22 de maio de 2017

Kid Vinil (1955 -2017)

Kid Vinil na banda Verminose ( divulgação)
Sexta-feira passada faleceu um grande cara, querido no meio musical: Kid Vinil, compositor, produtor, jornalista, vj, dj, escritor e um grande especialista em rock. Ele estava internado há mais de um mês, depois de passar mal em um show em Minas Gerais e ter uma parada cardíaca. No início de sua atuação cultural foi um dos maiores incentivadores do movimento punk, chegando a tocar bandas nacionais em seu programa de rádio no início dos anos 80. Foi fundador da banda Verminose ( ao lado de Minho K, Trinkão e Stopa), uma das primeiras bandas pós-punk brasileiras e que depois de alguns anos mudou o nome para Magazine, onde encontrou o sucesso com os hits "Eu Sou Boy", "Tic-Tic Nervoso" e "Comeu". Entre idas e vindas na banda, Kid fazia seus projetos paralelos, como pesquisas musicais, discotecagens e apresentações de programas na TV e no rádio. Entre os projetos de banda, montou o interessante Kid Vinil e os Heróis do Brasil, em meados dos anos 80, ao lado do guitarrista André Christovam. Sua coleção de mais de 20.000 vinis (a maioria de rock ) sempre foi uma referência! Chegou a escrever um livro, "Almanaque do Rock", utilizando seu vasto material e conhecimento sobre o tema. Também teve sua biografia lançada, em 2015. O legado do Kid, muito além de suas músicas, suas bandas e seus inúmeros projetos, foi ter dado a liga entre bandas novas e gravadoras e fazer a divulgação intensa e perene, como um perfeito porta-voz,  do rock brasileiro. Essa sua marca fica - basta vermos as inúmeras histórias e casos dele nas timelines e páginas dos inúmeros amigos que angariou nessas décadas de palco, microfone, teclas e pickups.

20 de maio de 2017

Capa do Mês: Lemmy - A Biografia Definitiva ( Globo Livros)


Feliz que nem pomba em parque cheio: acabei de ganhar do meu filho este "Lemmy - A Biografia Definitiva" ( Globo Livros - 2017). Escrita pelo seu assessor de imprensa e amigo Mick Wall (e jornalista dos bons, colaborador da Mojo, entre outras publicações), traz toda a saga bizarra, surreal e inacreditável do roqueiro mais roqueiro de todos, Lemmy Kilmister! O homem que driblou a morte várias vezes, foi roadie de Jimi Hendrix, alcançou sucesso com o Hawkwind e o Motorhead e foi e voltou do inferno durante toda a vida, sem jamais deixar de ser o Lemmy de sempre, idolatrado não só pelo fãs mas por todos os músicos e profissionais ligados ao rock pesado. O design e a ilustração da capa vem creditado à craigfraserdesign.com.
Já comecei a devorá-lo!

19 de maio de 2017

Chris Cornell (1964- 2017)


Chris Cornell viveu o rock como poucos. Vocalista fundador do Soundgarden, banda de 1984 que fez o movimento grunge chegar aonde chegou; vocalista fundador do efervescente Audioslave, ao lado de membros do Rage Against the Machine; vocalista fundador de outro supergrupo, o Temple of Dog, em 1990, com membros do Pearl Jam e do Soundgarden; entre um grupo e outro, uma carreira solo intensa, entre o pop e o peso, recheada de violão/cordas. Passou pelo Brasil várias vezes, solo e com o Soundgarden, a partir de 2007. Chris é considerado um dos melhores vocalistas de sua geração, com sua voz rascante e a emotividade sempre presente. Parte inesperadamente em um suicídio que ninguém entendeu direito já que ele estava em uma fase totalmente família, curtindo seus três filhos e combinando planos de férias com a esposa. Consta que ele tomou dose a mais de um remédio para ansiedade e após o show sua mulher percebeu algo errado em sua fala via telefone - o medicamento pode ter influenciado seu ato pouco tempo depois.A investigação a respeito prossegue. Para quem fica, resta ouvir o peso visceral de seu vocal profundamente rock e lastimar sua partida abrupta.

https://www.youtube.com/watch?v=3mbBbFH9fAg

https://www.youtube.com/watch?v=sNh-iw7gsuI

https://www.youtube.com/watch?v=u2pNjgGdU7M

https://www.youtube.com/watch?v=Wgll3iLF1jk

https://www.youtube.com/watch?v=7QU1nvuxaMA

https://www.youtube.com/watch?v=WC5FdFlUcl0

https://www.youtube.com/watch?v=VUb450Alpps

18 de maio de 2017

Picanha de Chernobill ao vivo no Anhangabaú


Ontem, passando pelo Vale do Anhangabaú, quase de frente aos Correios, topei com a  banda Picanha de Chernobill com a aparelhagem e os instrumentos montados no espaço livre, prestes a mandar um som ao vivo. Ao lado de duas dezenas de pessoas no máximo, resolvi gravar no celular esse registro ao vivo. A música chama-se "Anhangabablues", um blues eletrificado, encorpado, denso, psicodélico, que nos remete imediatamente a essenciais power trios do final dos anos 60 como  Cream, Jimi Hendrix Experience e Blue Cheer. Eu já tinha conhecido o som do grupo pelo meu filho Gabriel, que me mostrou um vídeo deles na Avenida Paulista, um dos locais frequentes de suas aparições ao vivo. O Picanha já tem três discos independentes lançados ( o último foi pelo Catarse) e sempre que pode evidencia que a rua é seu principal palco. Aliás, a banda toda mora no próprio Anhangabaú - mais "blues" que isso, impossível!

https://www.facebook.com/marcoseduardo.massolini/posts/1446207475440246?notif_t=like&notif_id=1495050756704335

