31 de agosto de 2017

A arte de Jim Carrey



Jim Carrey, que eternizou no cinema tipos elétricos, cheios de tiques, caretas e maluquices diversas, como Máscara e Ace Ventura, e era conhecido por suas improvisações e brincadeiras nas gravações e bastidores das produções, entrou em depressão profunda após uma sucessão de intempéries particulares, entre elas o suicídio de sua ex-namorada em 2015 e a posterior denúncia de familiares que o acusaram de  culpa no trágico ocorrido. O ator se afastou totalmente de Hollywood, para quem entregou por anos bilheterias gordas de seus blockbusters e mergulhou de vez nas artes plásticas, atividade que iniciara em 2001 e que foi se avolumando nos últimos tempos. Agora em agosto, Carrey reapareceu. Não em um novo filme comercial de estúdio, mas em um documentário de seis minutos, "I Needed Color",onde apresenta em detalhes seu meticuloso e profundo trabalho como pintor, que acabou servindo como terapia e tratamento para "curar um coração despedaçado", conforme suas palavras. O doc, narrado pelo próprio, e que revela pinturas originais e técnicas inusitadas, além de todo o processo interior de superação psicológica em meio às tintas, já teve milhares de views em diversas plataformas de vídeos ( abaixo, na íntegra):






30 de agosto de 2017

Foto (s) do Mês - Jeanne Moreau


Jeanne Moreau (1928-2017) , ao lado de Bardot e Deneuve , uma das maiores atrizes do cinema francês, e ( aí é só ela) ícone mor da Nouvelle Vague, faleceu no último dia de julho passado, aos 89 anos, e eu acabei não homenageando a diva à altura. Entre os grandes filmes que protagonizou, Jules e Jim ( Jules et Jim, 1963, de Truffaut) figura com louvor. Trabalhou com Louis Malle ( Os Amantes, 1958), Orson Welles ( em três filmes), Roger Vadim, Peter Brook, Luis Buñuel, Antonioni, Fassbinder, Elia Kazan, entre tantos monstros da direção. E também dirigiu seus própios filmes, a partir de meados dos anos 70. Centenas de momentos marcantes e interpretações fortes; mas nenhuma como em Jules e Jim, um filme que extrapolou fronteiras e mostrou ao pós-guerra a graça, leveza e sensualidade, e ao mesmo tempo a postura libertária de uma atriz atemporal, na pele de uma mulher entre dois amores. No livro "Os Sonhos Não Envelhecem", de Marcio Borges - um dos livros mais emocionantes que li na vida, sobre o início e o desenrolar do Clube da Esquina e principalmente sobre a amizade entre o autor e Milton Nascimento, parceiro de músicas e lutas - há um capítulo quase que todo absorvido pelo filme, que marcou para sempre tanto Marcio como Milton, que acabaram assistindo a película dezenas de vezes, entre rodadas de batidas de limão e discussões político-filosóficas/culturais nas ruas belorizontinas que fervilhavam naqueles meados dos anos 60. A homenagem é tardia mas antes tarde do que nunca- lá em cima, Moreau levitando, em cena que acabou virando capa do DVD do filme ( e não o cartaz original do filme, que é colorido) e abaixo, uma imagem que captura bem a postura da atriz - fumando... e absorvendo o mundo todo com o seu olhar.


29 de agosto de 2017

Capa do Mês: Mickey 900 ( agosto de 2017)


Hoje deparei na banca com esta capa incrível do Mickey, que comemora a impressionante marca de 900 números publicados ininterruptamente pela Editora Abril. Foi em 1952 que Victor Civita, que já lançara a revista do Pato Donald em 1950, resolveu lançar uma revista mensal, mais encorpada que a do Pato, trazendo histórias longas e personagens clássicos. A publicação, que nos primeiros números não tinha o personagem título na capa, engrenou e embora tenha emagrecido atualmente ( 50 páginas ante as mais de 60 páginas que manteve até os anos 90), continua firme nas bancas aos 65 anos de idade. No editorial da edição,  com humor, é citado que foi justamente o fato da primeira edição ter ignorado o rato protagonista na capa, que fez com que optassem por essa capa do 900, com vários "Mickeys" ocupando os espaços. A arte, aliás, é do artista italiano Giorgio Cavazzano.
Abaixo, a clássica e rara nº 1:



28 de agosto de 2017

Wilson das Neves ( 1936-2017)


