brinde de fim de ano pela agência de publicidade Marcus Pereira em tiragem limitada. Para a homenagem, vários amigos e comparsas da boêmia - Adauto Santos, Cristina Buarque, o próprio Paraná - tocaram e cantaram canções que já conheciam, saídas de uma boca com cachimbo entre mesas apertadas e privilegiadas.Conto tudo isso, porque de lá pra cá, Paulo Vanzolini continuou saindo em tiragem limitada, mesmo com sua ilimitada genialidade. O disco de estréia foi reeeditado umas três vezes nos anos 70, sempre pelo selo Marcus Pereira ( a gravadora que sucedeu o selo Jogral e manteve a aura do bar e de LC Paraná, morto precocemente em 1970) além de outros lançamentos esporádicos até a caixa definitiva de 4 CDs lançada em 2003 com todas as suas 60 composições. Agora, depois de séculos, Paulo Vanzolini retorna em disco e desta vez é para os mortais. Entre apitos e vuvuzelas, dou vazão ao velho boêmio e comemoro.Golaço.

O AcervoSorve 1: Era Uma Vez Uma Capa - Alan Powers





Como já disse uma vez, esta página está ficando seriada, já que eu adoro inventar "capítulos" em série, como "Baú do Malu", "Discos que nos Tocam", etc. Aliás, preciso reviver este último, que revelou textos excelentes de grande repercussão e que acabei esquecendo em algum lugar de 2009. O Baú serve para desenterrar relíquias, mas eu sentia falta de uma série que mostrasse os itens novos que chegam aos montes. Há muito tempo, amigos especialíssimos que sabem dos meus guardados culturais, acabam me abastecendo com um livro aqui, uma enciclopédia ciclópica cá, um 78 rotações acolá. Só neste ano, duas coleções soberbas de LPs foram incorporadas ao acervo: a do meu cunhado Zé, ancorada no melhor da MPB e uma segunda, vinda do meu outro cunhado Flávio, na verdade uma conservada seleção do seu sogro Marcos com destaque para originais da Jovem Guarda e Beatles. Inauguro esta nova série com um item fantástico, saído da sacola mágica do meu chapa Paulico 7 Lagoas, sempre surpreendente, com petardos fantásticos que aterrissam em seu território cultural estratégico, e que me faz tê-lo como “conselheiro vitalício” do acervo e futuro curador do futuro centro cultural de um futuro próximo. Dêem uma sacada no visual deste livro em destaque! A obra é da Cosac Naify (2008), do original inglês Children’s Book Covers. O autor, Alan Powers, fez uma extensa pesquisa sobre capas de livros infantis através da história, com destaque para as européias,revelando mudanças técnicas ao longo do tempo e curiosas histórias dos autores, artistas e outros envolvidos. As páginas escolhidas lá no alto trazem surpresas: o urso Rupert, que até hoje freqüenta as matinées da TV Cultura, apareceu em livro na década de 20 e m coletânea de suas tiras de jornais!! O outro personagem em foco é nada mais nada menos que o Pequeno Stuart Little, o ratinho que foi adaptado para Hollywood e freqüentador de sessões vespertinas na TV – ele é originário da década de 40! Torço para que algum editor brasileiro tope com esta obra e resolva fazer um projetos desses por aqui. Já imaginaram?