17 de maio de 2017

José Zaragoza ( 1930-2017)


Zaragoza, o Z da agência DPZ, morreu aos 86 anos na madrugada do dia 15, em São Paulo. Espanhol de nascimento, fundou a agência no final dos anos 60, com o sócio brasileiro Roberto Duailibi e seu conterrâneo Francesc Petit (falecido em 2013), com quem já tinha uma sociedade anterior na agência de design Metro3. Permaneceu na agência por 45 anos ( até 2013) sem largar as artes, sua paixão por toda a vida, realizando diversas exposições individuais como pintor e participando de grandes eventos ( como a Bienal de São Paulo nos anos 60). Tinha o Brasil no coração, país que adotou desde 1952, e um dos seus temas preferidos era o esporte - uma de suas últimas mostras teve como tema principal as Olimpíadas. Zaragoza mudou a forma de se fazer publicidade no Brasil, unindo criatividade, arte e comprometimento com o cliente.


Uma de sus obras como pintor
http://www.meioemensagem.com.br/home/comunicacao/2017/05/15/morre-jose-zaragoza-um-dos-fundadores-da-dpz.html

16 de maio de 2017

Antonio Candido (1918-2017)

Antonio Candido em 1982
Morreu na sexta passada, Antonio Candido, quase centenário, um dos maiores críticos literários brasileiros e um dos pensadores chaves para a compreensão da formação cultural e social brasileira. Como lembrou bem meu amigo Bias Arrudão, Candido formava com Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro e Celso Furtado o sexteto de pensadores brilhantes que explicaram o Brasil. Antonio Candido foi primordial quando uniu a literatura e a análise social e divulgou os escritores brasileiros como poucos. Desde muito novo iniciou-se na crítica literária e viu surgir jovens literatos que viriam a se tornar grandes, como João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, entre tantos, apontando qualidades em seus primeiros trabalhos que fizeram com que fossem notados pela mídia. Firme, sem rodeios, mas de uma objetividade plena, arrumou poucas rusgas por causa de seus textos - o mais célebre foi com o "vulcânico" Oswald de Andrade, que depois viria a ser seu amigo próximo. Discreto, não gostava de solenidades, eventos ou premiações. Uma exceção em sua agenda foi sua participação no FLIP, em 2011, onde acabou contando diversas passagens de sua carreira. Estava lúcido e conversava muito com seus muitos amigos. Crítico, ensaísta, escritor, sociólogo, professor, pensador da cultura brasileira, socialista até a raiz do cabelo, Antonio Candido parte com uma bagagem impressionante e um conjunto de obra colossal para ser estudado e pesquisado por anos/séculos a fio.


Principais livros de sua bibliografia
>> Introdução ao método crítico de Sílvio Romero, 1945
>> Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos, 1956
>> Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1959
>> O observador literário, 1959
>> Tese e antítese: ensaios, 1964
>> Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, 1964
>> Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária, 1965
>> Vários escritos, 1970
>> Formação da literatura brasileira, 1975
>> Teresina etc., 1980
>> Na sala de aula: caderno de análise literária, 1985
>> A educação pela noite e outros ensaios, 1987
>> O estudo analítico do poema, 1987
>> Recortes, 1993
>> O discurso e a cidade, 1993
>> Teresina e seus amigos, 1996
>> Iniciação à literatura brasileira (Resumo para principiantes), 1997
>> O Romantismo no Brasil, 2002

15 de maio de 2017

Bob Dylan, 20 anos ( via Mídia Pura)


Bob Dylan foi fotografado aos 20 anos, em 1961, em um ensaio em seu qg no centro de Nova York, quando ainda era um promissor estreante na cena folk da cidade. O autor, o fotógrafo colaborador da revista Life, Ted Russell, havia recebido convite da gravadora Columbia, que vislumbrava um futuro brilhante ao seu jovem contratado, para fotografá-lo em seu dia-a-dia no apartamento da West 4th Street, ao lado da namorada Suzie Rotolo. Russell topou porque achou que a Life se interessaria e fez uma série PB profundamente bela. A magazine não deu bola para o desconhecido cantor/compositor e essa sequência de fotos acabou se tornando com o tempo uma das joias mais raras da memorabilia musical do século XX. O sempre atento site Mídia Pura publicou essa foto acima e outras da série. Confiram lá:

http://midiapura.com.br/artes/fotografia/serie-de-fotos-mostra-o-jovem-bob-dylan-com-20-anos

14 de maio de 2017

Feliz Dia das Mães ( com Dalcio Machado)


Minha mãe deixou o nosso planetinha há 15 anos. A saudade, claro, perdura - não tem como ir embora - mas com o tempo passei a mesclar junto a essa saudade lembranças felizes, intensas, de gratidão. Dona Lourdes Pareja Massolini era uma mulher que esbanjava generosidade, daquelas que pensavam primeiro nos próximos e depois nela. Nesse Dia das Mães meu sentimento é de saudade mas também de felicidade, pelo privilégio de ter sido filho de uma mulher tão excepcional. Ontem, vi essa bela homenagem do sempre perspicaz e sensível Dalcio Machado no Facebook e além de compartilhar lá, deixo aqui no blog esse cartum que traz exatamente o citado espírito de gratidão e conforto. Valeu, Dalcio! E um beijo estalado pra você, mãe querida!