Wilson das Neves, falecido no sábado aos 81 anos, foi certamente um dos mais queridos músicos que esse Brasil já teve. Qualquer artista que fosse o queria como baterista, visto que ele transitava com desenvoltura por todas as vertentes, gêneros e ritmos e fosse onde fosse, tocava sempre com paixão, rigor e alto astral. Começou nos anos 50 em orquestras de bailes e gafieiras, e logo em seguida já tocava como profissional nos estúdios da Gravadora Copacabana e acompanhando bambas como o flautista Copinha, fazendo parte dos conjuntos de Ed Lincoln e de Ubirajara Silva ( pai de Taiguara) e orquestras de emissoras de TV. Sempre com o samba nas veias, ele que começou ainda guri na Escola Flor do Ritmo no bairro do Méier, logo caiu de corpo, alma e pandeiro na mão na Império Serrano, escola frequentada por seu pai e a partir daí foi paixão para toda a vida: tornou-se padrinho de bateria e seu integrante fiel até o último momento. Esteve em discos lendários como "Coisas" (1965), do maestro Moacir Santos; o disco da amiga Elza Soares de 1968, onde tanto fez que teve o nome em destaque na capa; "Lugar Comum" (1975), de João Donato; e tantos outros... tocou com Cartola, Nelson Cavaquinho, Wilson Simonal, Martinho da Vila, Candeia, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, João Nogueira Clara Nunes, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho; trabalhou com mais de 700 músicos(!!!) e seria preciso fazer um livro para listar todos eles - até os gringos Sarah Vaughan, Paul Simon e Sean Lennon tiveram o privilégio de contar com suas baquetas precisas. Com Chico Buarque, foi baterista oficial a partir de 1982 e só não participou do seu último disco, lançado em 2017 , porque estava se tratando do câncer que acabou o levando. E foi ao lado de Chico que resolveu escancarar sua porção compositor, ao compor a primeira parceria, e engatar seu primeiro disco solo, como intérprete, em 1996, "O Som Sagrado de Wilson das Neves". Outro grande parceiro seu em composições foi Paulo César Pinheiro. Vale lembrar que das Neves gravou LPs instrumentais com seu conjunto em décadas anteriores, discos que são disputados a tapa em sebos. Nos últimos anos integrava a eclética Orquestra Imperial, ao lado dos "jovens" Rodrigo Amarante e Nina Becker, entre outros, além de continuar a lançar discos próprios - "Brasão de Orfeu" (2004), "Pra Gente Fazer mais um Samba" (2010) e "Se me Chamar,  Ô Sorte" (2013), onde fez a primeira parceria com Nelson Sargento. Teve sua biografia lançada no ano passado, quando completou 80 anos e seu documentário, em gestação desde 2007, sairá no final do ano - conseguiu ver o filme em edição antes de ser internado. Tanto na película como no papel o que se lerá/verá de Wilson das Neves é o que seus tantos amigos em vida presenciaram: um instrumentista de suingue único, com uma leveza sem igual e um ser humano que tentou levar essa leveza, alegria e elegância para sua convivência/ vivência. Pelas centenas de depoimentos que reverberam depois de seu passamento, ele conseguiu!

Discos primordiais com sua participação:

"Coisas" - Moacir Santos ( 1965) - https://www.youtube.com/watch?v=FhyoSK9F-6g

"Elza Soares/ baterista Wilson das Neves" (1968)- https://www.youtube.com/watch?v=JmqjG60w1bo

"Lugar Comum" - João Donato (1975) - https://www.youtube.com/watch?v=yawNoz0GukM

Discos Solos:

https://www.youtube.com/watch?v=m2lT1fIvOV0 (1968)

https://www.youtube.com/watch?v=LrhfHqsIRtA (1969)

https://www.youtube.com/watch?v=7AQO43iglWA (1970)

https://www.youtube.com/watch?v=ff858TsrvsA (1976)

https://www.youtube.com/watch?v=inlf6V96Qlc  (1996)



25 de agosto de 2017

Rabo de Peixe, fanzine de Rock'n'Roll (1991)

 