28 de junho de 2010

Música brasileira e músicos brasileiros em filmes estrangeiros

A lista deve ser grande, ainda mais se pensarmos na Bossa Nova, que contagiou os EUA dos anos 60 pra cá. Sem pretensão em fazer uma varredura completa - mas claro, aberto a comentários que lembrem outros casos - selecionei de cabeça alguns filmes estrangeiros que incluíram música brasileira/músicos brasileiros em sua trilha. A maioria pende para a bossa mesmo, mas há também uma queda pelo tropicalismo. De quebra, um link com cena de 'Alta Fidelidade', filme com John Cusack sobre um dono de loja de discos, em que aparece o disco Tropicalia entre vários LPs de rock onde predomina o pop inglês. Não é trilha, mas vale a curiosidade. Aliás, quem gosta de disco, rock, LP, listas e referências pop, não pode perder este filme, um clássico instantâneo baseado em livro cultuadíssimo nos States.
As músicas:
* Nacho Libre (2006) – Irene – Caetano Veloso ( não achei a cena mas o áudio é da trilha sonora original) – comédia com Jack Black, que tenta trazer o clima das famosas lutas mexicanas. Muy Estranho.
http://www.youtube.com/watch?v=3N7Z0wTx0R4
* Shrek (2001) – Meditação – Tom Jobim e Newton Mendonça http://www.youtube.com/watch?v=PtQqt37n9cM
* Closer (2004 ) – videoclip da música Lonely de Bebel Gilberto, da trilha original do filme. No mesmo filme, Bebel canta também: Samba da Benção (Baden Powell e Vinicius – versão de Pierre Elie Barough), Tanto Tempo ( Bebel Gilberto e Suba) e Mais Feliz ( Bebel Gilberto, André Cunha e Cazuza).
http://www.youtube.com/watch?v=veVBOZnVa2I
*High Fidelity ( Alta Fidelidade - EUA) - cena em que aparece o LP Tropicália, disco chave do movimento sessentista ( entre os 36 e 42 segundos à esquerda).
http://www.youtube.com/watch?v=UgcAz50jsKU
*A Vida Marinha com Steve Zissou (2004) – nesta doidona comédia parodiando Jacques Cousteau, a trilha também é maluca e traz o nosso, o teu, o Seu Jorge cantando várias versões próprias do repertório de David Bowie, entre outras. Seu Jorge interpreta no filme o marujo Pelé dos Santos e canta bizarras e incríveis versões para a tripulação. http://www.youtube.com/watch?v=YnAiDA46DjE
http://www.youtube.com/watch?v=cn-L7FTfGzg&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=ykghg4E9nzw&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=575oLZdxfow&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=QHgSTJ93ztM&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=UvhGvxuOREw&feature=player_embedded http://www.youtube.com/watch?v=Pnkf-9sqEuc&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY&feature=related
*** Frida (2003) – Caetano Veloso e Lila Downs – Burn it Blue – Frida levou o Oscar de melhor trilha, e Caetanão se esbaldou no palco do Seu Oscar.
http://www.youtube.com/watch?v=YTMSojPcF1g&feature=player_embedded
Outras :
***V de Vingança ( 2005) - The Girl from Ipanema (Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes e Norman Gimbel) c/ Stan Getz, Astrud Gilberto e João Gilberto. Corcovado (Antonio Carlos Jobim) e Quiet Nights of Quiet Stars ( Antonio Carlos Jobim e Gene Lees) c/ Stan Getz, Astrud Gilberto e João Gilberto.
*** Be Cool – O Outro Nome do Jogo ( 2005) – Sexy (Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, e Will i Am) - The Black Eyed Peas (?!!?!!) e Roda (Gilberto Gil, Joao De Campos) c/ Elis Regina – Um ótimo resgate de uma antiga música d e Gil na sempre pungente interpretação de Elis. Mas que raio de versão é essa que o TBEP fez, que mudou até o nome de uma canção de Tom e Vinicius?
***Sem Folego (Blue in the Face)( 1995)– De Mais Ninguém (Arnaldo Antunes e Marisa Monte) c/ Marisa Monte .
***Fale com Ela( Hable con Ella)-( Espanha, 2002) – de Pedro Almodóvar – Logo no início, em emocionante cena de tourada, a inebriante Por Toda a Minha Vida (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), na voz de Elis Regina, estremece a tela e os espectadores. Ainda na trilha: a participação de Caetano Veloso, que aparece no filme cantando Cucurrucucu Paloma, de Tomás Mendez Sosa e Amor em Paz (Tom Jobim).

24 de junho de 2010

A volta do Ferrorama

As redes sociais venceram mais uma. Após incontáveis e-mails, correspondências e depoimentos pressionando a Estrela à reviver o clássico Ferrorama, finalmente a empresa cedeu aos apelos. Mas o caminho para esse ressurgimento foi árduo e tortuoso. Que o digam as comunidade do Ferrorama na internet, que toparam e cumpriram um louco desafio idealizado pela fabricante: se em três dias, os fãs do brinquedo conseguissem percorrer com o trenzinho em movimento contínuo, os últimos 20 km do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, utilizando apenas 110 metros de trilhos do Ferrorama, a empresa se comprometia a relançá-lo. E não é que os caras toparam, foram para lá ( com tudo pago pela Estrela, claro) e conseguiram finalizar a estapafúrdia prova? Os desafiantes inscritos tiveram que criar uma logística perfeita para recolocar ‘trocentas’ vezes os trilhos na parte dianteira da linha de ferro, sem causar descarrilamento, enfrentando ainda por cima, chuva, frio e terrenos íngremes. Prova cumprida, promessa idem: a Estrela já se comprometeu e colocará à venda em agosto, a novíssima versão do Ferrorama, que em 2010 completa 30 anos. Para a empresa, foi uma jogada estratégica infalível, pois a ação viral partiu de um movimento social espontâneo e conseguiu camuflar o aparato marketeiro por detrás. Para os participantes do desafio e fãs espalhados pelo Brasil, uma aventura inesquecível e com vitória. A prova, que teve início em 07 de junho, pode ser conferida nos seguintes endereços: no site oficial, no facebook.com/voltaferrorama, no twitter.com/voltaferrorama e no flickr.com/voltaferrorama.