12 de maio de 2017

Nelson Xavier (1941-2017)

Navalha na Carne: Tonia Carrero, Emiliano Queiroz e Nelson Xavier

Um mês de grandes despedidas nas artes. Nelson Xavier era daqueles atores que comoviam, inclusive em suas cenas de silêncio profundo. As pausas do Nelson Xavier ( vejam em suas composições de Lampião e Chico Xavier, por exemplo) são momentos para serem perpetuados. Viveu sua vida para a dramaturgia, fazendo aproximadamente 50 filmes, além de dezenas de novelas, minisséries e peças em uma carreira com quase 60 anos.O começo dela foi no teatro, quando se juntou á Boal e o grupo Arena. Depois de se formar na USP (Escola Dramática), mostrou textos seus para o diretor mas acabou mesmo fazendo parte do elenco no palco, de onde nunca mais saiu. Enquanto estudava, trabalhou como revisor e depois crítico na revista Visão. Fez história em vários momentos, mas principalmente como Mario no filme "A Queda" de Ruy Guerra ( 1976 - por ele ganhou o Urso de Prata em Berlim) Lampião em "Lampião e Maria Bonita" ( 1982 na Rede Globo) e Chico Xavier, cinebiografia do médium mineiro de 2010 que segundo o ator, socialista e ateu até então, "mudou suas concepções e o fez acreditar e buscar a evolução espiritual" depois de encenar o mestre espírita. Outros bons momentos: como diretor teatral no Recife ainda nos anos 60, nas parcerias com Fauzi Arap/Plinio Marcos ( como ator em Dois Perdidos numa Noite Suja e Navalha na Carne), no filme Os Fuzis, de Ruy Guerra (1964) e  estrelando o filme de Antonio Carlos de Fontoura, "Mulher Diaba" ( 1975). Ganhou um último prêmio em 2016, como melhor ator no Festival do Rio - já tinha ganho um Kikito em 2014 por sua atuação em "A Despedida". Lutava contra um câncer há 14 anos, e mesmo que a doença o deixasse com o andar mais lento e o corpo mais frágil, se mantinha altivo, discreto, sempre trabalhando. Nelson Xavier era assim.

Com o amigo Milton Gonçalves em "Rainha Diaba"

A Rainha Diaba ( íntegra): https://www.youtube.com/watch?v=0N4xZcNiKzo 

Lampião e Maria Bonita ( trecho): https://www.youtube.com/watch?v=DUu3fI4t-xQ 

11 de maio de 2017

Foto do Mês: Cartaz"filosófico-artístico" em Santo André ( by Gabriel Canos)


O Gabriel meu filho, no caminho da escola, "pescou" com a câmera este flagrante de arte urbana, em uma passarela na Avenida dos Estados, Santo André. Com tanta coisa acontecendo no mundo, taí uma frase que nos atinge fundo. Até onde vai a nossa desumanidade? valeu pelo olhar atento, Biel! Virou "Foto do Mês"...

10 de maio de 2017

200 livros de arte grátis: cortesia do museu Guggenheim!


O museu Guggenheim, de Nova York, converteu mais de 200 livros de arte do seu acervo em PDFs e ePUBs e disponibilizou-os para download gratuito! Essa oportunidade única abre para o público do mundo todo páginas exuberantes com obras de Picasso, Roy Lichtenstein, Klimt e muito mais. Maravilha!

Para baixar clique aqui

9 de maio de 2017

J.J. (João José Werbitzki)


O J.J. era um grande analista midiático e o seu blog do JJ ( link abaixo) me mantinha super atualizado sobre o que rolava em comunicação, marketing, economia e consumo no Brasil e no mundo. Gostava de usar o control c control v para trazer as matérias e artigos mais aprofundados, mas sempre com uma opinião/análise sua e sempre para gerar discussão e debates sérios e civilizados como toda democracia deveria ser. Também usava muito humor em seus posts, capturando cartuns, placas e gifs no cotidiano da comunicação. Era de Curitiba e tirando uma ou outra notinha ( como essa abaixo), a grande mídia do Sul simplesmente ignorou seu falecimento no final de abril. Talvez porque ele não ficava bajulando ninguém e talvez porque nos últimos tempos ele falou muito sobre a grande imprensa paranaense. O blog do JJ continua sendo atualizado, mas não se sabe por quem. Uma atitude bascaninha - JJ ia aprovar, ele que não parava de escrever e postar - mas senti falta de uma homenagem ao próprio JJ, já que muitos leitores nem sabem que ele faleceu e não está mais atuando em seu próprio blog.

http://www.fabiocampana.com.br/2017/04/morreu-jj-werbitzki/

http://blogdojj.com.br/

8 de maio de 2017

Almir Guineto (1946-2017)


Almir Guineto se foi e deixou um legado gigantesco para o samba e sua história. Inovou na escolha do instrumento ( banjo - embora fosse multi instrumentista), no jeito de tocá-lo, na forma de compor, na mistura de suas raízes salgueirenses; no jeito de cantar. Por essas e outras, acabou virando um grande ídolo para os próprios sambistas. Seu samba vai permanecer nas rodas sempre, tal sua compatibilidade com o povo e os profundos admiradores do samba verdadeiro. Muita gente decantou e incensou Almir Guineto depois de seu passamento, incluindo a mesma crítica que o ignorava até dias atrás. Mas há exceções por aí: a análise de Bernardo Oliveira hoje para a Folhona ( quem diria que sairia um texto tão bom desses num jornal que há muito não me diz nada) está no ponto, no alvo. Almir Guineto ecoa nos quintais, terreiros, rodas e mesas de partido, batuque e raiz- seu samba melódico e resplandescente triunfa