Fuçando na minha bagunça aqui, achei esse surpreendente fanzine focado em Rock 'n' Roll , Rockabilly e Psychobilly, editado no começo da década de 90 pelo tarimbado Worney Almeida de Souza (WAZ), um dos grandes divulgadores do rock and roll e também ( sua maior especialidade) dos quadrinhos, lançando veículos independentes muito bem montados e recheados de pesquisa séria. Com seus volumes xerocados da série "Seleções do Quadrix", por exemplo, trouxe à tona clássicos na íntegra, como no número 3, em que publicou as 100 páginas de "A Garra Cinzenta". de Renato Silva ( desenhos) e Francisco Armond ( roteirto - possivelmente um pseudônimo), originalmente lançado nas páginas da Gazetinha nos anos 30. Conheci Worney mais ou menos nessa época de "Rabo de Peixe", quando ele adentrou o Dedoc da Abril, onde eu trabalhava, com uma listinha de "raridades" e "obscuridades" lançadas pela editora, com a esperança de ver esse material e se possível tirar cópias. Não consegui ajudá-lo ( mesmo porque eu não tinha acesso à tudo do acervo) mas desde então encontro ele em diversos eventos em São Paulo. Mas voltando ao fanzine, Rabo de Peixe trazia ótimas notas do universo "rock and roll" em suas 8 páginas xerocadas, com colaborações preciosas de articulistas como Ricardo "Rick and Roll" Martins ( dono da loja Rick and Roll), Eddy Teddy ( ícone do rockabilly nacional, faleceria 6 anos depois, em 1997) , Luizinho Dinamite, Fabian DC, André Barcinski, Sergio Barbo, além do próprio WAZ. Um detalhe que chama atenção na capa é uma tarja pequena no canto direito superior onde se lê "impresso em outubro/92. Como em outra tarja maior aparece "Edição Documento", acredito que esse exemplar seja uma segunda impressão. De qualquer maneira, uma preciosidade de um tempo em que a internet engatinhava e ainda se gravava e se trocava k-7s para ouvir o melhor do rock estrangeiro ou as demos das bandas independentes que emergiam do underground fecundo.


24 de agosto de 2017

Beto Carrero nos quadrinhos: matéria saindo no CdHQs


Mais um post na minha coluna "Alma de Almanaque" e desta vez focando as revistas em quadrinhos com Beto Carrero e Betinho Carrero, personagens que chegaram às bancas graças à persistência do empresário Beto Carrero. Com produção esmerada, formato magazine e a destreza de profissionais tarimbados como Eugênio Collonese e Helio de Soveral, a primeira revista, lançada em 1985, não durou muito ( como tantos outros lançamentos periódicos brasileiros) mas deixou saudade em quem teve a oportunidade de conhecê-la. A matéria foi baseada em um post anterior aqui do blog, acrescida de novos detalhes e a inclusão da revista infantil Betinho Carrero, lançada pouco antes de seu falecimento. Na pesquisa, acabei topando com essa seção de cartas que saiu na edição nº 2 ( foto acima), com a inclusão logo de cara da carta escrita pelo lendário editor Adolfo Aizen, fundador da EBAL, que congratula e torce para o sucesso do projeto.  Fiquem com a matéria, aqui:

http://colecionadoresdehqs.com.br/fundo-bau-beto-carrero-em-quadrinhos/


23 de agosto de 2017

Na sala com João Gurgel



No domingo passado me senti como um daqueles privilegiados frequentadores dos saraus musicais do ap da Nara Leão lá no comecinho da Bossa Nova: fui convidado para participar de um inédito "recital" em minha cidade - São Caetano do Sul - nos moldes daqueles encontros que impulsionaram a bossa a virar o que virou. O evento particular ocorreu no ap da minha colega Marisa Dea, professora, assessora e agitadora cultural, bem perto de casa, e trouxe o excelente ator, compositor e hábil violonista João Gurgel. No esquema "passa chapéu no final", Marisa recebeu perto de uma dúzia de convidados para assistir o show intimista com repertório quase todo focado nas músicas do essencial Sérgio Ricardo - compositor, cantor, instrumentista, cineasta, ator, pintor - pai de João. Em meio à pequena mas calorosa e participativa plateia - composta por amigas da Marisa, a maioria pertencente ao professorado, mais eu, meu filho Gabriel - que anda tocando violão/guitarra com gosto - e o amigo Nilton Jorge, convidado por mim - Gurgel surpreendeu pela rapidez com que desenvolveu os bem amarrados acordes de seu pai em conjunção com as letras extensas e discursivas, entremeando cada música com análises e comentários pertinentes, principalmente sobre os temas tratados. Logo fiquei sabendo por ele mesmo que essa desenvoltura se dá pela sua experiência como artista de rua - recitando e interpretando números em ônibus e metrôs do Rio de Janeiro ( ele mora no Vidigal) - embora ele tenha confessado ser tímido por natureza. As músicas para o recital foram muito bem escolhidas, amarrando-se naturalmente uma na outra. Além de 90% das composições assinadas pelo pai, o músico adicionou à playlist a emocionante "Canoa, Canoa" ( de Nelson Angelo e Fernando Brant), um dos destaques do emblemático LP Clube da Esquina 2, de Milton Nascimento (1978), duas composições do experimental e autêntico Metá Metá, grupo paulistano de muita qualidade que mistura jazz com influências africanas ( tanto na música como nas letras, com ênfase no Candomblé). Do repertório de Sérgio Ricardo, destaque para a sempre moderna "Calabouço", "A Fábrica", "Brincadeira de Angola" ( com letra do amigo poeta Chico de Assis), a ecológica "Cacumbu" e algumas composições recentes de muito entusiasmo e vibração. No final da apresentação, sua irmã e também filha de Sérgio Ricardo, Marina Lutfi, com uma voz suave e muito bem colocada, ajudou-o na interpretação de "Calabouço" e "Cacumbu" e emendou uma ótima canção do Metá Metá.
Vale lembrar que Sérgio Ricardo está com bem vividos 85 anos! Ele ia aparecer no recital dos filhos e até quem sabe fazer uma participação em algum número, mas no dia anterior sofreu uma pequena queda ( nada grave) mas que o fez declinar do convite. Fica para uma próxima! Mesmo com sua ausência, ou por isso mesmo, discorremos muito sobre sua carreira, suas composições e sua permanente insatisfação diante da injustiça e da desigualdade, o que o fez durante a vida sempre estar junto daqueles que seguram o lado mais fraco da corda. Viva Sérgio Ricardo! E que venham mais iniciativas como essa da Marisa - que está disposta a muito mais depois que fundou oficialmente seu grupo cultural independente - pois só assim conseguiremos furar o bloqueio dessas megacorporações que controlam o show business e não deixam chegar á tona manifestações culturais independentes e fora do mainstream. Esses recitais em salas, varandas, quintais ou seja lá em que cômodo for é para mim a melhor ferramenta contracultural que temos nesse momento!