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1881951-almir-guineto-foi-sambista-completo-e-inovador.shtml

https://www.youtube.com/watch?v=f-0w7slK_Gs

https://www.youtube.com/watch?v=i9d-Yc1o5TU

https://www.youtube.com/watch?v=Bxm86_U1Rj4

https://www.youtube.com/watch?v=6FVyebYvYX8

https://www.youtube.com/watch?v=k1K5iOPxf64


3 de maio de 2017

Alain Voss no Colecionadores de HQs


Voltando com tudo na minha coluna "Alma de Almanaque" no site "Colecionadores de HQs", enviei para o Renato Frigo essa homenagem a um dos grandes quadrinhistas que passaram por nossa terra, Alain Voss, falecido em 2011. O artista se foi há mais de cinco anos mas quase nenhuma ação voltada para sua obra foi realizada e tem muita gente que nem sequer sabe que ele já faleceu. O post é uma adaptação de um texto feito para este blog na época de seu falecimento, mas vale muito publicá-lo, tanto pelos motivos colocados aqui como pela excelente edição de mister Frigo, que dá sempre um up nas matérias! Viva Voss!

http://colecionadoresdehqs.com.br/o-grande-alain-voss-1946-2011/

30 de abril de 2017

Belchior ( 1946-2017)


Nem bem nos restabelecemos da partida do Jerry Adriani, vem a notícia hoje da morte do Belchior! Com a mesma idade, 70, Belchior vinha nos últimos anos numa espécie de reclusão ( mas jamais desaparecido como a imprensa quis que fosse desde 2009), tanto que a cidade gaúcha em que morava com sua esposa - Santa Cruz do Sul - pouco sabia de sua presença mesmo ele morando ali há quase dois anos. Um dos maiores poetas da nossa música, cantou/escreveu como ninguém as angústias e sonhos da geração 70, sufocada pela ditadura. Elis foi das primeiras a gravá-lo mas junto ao chamado Pessoal do Ceará ( Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Téti, Fausto Nilo, Ricardo Bezerra, entre outros), Belchior já estava no Rio desde o início dos 70 e dessa reunião saiu o clássico disco "Meu Corpo minha embalagem todo gasto na viagem" de 1973. Logo que chegou, aliás, venceu o IV Festival Universitário da MPB, em 1971, com "Hora do Almoço". Em seguida mudou-se para São Paulo, lançando compactos e trilha para curtas e foi em Sampa que ouviu nas rádios Elis cantando a sua Mucuripe (com Fagner). O disco inaugural de sua carreira solo é de 1974 mas foi o LP de 1976 ( Alucinação) que consolidou sua carreira, com sucessos definitivos como Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais. Elis mais uma vez não perdeu tempo e gravou também a joia preciosa Como Nossos Pais, tornando-se uma de suas mais brilhantes e emocionantes interpretações. Vanusa nessa mesma época gravou com muita propriedade Paralelas. Belchior seguiu nesse ritmo até a primeira metade dos 80, quando suas gravações ficaram mais espaçadas e ele se enveredou por outras trilhas dentro da música ( produção, sociedade em gravadora, etc). Eu nunca tive oportunidade de vê-lo em shows mas nos anos 90 encontrei-o aqui mesmo em São Caetano, em uma casa noturna especializada em música brasileira - ele estava com amigos em uma mesa próxima, com uma discrição que chamava a atenção justamente por ser ele o grande Belchior. Novas gerações de músicos continuaram o abençoando como influência mor e suas participações em shows prosseguiram até os anos 2000, quando problemas particulares e financeiros o fizeram se afastar da carreira e se mudar do país por alguns anos. Hoje o Brasil, consternado, soube ao mesmo tempo da sua morte e que estava morando de novo no Brasil, dentro do estado do Rio Grande do Sul. Belchior é daqueles que continuarão sendo cantados e incensados por gerações e gerações, tal sua magnitude como artista. Como bem definiu Guilherme Arantes nas redes sociais, em mais uma de suas precisas e honestas homenagens, "Belchior sempre foi e será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu". Assim será.


28 de abril de 2017

Capa do Mês: Simpsons Comics 218


A revista acima não é exatamente do mês ( saiu em 18/02/2015 nos EUA) mas como Guardiões da Galáxia 2 estreou ontem no Brasil, vale relembrá-la e deixá-la como capa destaque do mês. Mesmo porque muita gente está compartilhando essa bela arte em vários grupos nas redes sociais. As paródias simpsonianas são sempre inteligentes e perspicazes e essa capa dá bem o tom do seu conteúdo ( vejam quem está fazendo as vezes do Groot!).

27 de abril de 2017

Foto (s) do Mês: Socozinho no Parque Celso Daniel - Santo André




fotos: Leticia Massolini


Estas belas fotos são da minha filha Letícia. Desde pequenininha ela já tirava fotos bem centradas, focadas, com uma precisão e sensibilidade incrível para a idade. Sempre que estou no perrengue para tirar fotos ( tenho boas ideias e bom olhar, mas na hora de tirar...aí já são outros 500) peço uma big ajuda da minha filhota - cada vez melhor na arte de fotografar. Por isso, as fotos do mês são dela neste abril de 2017.
A ave registrada estava no Parque Celso Daniel em Santo André e para identificá-la com precisão, contei com o grupo Identificação de Aves do Facebook, repleto de especialistas e fãs de aves que passam o ID das aves logo em seguida à publicação de qualquer foto postada lá. Adoro aves e sempre que posso observo-as e tento fazer registro das espécies. Mas na hora de identificá-las tenho dificuldades - essa ave acima, por exemplo, eu pensei que fosse um tipo de martim-pescador, embora desconfiasse do seu tamanho um tanto avantajado. No grupo do FB o nome Socozinho foi passado em um minuto!

Para saber mais: http://www.wikiaves.com.br/socozinho

26 de abril de 2017

Doodle animado homenageia sonda Cassini


Doodle animado de alta qualidade hoje na página de abertura do Google. A animação homenageia a Sonda Cassini que chega ao final de sua missão depois de quase 20 anos ininterruptos no espaço. Sua última ação será um mergulho aos anéis de Saturno ( Planeta em que orbita desde 2004 - essa última fase é a registrada na animação). A homenagem também é um adeus, pois ao atingir a atmosfera da Terra, a nave se tornará irrecuperável. No site da missão há uma contagem regressiva para quem quiser acompanhar:

https://saturn.jpl.nasa.gov/

24 de abril de 2017

Jerry Adriani ( 1947-2017)

divulgação

Embora já se soubesse que Jerry Adriani havia descoberto um câncer em março, depois de ser internado com uma trombose venosa, a maioria dos seus amigos e fãs acreditava que ele ia sair dessa. No começo de 2017 o ano se mostrava cheio de realizações para ele: a autobiografia, seu disco com canções do Raul Seixas ( ambos os projetos com a ajuda primordial do amigo Marcelo Fróes), shows agendados por todo o Brasil. Em 22/03/2017 fez show na Net Rio e fez um depoimento comovente sobre sua saúde, seu público e os amigos da classe artística, demonstrando humor e que estava se recuperando. Mas logo em seguida foi internado de novo e foi onde se descobriu o câncer, que infelizmente estava em estágio avançado.
Jerry Adriani, nascido Jair Alves de Sousa, intérprete de voz privilegiada, sempre foi ligado ao rock and roll, desde seus tempos de crooner da banda Os Rebeldes, embora tenha começado a carreira solo cantando em italiano e lançando dois discos com músicas da velha bota. O terceiro disco, em português, já o catapultou como ídolo da Jovem Guarda, e assim foi até o final do movimento. Ainda em 1967, conheceu os Panteras em Salvador e ficou muito amigo do líder da banda Raul Seixas ( ainda Raulzito). Além de trazer os Panteras como sua banda de apoio, gravou músicas de Raul e uma delas acabou sendo um de seus ( se não o maior) grandes sucessos na carreira - "Doce Doce Amor". Raul acabou virando produtor da CBS ( muito por insistência de Jerry) e produziu o cantor até o início dos 70. Depois de uma fase focada no romantismo e uma volta às canções italianas, mas sem nunca perder o fio do rock, e participações em filmes e novelas ( Ele sempre foi "despanelizado" e esteve em todos os grupos musicais e artísticos possíveis) Jerry fez a partir dos anos 90 discos homenagens ao seu ídolo maior Elvis Presley, à Jovem Guarda e obra com músicas de Renato Russo vertidas para o italiano ( nos anos 80, Russo teve sua voz comparada à Jerry logo em seu sucesso inaugural, "Será"). Estava radiante ultimamente, com vários planos para a carreira e participações constantes na televisão ( Dind Dong do Faustão, Encontro de Fátima Bernardes, etc). Não deu tempo. Que sua música atemporal continue iluminando o mundo com energias boas e sua missão futura seja compatível com sua generosidade e amizade.



22 de abril de 2017

Cobertura do Festival Guia dos Quadrinhos no Colecionadores de HQs


Depois de um bom tempo sem atualizar a coluna "Alma de Almanaque" lá no site Colecionadores de HQs, capitaneado pelo amigo e grande incentivador dos quadrinhos Renato Frigo, fiz a cobertura no domingo passado do 2º dia do Festival Guia dos Quadrinhos no Club Homs na Avenida Paulista. Um dia inesquecível ao lado dos meus filhos, onde pude encontrar amigos que arregimentei nestes longos anos como colecionador de quadrinhos e também conversar com diversos artistas, autores, colecionadores e fãs da nona arte. Leiam aqui:

http://colecionadoresdehqs.com.br/festival-guia-dos-quadrinhos-o-mais-descolado-encontro-de-fas-e-colecionadores-da-nona-arte/

21 de abril de 2017

Baú do Seu João 21 : Revista Vida Esportiva Paulista nº 163 - Setembro de 1953


Entre os itens que mais se destacam no acervo do meu pai, sem dúvida nenhuma, são os relacionados ao futebol, e principalmente, ao Corínthians, seu time de coração desde sempre. Esta curiosa revista mensal "Vida Esportiva Paulista" é um desses itens e a edição publicada aqui tem algumas peculiaridades que merecem ser pontuadas. A capa chama a atenção de cara pela simpática ilustração de um jogador mesclado ao bonito escudo do Corínthians que cobre quase seu corpo todo ( desenho não assinado). Atrás dele a foto emoldurada do esquadrão corinthiano da época que vinha de importantes conquistas neste início da década de 50. Esta edição 163 traz uma especial cobertura do time que completava no mês de setembro 43 anos de sua fundação. A revista, pelo que se vê neste exemplar, embora já tivesse em seu ano XIV (14) de existência ( conforme capa), não era uma publicação chamativa em seu miolo, e o que se percebe em suas 48 páginas é que sua impressão era custeada pelas centenas de anúncios - a maioria da região do Ipiranga e zona sul de São Paulo - que abriam espaço junto aos artigos e muitas vezes se sobressaíam visualmente às reportagens. E embora a ilustração da capa dê a entender que o veículo utilizava o serviço de artistas em seu miolo, não há um único desenho em seu conteúdo interno, pelo menos não nessa edição. As fotos sim, estão em quase todas as páginas - algumas bem de bastidores, o que dá um charme de fanzine à revista. Além da matéria especial sobre o Corínthians e um apanhado geral sobre o que acontecia nos campeonatos da cidade e do Estado de São Paulo, há também alguns artigos sobre teatro, música e até receitas culinárias. Abaixo algumas páginas para apreciação:







20 de abril de 2017

Baú do Malu 69: MitoloRia (M&C Editores)


Este álbum "MitoloRia", editado pelo Minami Keizi na primeira metade dos anos 70, com roteiro dele e desenhos do fabuloso Nico Rosso, estava na minha mira há muito tempo, mas nunca tive a oportunidade de adquiri-lo. Neste mês, fui visitar o estúdio do meu amigo Mario Mastrotti, que estava fazendo uma mudança em seu acervo e trocando/vendendo alguns itens. Quando bati o olho neste álbum, peguei-o na hora, anunciando que aquele já era meu! rs. Negociei por um preço bem camarada, de amigo, e ainda levei de lambuja a dedicatória do mestre feita para o antigo dono do álbum, o cartunista Moretti. Quem espera com paciência, um dia alcança - esse é um dos meus lemas como colecionador.