21 de agosto de 2017

Luto duplo no humor: Paulo Silvino (1939-2017) e Jerry Lewis (1926-2017)





Em poucos dias, o mundo do humor perdeu dois dos seus melhores. Paulo Silvino foi um dos mais marcantes humoristas brasileiros e um dos que mais se deram bem no formato de humor para tv. Começou fazendo cinema nos anos 50 e também cantando ( participou de discos de samba e bossa nova, além de frequentar os programas de rock de Carlos Imperial). Na década seguinte pulou para a emergente TV e a partir de 1967 iniciou sua longa jornada na TV Globo, interrompida apenas alguns anos quando fez parte da equipe de humor do SBT e Record. Desde 1999 fazia parte do elenco de Zorra Total ( hoje Zorra) onde continuava a fazer seu humor popular, de riso fácil, com piada de duplo sentido. Entre seus vários talentos, chegou também a produzir programas, foi roteirista do Domingão do Faustão, narrou novela ( Pulo do Gato) e curiosamente, escreveu livros eróticos populares sob o pseudônimo de Brigitte Bijou. Mas vai ficar no imaginário do povo com seus bordões inesquecíveis ( vaja abaixo).
Já Jerry Lewis foi um dos maiores comediantes americanos e para nós (principalmente os da minha geração) o "rei do humor da Sessão da Tarde" ( quando a Sessão da Tarde prestava) com suas gags, caretas e humor pastelão. Fez dupla de sucesso com o ator/cantor Dean Martin ( entre 1946 e 1956) e estourou em bilheteria nos cinemas. Essa fase foi tão profícua que Lewis acabou virando personagem da DC Comics, tanto na fase de dupla com Dean como posteriormente ( a Ebal lançou essas histórias em seu gibi "O Garotão" nos nos 60). Lewis continuou fazendo estrondoso sucesso nos cinemas ( e eventualmente na TV) até meados dos anos 60, quando deu uma guinada para a produção e direção ( como diretor na verdade já havia estreado em 1960). Nessa altura já era considerado não só um comediante de "gags" mas também um ator de humor que ousou e experimentou, principalmente com narrativa não linear e a especialidade em desdobramento das personalidades de seus personagens. Só voltou ao cinema nos anos 80, e desde então recebeu diversos prêmios honorários e especiais, principalmente como mantenedor do programa de ajuda aos portadores de distrofia muscular. Nos últimos tempos, fez algumas participações relâmpagos em filmes para TV e também no cinema - uma das últimas aparições foi em 2013 no filme brasileiro "Até que A Sorte nos Separe 2" onde interpretou um carregador de malas de hotel (reprisando seu papel em "O Mensageiro Trapalhão", de 1960).

Cenas de Jerry lewis:

https://www.youtube.com/watch?v=b6NhVMMjKpY

https://www.youtube.com/watch?v=24pPbkoRxk0

https://www.youtube.com/watch?v=4QH2tuHwo_0

https://www.youtube.com/watch?v=m815Hbgeb6s


* bordões de Paulo Silvino: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2017/08/relembre-bordoes-mais-marcantes-do-humorista-paulo-silvino.html