15 de abril de 2017

Doodle: 56 anos do Parque Indígena do Xingu

O Google criou mais um Doodle especial com foco na História do Brasil, homenageando os 56 anos do Parque Indígena do Xingu no Mato Grosso. A ilustração, margeada por água, traz ocas, barcos, pés de mandioca e arte indígena.
Para saber mais sobre o parque e o novo doodle, aqui:

http://www.techtudo.com.br/noticias/2017/04/parque-indigena-do-xingu-ganha-doodle-do-google-conheca-historia-do-pix.ghtml

13 de abril de 2017

Achado 5: Cartão turístico de hotel italiano


Ontem encontrei essa belezinha de cartão dando sopa no meio de uma calçada aqui próxima. Seria um cartão qualquer de visita, não fosse essa magnífica aquarela frontal e um mapa desenhado no verso. Esse conjunto lhe deu vida e me chamou atenção quando quase o pisei no passeio público. Vai se juntar aos outros achados - os primeiros publicados no blog foram todos encontrados no meio de livros - demonstrando que muitos itens gráficos interessantes podem surgir não só em meio à publicações mas também em calçadas, muretas, bancos de praças e tal como este, jogados ao vento.



12 de abril de 2017

As mulheres de Toni D'Agostinho em exposição no Metrô


Hoje, mesmo na correria, parei um minutinho na ótima exposição individual do caricaturista Toni D'Agostinho, montada na estação Paraíso do Metrô, com o título "Mulheres que Mudaram o Brasil". Não bastasse a usual elegância e originalidade no traço do artista ( que conheço desde os primeiros trabalhos publicados nas edições cooperativadas capitaneadas pelo Mastrotti), há também o ótimo texto de Natalia Negretti ( que infelizmente o celular não capturou com precisão). A expo já passou pela estação República e fica até 23/04 na Paraíso. Excelente! ( a minha favorita dessa série é a Nair de Teffé ). Vejam algumas imagens:







5 de abril de 2017

Os minicontos de Noll na Ilustrada

Noll na época em que colaborava para a Folha ( crédito: divulgação/Folha de S.Paulo)
O recém-falecido escritor João Gilberto Noll foi colaborador/colunista da Folha de S.Paulo entre 1998 e 2001. A sua coluna "Relâmpagos" saía toda segunda e quinta-feira no caderno Ilustrada e serve como parâmetro para se conhecer um pouco da sua linguagem cortante, ligeira e em alguns momentos enternecedora.
Alguns deles estão abaixo, numa seleção que a própria Folha fez em matéria de seu falecimento;


"Coágulos"
(publicado em 15 de outubro de 1998)
Foi durante o temporal que o vulto me apareceu. Parei o carro e você surgiu atrás das afoitas hastes do pára-brisa. seu rosto saído do nada e aquele ruído nervoso no pára-brisa. Você entrou. e o beijo se embebendo do surto celeste. Aí sacudi a cabeça para me libertar de uma espécie de desfalecimento súbito em todo o carro. A atmosfera emudeceras: relâmpagos sem trovão, pára-brisa sem ruído, palavras virando coágulos. Tudo se desesperou e eu gritei e você gritou e veio a madrugada e o agudo sabor de mais um beijo. Depois foi só estio. E nós, pele e osso, jejuando na bruta calmaria.

"O foco"
(publicado em 2 de novembro de 2000)
Ele toca, com cuidado. A mão sente, devagar. Primeiro uma saliência calosa, como se fosse a beira de uma cratera. Os dedos descem, parece que em direção à arena. Pedras pontiagudas, logo um terreno arenoso. Os dedos avançam. Procuram um centro, a esfera nuclear. A mão suada pára, descansa um pouco, sente a textura ainda íngreme, sempre pedregosa. Coberta de sinais prematuros para um sujeito ainda forte como ele, recebe em cheio a grosseira luz daquela hora. Um homem sem chapéu, camisa, todo áspero de vento. Seus dedos, ciscando ali, na terra, sonham às vezes com outra consistência...O que ele faz em pleno meio-dia, cego de sol? Prepara as primeiras filmagens. Para amanhã cedo. Por isso seu tato se aproxima do centro da cratera. De onde tudo deverá partir.
*
Férias
(publicado em 7 de dezembro de 2000)
Ele estaria à espera, sempre. Por que ela depositava tanta confiança? Realmente, era uma exagerada reserva de fé em apenas uma criatura, ele, de compleição tão sucinta, quase um fiapo, como qualquer outra pessoa, aliás, se comparada àquela paisagem ali, por onde corria um rio prateado -esse, sim, todo à espera da lua para se azular. Ela mordeu o lábio, como poderia ter sorrido, se recolhido em concha, tudo porque repentinamente estranhara a imagem do homem que deveria àquela hora estar à sua espera, ensaboado dentro da banheira, bem como gostava. E, de preferência, de chapéu de feltro, como um extinto personagem de filme francês, a ler quem sabe um livro ilustrado sobre John Ford. Ela entrou no rio. Ouviu um assobio. "Tem gente perto", murmurou. E mergulhou para se refazer.
*
"A dívida"
(publicado em 29 de outubro de 2001)
Descarregando a ansiedade, eu passava a lâmina sem praticamente mais nada para escanhoar. Foi quando atrás de mim surgiu uma imagem de cujos traços vinha uma lembrança que eu chamaria de saudade, se conseguisse pegar um ponto, um detalhe que me parecia arisco de antemão. Me virei. Era quem pensava, sim. Eu precisava decidir se acolheria... Mas tinha o detalhe ainda velado, e só com ele eu poderia dizer "venha" ou "volte ao inferno!". A figura abriu a mão mostrando a cicatriz. Não, não era uma das chagas de Cristo, mas o tal detalhe, em ferida. A mão agora retirava a espuma em volta da minha boca, até deixá-la livre. E sem escolha. Encostei os lábios nos lábios ainda sensíveis de sua palma. Covarde, eu mendigava o perdão... 

4 de abril de 2017

João Gilberto Noll ( 1946-2017) e o texto-desabafo de Carpinejar

divulgação FLIP
O João Antonio Buhrer postou esse texto-desabafo do Carpinejar publicado no Zero Hora do dia 30/03 e tanto ele como eu comungamos dessa opinião. Noll era um grande da nossa literatura e faleceu no dia 29/03 aos 70 anos, sem o devido reconhecimento que merecia. Na verdade ele tinha visibilidade sim, pois seus livros continuavam saindo pela Record e era publicado em diversos países, mas pelo seu currículo e importância deveria estar mais presentes nas rodas literárias, discutido mais em escolas, divulgado mais em sua própria cidade. Ele foi o maior vencedor do Jabuti e só isso já devia alçá-lo a um patamar de maior destaque.
Fique em paz, bravo escritor e que esse texto do Carpinejar reverbere por aí, para que as coisas, mesmo que tardiamente, mudem de direção.

Fabrício Carpinejar: "João Gilberto Noll foi assassinado"

João Gilberto Noll não morreu de causa natural, foi assassinado pela sociedade. Foi assassinado pela indigência cultural do Estado. Foi assassinado pelo total desprezo de nossas instituições pelos grandes artistas e narradores. Foi assassinado por ausência de incentivo e de apoio. Foi assassinado pelo orçamento imaginário da Secretaria Estadual de Cultura. Foi assassinado pela inanição do Instituto Estadual do Livro.
Em seu enterro na noite de quarta passada, na capela 9 do Cemitério João XXIII, havia menos de 50 pessoas para se despedir de um dos maiores escritores gaúchos de todos os tempos. Não apareceu prefeito ou governador, não apareceu ministro ou deputado federal, não apareceu presidente da Assembleia ou da Câmara Municipal. Os políticos não leem mais? É isto? É artigo de regimento interno?
Não se decretou luto no Estado. Não existiu nenhuma mobilização popular. Não teve cobertura da imprensa no velório.
Ele sequer aparece nos livros de nossas escolas como autor fundamental. Ele não é listado como autor obrigatório em nossos vestibulares. Ele não recebeu nenhuma honra nos últimos cinco anos — a mais recente foi como autor homenageado do Festipoa, em 2011. As novas gerações já não o conhecem, pois simplesmente não o estudam.
Noll ficou mergulhado no ocaso, logo ele que se mantinha integralmente da literatura e dependia de convites para palestras, recitais e conferências. Sua única fonte vinha a ser uma oficina de escrita criativa esporádica.
Não me insulte alegando que ele morreu de velho. Ninguém é mais velho aos 70 anos. Morreu de solidão nesta cidade abandonada às bestas, onde os livros são uma seita para pouquíssimos e corajosos.
Rio Grande do Sul virou uma Sibéria para os criadores, um exílio forçado. Ama-se esta terra platonicamente.
Não parecia que perdíamos um de nossos mitos da literatura, da estatura de um Mario Quintana, de um Caio Fernando Abreu e de um Moacyr Scliar.
Foi um enterro simples, caseiro, envolvido pelos familiares e amigos mais próximos, com apenas três coroas de flores enviadas para ornar a cabeceira do caixão. Não teve fila para se aproximar do corpo e abençoar a sua partida. Então, não me diga que ele morreu de morte natural. Foi assassinado pela indiferença. Pelo desprezo. Pela desinformação. Pela tristeza e pelo desgosto.
Como o nosso maior ganhador de Prêmio Jabuti, o mais prestigiado do país, vencedor de cinco edições (1981, 1994, 1997, 2004 e 2005), vivia na total clandestinidade em Porto Alegre? Como permitimos a sua desaparição pública?
Ele não ganhou nenhuma alta condecoração em vida das autoridades no RS (a exceção foi o Fato Literário em 2009, iniciativa da RBS). Não foi patrono da Feira do Livro. Não é nome de biblioteca, dificilmente servirá para batizar alguma Casa de Cultura. Estamos vendendo o nosso patrimônio e, pelo jeito, não sobrará entidade nenhuma para ser nomeada. Como abandonamos à míngua os nossos mestres?
Não venha com o atenuante de que a sua escrita era difícil, é tão difícil quanto o fluxo de consciência de Clarice Lispector que não para de crescer em vendas e ser saudada no Exterior (The Complete Stories entrou na lista dos cem melhores livros de 2015 feita pelo jornal americano The New York Times). Sua obra — dezoito livros — continua sendo publicada pela Record. Tampouco é por carência de circulação.
Como deixamos de lado um de nossos romancistas mais adaptados ao cinema, com versões conhecidas nas telas de Harmada, Hotel Atlântico e do conto Alguma Coisa Urgentemente?
Como as mais prestigiadas universidades estrangeiras, de Iowa e King's College, lhe pagavam para vê-lo produzindo como escritor-residente, e jamais oferecemos condições para ele desenvolver a sua ficção na capital gaúcha, logo ele que residia inteiramente aqui e retratava Porto Alegre em seus livros?
Como ele era convidado a dar aula em Berkeley, nos EUA, na cátedra de Literatura e Cultura Brasileira, e nunca fora convidado para lecionar nas universidades gaúchas, logo ele formado em Letras pela UFRGS?
Como não desfrutava de espaço fixo no rádio e na TV, ele que já foi influente colunista da Folha de S. Paulo de 1998 a 2001?
Como menosprezamos alguém que renovou a escrita e enfrentou a supremacia do regionalismo, que fundou uma escrita urbana, feita da procura nômade da felicidade e de andarilhos que apenas encontravam pátria em seu corpo?
O descaso não pode ser resultado da falta de atualidade da obra de Noll, porque ele era absolutamente pós-moderno e abordava temáticas do momento como homoerotismo, inadequação social e tolerância às minorias.
Como não zelamos por uma carreira vitoriosa de 37 anos, acostumada a projetar o Rio Grande do Sul no cenário internacional?
Ele deveria ter sido lembrado, festejado, paparicado, cuidado, mimado, protegido, acalentado, amado. Assim como Pernambuco fez com Ariano Suassuna antes e depois de sua morte. Mas não aconteceu nada.
João Gilberto Noll morreu do nosso completo nada. Quem será a próxima vítima? Quem?