17 de agosto de 2017

João Kurk

divulgação

Uma das figuras mais lendárias da noite paulistana faleceu na última sexta, dia 11, de causas não divulgadas: João Kurk, vocalista, guitarrista, flautista dos mais gabaritados entre os profissionais de cover que povoam as casas noturnas de Sampa. Foi um susto para seu grande público, que o acompanhava em apresentações pela capital e interior de São Paulo. Ele estava na ativa e cantando bem como sempre - meus filhos adolescentes viram a apresentação de sua banda Mr.Kurk no Duboiê Bar em São Caetano há menos de um mês e o "Galdalf da noite de São Paulo", como era chamado ultimamente pelos seus fãs ( basta olhar sua figura para entender o apelido) mandou muito bem como de praxe. Eu o conheci nos anos 80, com a fantástica Rock Memory, banda de covers fundada em 1981 e que atravessou a década colecionando apresentações memoráveis em casas como Woodstock, Café Pedaço ( onde eu mais os assistia), Café PiuPiu, Calabar, etc. Mas João já era veterano nessa época: começou no rock and roll ainda em 1966 na banda de covers The Islanders, participou da criação da banda Utopia no início dos anos 70, com covers mas também material próprio e finalmente fundou o grupo seminal "Terreno Baldio" em 1974, considerado um dos primeiros progressivos legítimos na terra brasilis, com influência do grupo Gentle Giant e que lançou dois discos bem interessantes, "Terreno Baldio", também conhecido como "Pássaro Azul", de 1975 e "Além das Lendas Brasileiras" de 1977. Então veio o arrasa quarteirão da noite "Rock Memory" em sua vida, que além das milhares de apresentações em uma década, deixou como legado nessa primeira fase três discos, dois de covers ( anos 60 e anos 70) e um autoral, "Sozinho na Cidade". Em 1991, João montou com amigos a "Paris Supertramp", especializada em covers da banda inglesa e em seguida se juntou a mais uma "sólida formação", a banda Rockover, que durou 17 anos e também fez história entre os anos 90 e a primeira década dos 2000 ( enquanto a Rock Memory seguia com novas formações, mas sem Kurk). A formação seguinte, Rockstock, não durou muito ( 2008-2012) mas serviu como semente para a última banda de sua vida, Mr. Kurk, formada por amigos e batizada em sua homenagem. Uma das mais ecléticas formações em sua carreira, com todos os integrantes tendo sua vez nos vocais ( e todos muito bem preparados) e com set list bem democrático, sem preconceitos, misturando clássicos com sucessos recentes do rock ( como Foo Fighters, Kings of Leon /etc). João Kurk amava o rock e isso ficava escancarado em suas performances. Cantava Elvis com emoção profunda, e cada música do seu repertório era muito trabalhada. Aliás, vale lembrar que em todas as bandas covers que formou ou se juntou, não tinha exclusividade no vocal, predominando muitas vezes apenas seu lado de guitarrista e instrumentista, que por sinal, não deixava a desejar. Deixo como homenagem várias apresentações que capturei na web ( e espero que fiquem por muito tempo no Youtube), desde o Rock Memory até hoje e claro, o incrível Terreno Baldio, uma das melhores bandas nacionais dos anos 70. Preparem um bom microfone aí no céu, porque João Kurk vai chegar com tudo.

Terreno Baldio ( 1975 - full) ( https://www.youtube.com/watch?v=NBUpNIMf8eU)

Terreno Baldio ( 1977 - full) ( https://www.youtube.com/watch?v=MGFiHvbXs24)

Rock Memory no Programa Mulher 90 ( https://www.youtube.com/watch?v=PC4Y1KRvMYk )

Rock Memory no Café Pedaço em 1986 ( https://www.youtube.com/watch?v=AbI5lPuuj74 )

Rock Memory no Woodstock Bar em 1984 ( https://www.youtube.com/watch?v=L0MLXhDtIgw&list=PL_fwMM6Gfxof8gCASL--VMtjzIgPZndi0&index=2 )

Rockover em 1993 no Café PiuPiu ( especial) ( https://www.youtube.com/watch?v=lQgHOqU7yM4 )

Rockover no Café PiuPiu em 2006 ( https://www.youtube.com/watch?v=cYBGcjZ9wTo )

Rockstock no Café PiuPiu em 2008 ( https://www.youtube.com/watch?v=mXbJjFK7IQo )

Mr. Kurk ao vivo na Kiss FM em 2016 ( https://www.youtube.com/watch?v=SPq1UL5IzGc&t=3291s)

16 de agosto de 2017

Álvaro de Moya no UOL, por Gonçalo Jr.

divulgação/FolhaPress
Matéria digna do legado do Prof. Álvaro de Moya, assinada pelo Gonçalo Jr no UOL ontem. Gonçalo tem uma biografia pronta do Moya ( a sair pela Editora Noir, na verdade uma autobiografia) e a muito tempo entrevistou-o para essa empreitada. Os estagiários das redações que pesquisaram para a notícia do falecimento anteontem ( afinal, esse departamento está nas mãos quase exclusivas dos focas, até onde eu sei) precisavam muito ter lido essa matéria para saberem que o mestre Moya foi um dos pioneiros que estabeleceram o que a TV faz até hoje em sua grade de programação  e que ele chegou a ser chefe do Boni e do Walter Clark quando estes ainda engatinhavam no veículo. Mas como tudo hoje é "correria desenfreada" e "pesquisa rasa" ( e isso é culpa dos editores, não dos subordinados) e essa ótima matéria saiu só ontem perto das 10h da manhã, a turma de plantão mergulhou com tudo no Google ( praxe) e deixou pra lá fontes fidedignas como Francisco Ucha ( seu assessor há 6 anos), Mauricio Kus ( que ajudou na produção da comprovada primeira exposição sobre quadrinhos no mundo em 1951 em São Paulo), Waldomiro Vergueiro ( do qual Moya foi mentor na USP), Mauricio de Sousa ( que ficou muito próximo a ele entre os anos 60 e 70, inclusive em trabalhos conjuntos) e o próprio Gonçalo Junior. Se assim fosse, não veríamos uma nota tão vazia no JN ( " o em cima da hora" não justifica a matéria sem nem sequer imagem/foto) e uma matéria com erros feios na Folha ( novidade?). A matéria do Gonçalo focou mais na TV ( a pauta do UOL pendeu para este tema) mas capturou momentos primordiais na carreira e na vida de Álvaro de Moya. Senti falta de detalhes sobre os primeiros anos de Moya nos quadrinhos ( na redação da Gazetinha, como capista de O Pato Donald e Mickey na Abril entre 1952 e 1953 e como colaborador da Editora Outubro/Continental), mas aí é só o lado perfeccionista meu de colecionador/fuçador ferrenho de quadrinhos falando alto. Viva Moya!

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2017/08/15/conhecido-pelos-quadrinhos-moya-foi-um-dos-inventores-da-tv-brasileira.htm

14 de agosto de 2017

Álvaro de Moya (1930-2017)



Com muito pesar, soube da morte de Álvaro de Moya hoje, em São Paulo. Um dos primeiros profissionais do traço a integrar a equipe de Victor Civita na Abril ( 1952/1953, ainda na Rua João Adolfo, no centro de São Paulo), além de ser um dos maiores conhecedores de quadrinhos do mundo, foi pioneiro na TV ( desenhou os letreiros inaugurais da TV Tupi, ajudou no nascimento da TV Bandeirantes e foi produtor e diretor na Excelsior), professor na USP e grande entusiasta do cinema. Escreveu obras essenciais sobre HQ, principalmente "Shazan" de 1970, que trouxe à tona uma visão moderna, profunda e desmistificadora da nona arte. Graças ao amigo ( e seu assessor) Francisco Ucha, organizador da fantástica exposição "Quadrinhos'51" de 2012 ( aqui: https://almanaquedomalu.blogspot.com.br/2012/04/em-familia-na-emocionante-exposicao.html ), tive o prazer de conhecê-lo e cheguei a visitá-lo em sua casa, onde pude ver ao vivo parte de seu acervo e muitas histórias ( aqui: https://almanaquedomalu.blogspot.com.br/2016/03/papo-cultural-com-francisco-ucha-e.html . Um ser humano empolgante, animado, generoso, que compartilhava sua vasta cultura sem qualquer resquício de empáfia. Fique em paz, mestre!

11 de agosto de 2017

Em seu 44º aniversário, Hip-Hop ganha Doodle "educativo"

O Hip-Hop e toda sua cultura implícita, está comemorando 44 invernos: foi em 11/08/1973 que o DJ Kool Herc lançou em uma festa a semente do estilo. O Doodle comemorativo do Google relembra a data com uma animação cheia de marra, detalhando partes desta História, além de trazer ferramentas interativas onde se pode brincar de DJ nas picapes estilizadas, fazer mixagens com músicas conhecidas e até criar as próprias músicas. Ryan Germick, um dos mentores da ação no Google, disse em entrevista que este foi um dos projetos mais complexos já feitos pela empresa. A arte do Doodle é do grafiteiro Cey Adams.