 (Fabrício Carpinejar - Zero Hora - 30/03/2017)

3 de abril de 2017

Rick and Roll 30 Anos: segunda parte da entrevista no ABC Repórter ( 01/04)


No sábado, dia 01, saiu a segunda parte da entrevista que fiz com o icônico Ricardo "Rick" Martins, proprietário da Rick and Roll Discos, loja de São Caetano especializada em discos de vinil que completou 30 anos de fundação neste início do ano. Agradeço ao desempenho da equipe do ABC Repórter, que teve que se desdobrar para diagramar e editar a entrevista diante do espaço reduzido disponível. E ao Rick, claro, que conversou longamente comigo e trouxe no papo muitos detalhes e passagens memoráveis de sua trajetória cultural na região do ABC. ( quando aparecer a oportunidade certa, publico na íntegra essa entrevista). Viva o Rock and Roll!

O link para a 2ª parte:

http://digital.maven.com.br/pub/abcreporter/?numero=3675#page/8

e a primeira parte ( 24/02):

http://digital.maven.com.br/pub/abcreporter/?numero=3651#page/11

29 de março de 2017

A Pomba na rede!

Pomba nº 1

As dicas capturadas no ar pelos antenados amigos à volta, cada vez mais surpreendentes neste mês! Desta vez o ligadíssimo editor da revista Brasileiros, Marcelo Pinheiro, veio com uma daquelas que valem o ano: a libertária e como o próprio Marcelo citou em seu post. "abusada" revista "A Pomba", publicada entre 1970 e 1972, está disponível na íntegra na rede, para deleite dos que como eu, adoram mergulhar no abismo profundo e substancioso da imprensa "nanica" ou alternativa brasileira, principalmente nos anos de chumbo da ditadura, quando a criatividade e a audácia jornalística/artística suplantavam qualquer medo, boicote ou terror. A Pomba foi das melhores e todas as suas 13 edições estão disponibilizadas na página da editora Elvira Vigna ( que produzia a revista ao lado de Eduardo Prado). A dica dada pelo Marcelo Pinheiro veio do redator chefe da Brasileiros, Daniel Benevides, que fez matéria especial com Elvira na edição atual de Cultura!Brasileiros ( aqui: http://brasileiros.com.br/2017/03/ira-de-vigna/) . De quebra, na mesma página da Elvira, edições disponíveis de "2001" (revista em que Paulo Coelho conheceu Raul Seixas)  e "Pipocas" (esta infanto-juvenil), mais dois exemplos de como a criatividade editorial da época não tinha limite. Dica primordial! valeu Marcelo Pinheiro!

http://apomba.vigna.com.br/

27 de março de 2017

Sábados da Memória das Artes Gráficas - Entrevista com Canini ( 2010)


Finalmente a grande entrevista (nos dois sentidos) com o saudoso Renato Canini (1936-2013), o homem que revolucionou o universo das histórias do Zé Carioca, feita em 2010 para o projeto Sábados da Memória, está disponível online. A HQMixTV, canal no Youtube sob responsabilidade dos organizadores do Prêmio HQMix ( Jal, Gual & Cia) colocou anteontem o vídeo no ar, com a entrevista na íntegra mediada pelo jornalista, pesquisador e tradutor Marcelo Alencar, sempre bem informado e com aquele ímpeto e emoção que só os verdadeiros fãs da nona arte carregam. A produção foi de Gualberto e Daniela Baptista e a filmagem do Nobu Chinen. O mestre Canini mergulha em sua longa história, desde sua terra natal no Sul até as passagens memoráveis por Cacique, Recreio e Crás, e os personagens de sua lavra, como Kactus Kid, Dr. Fraud e o índio Tibica ( para o projeto Tiras da Ed. Abril). E claro, Zé Carioca, personagem que encontrou sua verve ideal graças ao traço personalíssimo de Canini e o texto inteligente e de peculiar humor de Ivan Saindenberg. O ressurgimento desta entrevista crucial é uma homenagem à altura do original e genial artista!

https://www.youtube.com/watch?v=e0wSCHpYEWQ