O Doodle interativo ( e roteiro completo do projeto) aqui:

https://www.google.com/doodles/44th-anniversary-of-the-birth-of-hip-hop

9 de agosto de 2017

Capitão Feio - Identidade ( Preview)


Mais um lançamento prá lá de aguardado, "Capitão Feio - Identidade", de Magno Costa e Marcelo Costa, a nova Graphic dos estúdios MSP sairá em setembro, primeiramente na Bienal do Livro do Rio e logo em seguida em bancas, naquelas versões já tradicionais ( capa dura ou cartonada). Sidão ( Sidney Gusman, mentor/editor do projeto) pra não perder o costume, fez um preview de "responsa" no Facebook hoje, com imagens inéditas, incluindo capa e texto de quarta capa. A produção da dupla Costa me causou ótima impressão, em uma história que parece bem movimentada e cheia de ângulos, com várias referências/reverências ao vilão predileto dos leitores da turma da Mônica, mostrado no álbum no esplendor de sua fúria. Só senti falta daqueles fios de cabelo que insistiam em se rebelar na calvície do Capitão nos gibis tradicionais, mas como a história é sobre suas origens, talvez o estilo seja proposital. De qualquer forma, esta nova edição da coleção Graphic MSP ( a 16ª) tem tudo para repetir o sucesso das anteriores. E muito dessa qualidade passa pela edição primorosa do Sidão, que sempre sua à beça por meses até que um álbum desses venha à luz.
As imagens disponibilizadas podem ser conferidas abaixo, da última até a primeira ( além da capa lá em cima):











7 de agosto de 2017

Joe Satriani no Ibira!

divulgação

Ontem, eu e a família do-ré-mi fomos sem pestanejar ao showzaço gratuito do Joe Satriani, um dois mais rápidos guitarristas do mundo - além de seu histórico como professor de guitarristas brilhantes como Steve Vai ( que se tornou grande amigo), Kirk Hammett, Alex Skolnik ( Testament), entre outros. No Parque do Ibirapuera ( SP), em noite de lua cheia e um frio aconchegante, milhares de pessoas cercaram o auditório do parque para prestigiar o guitarrista americano que é colecionador de Grammys e já vendeu mais de 10 milhões de cópias de seus discos. Nos últimos tempos acompanho um pouco de longe sua carreira, mas nos anos 80/90 fui ferrenho ouvinte de suas pirotecnias estonteantes, primeiro no disco "Surfin with the Alien" de 1987, que deixou todo mundo de queixo caído na época, menos Steve Vai, seu ex-aluno, conhecedor de seu virtuosismo na guitarra e por isso mesmo responsável por divulgar Satriani sempre que possível em entrevistas, o que ajudou-o a conquistar sucesso depois de pelo menos dez anos na labuta. Além desse petardo que estampava na capa o próprio Surfista Prateado de Stan Lee e John Buscema, ícone dos quadrinhos sessentistas, talvez o disco do homem que eu mais ouvi/gastei a agulha foi o de 1992, The Extremist, cheio de nuances e climas e um dos projetos de sua carreira mais festejados pela crítica. Joe Satriani tem estilo próprio e mistura em seu caldeirão tudo o que tem direito - jazz, blues, funk, heavy, progressivo - e ontem, além de seus clássicos ( "Crushing Day"; "Always with Me, Always With You"; "Summer Song"; "Friends")  tocou Hendrix e um número muito próximo de ser chamado de baião. Um show gratuito com duas horas de duração em que o protagonista tocou com muita disposição - lembrando que ele completou 61 anos em julho! - esbanjando felicidade enquanto esmerilhava suas três ( quatro?) guitarras na apresentação, ao lado de sua banda competentíssima. Quem estava lá pôde presenciar: depois de exaustivas músicas com quatro minutos ou mais, o guitarrista não apresentava nenhum sinal de cansaço, sequer presença de suór ( vejam fotos dele de quinze anos atrás - ele também não envelhece!!), o que me faz acreditar que ele possa ser um "alien". Pra tocar guitarra desse jeito, bem provável!
No final apoteótico do show, que durante toda a sua duração contou com efeitos visuais estonteantes vindos do telão, Satriani pediu para o guitarrista Artur Menezes, brasileiro radicado nos EUA que fez com sua banda uma perfeita abertura, subir ao palco para ajudá-lo em um blues de alta voltagem. No fim fez um gesto de retribuição à reverência explícita do jovem instrumentista, o que prova sua falta de esnobismo. O professor estava lá para divertir a plateia e se divertir também. Conseguiu.

Abaixo, fotos da apresentação ( e a íntegra de "The Extremist", para recordar)

https://www.youtube.com/watch?v=yxIM312iBWU











4 de agosto de 2017

Luiz Melodia (1951- 2017)


Sexta feira triste, muito triste! Faleceu Luiz Melodia, um dos mais autênticos intérpretes/compositores de nossa terra brasilis. Melô se despede da gente aos 66 anos, deixando uma obra ainda a ser estudada - suas composições são genuínas, únicas - e discos que se tornaram clássicos, a começar pelo primeiro, Pérola Negra (1973), obra prima de sua carreira. Como músico e intérprete Melodia não deixou herdeiros - um soul tropical cheio de climas, com pitadas de samba, tudo embalado na mais sólida afinação. E como letrista, mais uma vez quebrou tradições, transgredindo frases, misturando emoções em poesias cortantes e crônicas pungentes. Tive o privilégio de conhecê-lo em um evento no Rio há alguns anos atrás. Trocamos ideias, ele foi muito aberto e descontraído, e fiquei emocionado ao vê-lo mais tarde, brincando com crianças no carpete do hotel , enquanto o evento rolava no salão ao lado. Luiz Melodia era assim, zen até a última ponta. Sua música "Magrelinha" é das mais celebradas por mim e pela Cris entre a playlist de favoritas que temos desde o começo do nosso relacionamento. Seu disco "Pérola Negra", um dos mais "gastos" na minha velha vitrola. E a emocionante "Juventude Transviada" , tema de novela, uma das grandes músicas da trilha da minha infância. Por essas e outras Melodia sempre fez parte da minha vida. Que fique em paz em seu novo caminho.

https://www.youtube.com/watch?v=efg8Th__apc

3 de agosto de 2017

Baú do Malu 71: Mascote 1 e 3 ( Editora Abril - 1953)



A Editora Abril ( leia Victor Civita, o fundador) sempre se orgulhou de ter começado seu conglomerado editorial com um "pato", a despeito do velho Walt ter também lá nos anos 20  finalmente "vingado" ( após algumas frustrações e fracassos) com um rato ( e eu nem preciso escrever que é o Mickey, certo?). O pato do seu Victor é o Pato Donald, claro, lançado em julho de 1950 em formato menor ( depois adaptado para o atual formatinho). Por causa desse amuleto de sorte, que não vendia horrores no início mas graças ao "marketing de guerrilha" de Civita e sua pioneira equipe ( entre eles Claudio de Souza, Reinaldo de Oliveira, Alberto Maduar e um pouco depois Álvaro de Moya), que faziam corpo a corpo junto às bancas, a revistinha O Pato Donald deslanchou e catapultou a vinda de revistas de outros segmentos - Capricho, Quatro Rodas, Cláudia, etc. Moya, em recente entrevista ao colecionador Adriano Rainho, lembrou que um desenho da cara do Pato Donald - sugestão sua - foi adaptado na frente da perua de distribuição da Abril, avisando assim a criançada que o gibi novo tinha acabado de chegar. Diante desse começo promissor, outras revistas do período (1950-1953) que não tiveram a mesma sorte em vendas, acabaram ficando no limbo, esquecidas na história oficial da editora  - citei-as em post anterior: http://almanaquedomalu.blogspot.com.br/2012/04/bau-do-malu-36-diversoes-escolares-n.html ) . A Mascote entra nessa história como mais uma das publicações renegadas da Editora Abril. Publicada em 1953 ( um pouco depois da estreia do Mickey em revista própria), foi mais uma tentativa de Victor Civita de introduzir no Brasil revistas lançadas e testadas pelo seu irmão César Civita em sua Editorial Abril na Argentina ( como Raio Vermelho, depois Misterix - aqui: http://almanaquedomalu.blogspot.com.br/2011/11/bau-do-malu-34-raio-vermelho-n-49.html ). Uma revistinha infantil pitoresca e abusada em "efeitos visuais", com bordas recortadas contornando os desenhos da capa, os textos narrativos escritos com letra de caderno ( e a tinta imitando caneta esferográfica), geralmente dando pistas dos autores que produziram as historinhas ( Heitor, que deve ser Hector Oesterheld; Sirob - Boris ao contrário; Hugo, muito provavelmente é o grande Hugo Pratt), as histórias principais sequanciais, sem quadros definidos nem balões de diálogos. Até onde eu sei saíram apenas quatro edições mensais de Mascote no Brasil ( o original na Argentina era Gatito - veja aqui, neste ótimo post: http://mimamamemima2009.blogspot.com.br/2013/01/gatito.html ). Eu possuo em meu acervo a número 1 ( setembro de 1953) e a número 3 ( novembro de 1953). Na última, algumas histórias creditam os autores - entre eles mais uma fera do quadrinho argentino: Alberto Breccia. O pato "voava" nas bancas neste 1953, Mickey começava a pegar gosto e equipe de artistas da casa chegou a ter até curso extensivo para pegar o jeito de desenhar seguindo o "padrão Disney". Paralelamente, uma segunda roupagem de "Raio Vermelho" ( a verdadeira primeira revista de Victor Civita no Brasil) rebatizada de Misterix e lançada neste mesmo ano - com lindas capas de Jayme Cortez ( não assinadas) sobreviveu por um semestre (12 edições quinzenais). O simpático "Gatito" e sua turma acabaram esquecidos nesse processo. Se em algum momento o astuto Victor Civita se deu conta e tentou algum tipo de divulgação mais focada ( no caso o público era formado por leitores mais novos), já era tarde para o Mascote.

Abaixo, capa da 3 e internas das edições 1 e 3: