13 de junho de 2015

Ornette Coleman (1930-2015)


Outro gênio se despediu nesse mês de junho. Ornette Coleman foi um dos artíficies do Free Jazz e seguiu nesse espírito livre por toda a carreira musical. Ao lado de John Coltrane, virou do avesso o jazz tradicional e acabou com a pecha de fazer música "inacessível". Bobagem: para os que tem os ouvidos "livres" e ávidos por música de qualidade e emoção, a obra de Coleman, intrincada sim, conceitual sim, experimental sim, é uma experiência única e maravilhosamente libertadora.

Aqui, o disco que começou tudo: https://www.youtube.com/watch?v=Lbt9DDolcag



Fernando Brant (1946-2015)

Morreu o letrista mais prolífico do Clube da Esquina e de toda uma geração musical mineira. Fernando Brant trabalhou com os principais compositores do movimento: Milton Nascimento ( parceiro em mais de 200 músicas), Tavinho Moura, Toninho Horta, Lô Borges,  Wagner Tiso e Beto Guedes. E essa profusão de letras teve um começo meio sem querer.

Milton e Brant - parceiros certeiros
Milton Nascimento procurou Brant lá em 1967 pra letrar uma música sua, depois de achar que Márcio Borges, seu letrista de primeira hora, não tinha a ver com ela. Procurou o amigo pois sabia que escrevia bem e era um intelectual devorador de livros e filmes. Brant quis sair fora, alegando que não tinha nada a ver com aquilo, mas alguns dias depois, meio temeroso, acabou mostrando uma letra pungente sobre um amor que partiu e ganhou pra sempre o parceiro Milton logo de primeira. Essa música, "Travessia" eras uma das três músicas que o padrinho musical de Milton, Agostinho dos Santos, inscreveu ( na surdina) no Festival Internacional da Canção. Não ganhou ( ficou em 2º) mas virou um clássico instantâneo e abriu as portas do Brasil para uma leva impressionante de compositores/letristas mineiros, turma que em pouco tempo batizaria seu movimento de Clube da Esquina e chamaria a atenção da nata musical no mundo inteiro. Brant se formou advogado, fincou bandeira em redações de jornais e revistas, escreveu livros e fez letras, tantas letras magníficas, tão simples e ao mesmo tempo eruditas, com uma marca só sua. "Maria, Maria", "Paixão e Fé", "Canção da América", "Manoel, o Audaz" ( homenagem ao seu Jeep Willys do tempo da guerra), "Para Lennon e McCartney", "Beco do Mota", "Ponta de Areia", "Nos Bailes da Vida", "O Medo de Amar e o Medo de Ser Livre", "Raça", "Diana", "Paisagem da Janela", "Conspiração dos Poetas". São centenas, cada uma com sua beleza e sua aptidão para celebrar o povo, as Minas Gerais, a brasilidade profunda. Brant já tem um livro com suas crônicas escritas para o jornal Estado de Minas e um disco bem bacana que saiu pela Dubas ( selo de Ronaldo Bastos) em 2002, "Outubro", com 15 obras do seu cancioneiro interpretadas por grandes da MPB em várias épocas ( capa abaixo).


Agora, com a ausência terrena, precisamos pra já, pra agora, urgentemente, de uma antologia com as letras e poesias de sua lavra - todas elas - para lermos, cantarmos e declamarmos para sempre o conjunto da sua obra. Uma homenagem mínima para um letrista/poeta que deixou a alma em cada frase, cada verso criado, numa conexão regional/universal pouco alcançada por outros escritores.

Entrevista de 2012: https://www.youtube.com/watch?v=bOwhtz2rBW8

Disco completo ( "Conspiração dos Poetas", com Tavinho Moura - 1997)  https://www.youtube.com/watch?v=gBIVKXl0pZQ

Trecho do filme "A Sede do Peixe" com a música "Paixão e Fé" ( Milton Nascimento/ Fernando Brant) - https://www.youtube.com/watch?v=4w26fGW-yuQ

Travessia ( Milton Nascimento/ Fernando Brant) - 1967 - https://www.youtube.com/watch?v=gjn0xsKIUiM

12 de junho de 2015

Christopher Lee (1922-2015)

Fotos: divulgação
Obrigado, mestre Christopher Lee, por "aterrorizar" nossas sessões de cinema com tanta maestria!
Descanse, pois trabalhou muito nesses quase um século de vida!

Em tempo: Quem só o conhece como Saruman do Senhor dos Anéis, corra e assista aos seus filmes de Drácula: Lee foi o ator síntese do personagem e acho difícil alguém tomar o seu lugar nesse quesito. Vale também assistir muitos de seus filmes até os anos 70. O ator fez de tudo um pouco no terror clássico, mas também foi muito versátil em outros gêneros: suspense, policial, drama, guerra.




8 de junho de 2015

Dos Arquivos Originais de Rick Berlitz: VAIA, VIOLÃO, ESTROFE, REDENÇÃO

Meu confrade Rick Berlitz, parceiro musical e comparsa de boas coisas desde os anos 80, me apareceu com uma descoberta absolutamente crucial e eu a achei tão imprescindível que aproveitei para abrir mais uma série aqui no blog: "Dos Arquivos Originais de...". O compositor Sérgio Ricardo já tinha aparecido em um post no Almanaque do Malu uns tempos atrás ( devidamente linkado no texto do Rick) mas agora, nessa escavação à importante publicação sessentista InTerValo, da Editora Abril - uma das revistas que mais mergulharam no comportamento cultural e midiático da época - , o compositor ressurge um ano depois da famosa "violada", em um momento de redenção pouco documentado até agora. 


VAIA, VIOLÃO, ESTROFE, REDENÇÃO

(Rick Berlitz) 

Crédito: página da revista InTerValo de 09/11/1968 ( Editora Abril)

Alguns achados nas gavetas. Mas nada de novo no fronte. Tudo o que já sabemos – e se não sabemos, recorremos aos livros, ao Google, etc. Ponto.
 O cantor, compositor, diretor de cinema e ator, na foto acima com o livro de Léo Gilson Ribeiro - Cronistas do absurdo - Kafka, Buchner, Brecht, Ionesco, é Sérgio Ricardo, nome artístico de João Lutfi, nascido em Marília, no interior de São Paulo, em 18 de junho de 1932. Compôs “Deus e o diabo na terra do sol”, trilha do filme homônimo do (igualmente genial) cineasta baiano Glauber Rocha.
A foto é da semanal (há muito extinta) revista InTerValo, da Editora Abril, em sua edição de 3 a 9 de novembro de 1968. 

Destacava em uma de suas matérias a briga de Sérgio Ricardo com a justiça para liberar “Dia da Graça”, finalista do IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record - a música substituída seria “Rojão da Canoa”, de Carlos Castilho e Vitor Martins.
 Um ano antes, no II Festival de Música Popular Brasileira, Sérgio Ricardo foi sumariamente vaiado pelo público ao tentar entoar "Beto Bom de Bola", uma homenagem ao ídolo Mané Garrincha, que já vivia no ostracismo, em 1967. A plateia, impiedosa, não deixou o músico chegar ao fim da canção: tentou, gritou, quebrou seu violão no palco e, num ato antológico, atirou-o no público. Virou notícia na imprensa brasileira e internacional. Esta e outras passagens estão documentadas, e relatadas pelo próprio Sérgio Ricardo, em "Quem Quebrou meu Violão”.
Para saber mais, leia Aqui sobre “um certo violão vilão que violou vaias”.

“Quando bate a nostalgia
bate noite escura
mãos no bolso e a cabeça
baixa, sem procura
Beto vai chutando pedra
cheio de amargura
num terreno tão baldio
o quanto a vida é dura
onde outrora foi seu campo
de uma aurora pura.
Chão batido, pé descalço
mas sem desventura.
Contusão, esquecimento
glória não perdura.
Mas, se por um lado o bem se acaba,
o mal também tem cura”.

“Dia da Graça” foi parcialmente censurada pelo governo militar. Durante a execução, o cantor permaneceu em silêncio nas estrofes proibidas. A redenção de Sérgio Ricardo foi a remissão dos erros do público, que cantava parte dos versos censurados:  “Faz um dia claro e eu saí pela rua / Pra ver a cidade diferente / da normalidade / Nenhum militar de arma em punho”.  “Dia da Graça” foi interpretada por Sérgio Ricardo e o Modern Tropical Quintet. Ficou com o quinto lugar. O Festival tinha dois júris: um Oficial e outro Popular, este com participação dos leitores da InTerValo, que publicava cupons semanais para o público escolher as finalistas. 
Das mais de 1.000 músicas inscritas no IV Festival de Música Popular Brasileira, apenas 36 foram selecionadas para as eliminatórias, entre elas: 2.001 (Rita Lee Jones/Tom Zé), com Os Mutantes; A Grande Ausente, (Francis Hime/Paulo Cesar Pinheiro), com Taiguara; Madrasta (Renato Teixeira/Beto Ruschel), com Roberto Carlos; Bonita (Hilton Acioly/Geraldo Vandré), com Trio Marayá; Cajueiro Velho (Luiz Roberto Oliveira/Milton Eric Nepomuceno), com Eduardo Conde; Descampado Verde (Maranhão), com Maranhão e MPB-4, e Dia da Graça (Sérgio Ricardo), com Sérgio Ricardo e Modern Tropical Quintet.

Classificação final do Júri Oficial:
1º lugar: SÃO SÃO PAULO, MEU AMOR (Tom Zé), com Tom Zé
2º lugar: MEMÓRIAS de MARTA SARÉ (Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri), com Edu Lobo e Marília Medalha
3º lugar: DIVINO, MARAVILHOSO (Gilberto Gil/Caetano Veloso), com Gal Costa, Ivete e Arlete
4º lugar: 2.001 (Rita Lee/Tom Zé), com Os Mutantes
5º lugar: DIA DE GRAÇA (Sérgio Ricardo), com Sérgio Ricardo e Modern Tropical Quintet
6º lugar: BENVINDA (Chico Buarque) Chico Buarque e MPB-4

Classificação final do Júri Popular:
1º lugar: BENVINDA (Chico Buarque), Chico Buarque e MPB-4
2º lugar: MEMÓRIAS de MARTA SARÉ (Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri), com Edu Lobo e Marília Medalha
3º lugar: A FAMÍLIA (Chico Anísio/Ari Toledo), com Jair Rodrigues e Golden Boys
4º lugar: BONITA (Geraldo Vandré/Hilton Accioly) com Trio Marayá
5º lugar: SÃO SÃO PAULO, MEU AMOR (Tom Zé), com Tom Zé
6º lugar: A GRANDE AUSENTE (Francis Hime/Paulo César Pinheiro), com Taiguara

Prêmio de Melhor Intérprete Masculino: JAIR RODRIGUES (Júri Popular)
Prêmio de Melhor Intérprete Feminino: ELZA SOARES (Júri Oficial)
Prêmio para Melhor Letra: 2.001 (Rita Lee/Tom Zé)
Prêmio para Melhor Arranjo: Edu Lobo por MEMÓRIAS DE MARTA SARÉ


Sobre Vandré – Nesta mesma edição, a InTerValo anunciava que o cantor e compositor paraibano “cobrou cachê considerado excessivo pela direção da emissora (TV Record)”. Bonita, em parceira com Hilton Accyoli, foi interpretada pelo Trio Marayá, de que Accyoli era um dos integrantes.

Em 13 de dezembro de 1968 foi decretado o AI-5. O resto é história. Tudo o que já sabemos. Fim.


6 de junho de 2015

Baú do Malu 55 : folheto original com programa do musical Rosa de Ouro ( 1965)

O antológico show "Rosa de Ouro" foi um musical pioneiro tendo o samba como protagonista. Foi nas mesas impregnadas de samba do não menos antológico Zicartola (casa que unia o samba de mestre Cartola com a culinária de sua mulher Zica), um ano antes, que aventou-se a possibilidade de se fazer um espetáculo unindo a velha e a jovem guarda do samba.Foi um lance arriscado - um show de samba em tempos de ieieié e bossa nova - mas que já se mostrara possível pelas mãos de Augusto Boal e seu sucesso Opinião ( que estreiou em dezembro de 1964). O espetáculo entrou em cena em 18 de março de 1965 com artistas até então desconhecidos do grande público - Elton Medeiros, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro - e duas damas da canção, cada uma no seu riscado: Clementina de Jesus e Aracy Cortes. Clementina fora descoberta por Hermínio Belo de Carvalho - pai e idealizador do musical - havia pouco, mais precisamente em 1963, depois de testemunhar a fundação da Portela e trabalhar como doméstica por 20 anos; Aracy Cortes ressurgiu com tudo nesse espetáculo, ela que foi vizinha de Pixinguinha e "lançadora" de grandes compositores desde os anos 20, como Assis Valente e Ary Barroso. Com essas duas damas do samba, a produção de Kleber Santos, o texto incisivo e a direção de Hermínio e a feliz reunião do conjunto Rosa de Ouro ( formado pelos cinco compositores/instrumentistas/intérpretes já citados), em torno de composições cruciais do gênero assinadas por Paulo da Portela, Cartola, Nelson Cavaquinho, Lamartine Babo, Sinhô e Ismael Silva ( gerações anteriores retiradas do limbo, como em "Opinião"), o musical durou um ano com grande sucesso.
Selecionei abaixo duas páginas do livreto original com o programa do espetáculo.
O livreto traz alguns detalhes interessantes, como chamar o show de "espetáculo de música popular carioca" e comprovar a gravação de vozes (especialmente para o espetáculo), de um time de responsa: Almirante, Sérgio Porto, Mario Cabral, Cartola, Sérgio Cabral, Lúcio Rangel, Carlos Cachaça, Ismael Silva, Pixinguinha, Donga e Jotaefegê. O único porém do programa impresso pe que fica-se sem saber quem executa/imterpreta cada número. A linda capa é creditada à Wilson Georges ( imagem que abre o post). Um musical que marcou época em um documento que merece ser guardado!




2 de junho de 2015

Daniel Cardona Romani

O guitarrista e vocalista Daniel Cardona Romani foi fundador do cultuado Módulo 1000, banda prog brasileira que deixou como legado um dos discos mais idolatrados do rock nacional ( "Não Fale Com Paredes", Top Tape -1970). Mas antes de tudo, foi um baita ser humano, profundo em sua simplicidade, e imensamente preocupado com o bem estar alheio. Conheci-o na internet e embora tivéssemos o rock como um denominador comum, descobrimos outros interesses afins que acabaram pautando nossas breves e agradáveis conversas, como o colecionismo. Além da paixão pelos quadrinhos, Daniel era um dos maiores colecionadores de plásticos do Brasil. Os plásticos, geralmente brindes promocionais de empresas feitos de plástico e sem cola ( usava-se água para sua aderência) foram uma grande febre nos anos 60/70 e Cardona foi um grande especialista nesse hobby.Quando via algum à venda no Mercado Livre, passava a dica a ele, embora tivesse quase tudo. Em um dos últimos papos, ele viu uma postagem minha sobre várias revistas encontradas em um sebo do centro e me perguntou se lá havia mais delas, pois seu pai tinha desenhado por um tempo na publicação e ele vinha fazendo um levantamento desses trabalhos. Eu sempre acompanhava suas postagens e nos últimos tempos, além de suas aulas de guitarra e eventos relacionados ao instrumento, vi a volta do Módulo 1000 com nova formação e sua meticulosidade em estúdio, preparando um disco por anos a fio. Daniel Cardona lutava bravamente contra um câncer reincidente e o trabalho era uma de suas armas. No final de abril (25/04), acabou fazendo a passagem. Na correria e no tumulto dos afazeres diários, não soube do ocorrido na época, o que aconteceu só agora, vendo comentários de amigos em comum. Um de nossos heróis do rock descansou! fique em paz, Daniel Cardona!


Separei uma ótima matéria de abril de 2015 sobre o Módulo 1000, do site Rock Progressivo ( e fonte Wiplash) e uma entrevista de 2013 com Daniel. E vai também o link do aclamado disco (quem não o conhece saberá porque ele é tão falado e incensado):

http://rockprogressivobrasileiro.com.br/artigos/modulo-1000-nao-fale-com-paredes/#more-117 http://limonadahippie.blogspot.com.br/2013/02/entrevista-com-daniel-cardona-romani-da.html

http://limonadahippie.blogspot.com.br/2013/02/entrevista-com-daniel-cardona-romani-da.html

https://www.youtube.com/watch?v=BfeBetP6WS0

31 de maio de 2015

Foto do Mês: fábrica da Duchen na Via Dutra (SP) (anos 50)


Essa imagem incrível das antigas instalações da fábrica de biscoitos Duchen na Via Dutra veio da página Memórias Paulistanas do Facebook, administrada pelo Pedro Nastri. O projeto era de Oscar Niemeyer e a construção foi concluída em 1951. Chegou a ser cogitada para tombamento mas acabou sendo demolida. Mais sobre sua história, aqui: http://www.saopauloantiga.com.br/biscoitos-duchen-historia-e-demolicao/
O que restou para apreciação foi mesmo a foto histórica.

30 de maio de 2015

Zodiako de Jayme Cortez: obra definitiva em promoção no Facebook


Zodiako , a obra máxima do mestre Jayme Cortez já foi publicada na década de 70 na revista Crás da Editora Abril e nos anos 80 em edição de banca, formato magazine, pela Editora Press. Mas graças ao trabalho meticuloso do pesquisador e curador de sua obra, Fabio Moraes, a saga, em comemoração aos seus 40 anos, ganha uma edição especial à altura de sua importância. Ricamente ilustrado, em tamanho gigante, e trazendo fotos, imagens inéditas, estudos, apontamentos técnicos, pôster e a saga original completa, o álbum, chamado de Zodiako Premium, impresso em papel couche, capa cartonada e 88 páginas, torna-se a edição definitiva desse clássico incontestável da HQ nacional. O lançamento vem com um preço especial de R$55,00, já com o frete de envio, em promoção só no Facebook. Os contatos são: https://www.facebook.com/jaymecortezoficial?pnref=story ou inbox no Facebook com o próprio Fabio. Uma oportunidade única de adquirir uma edição luxuosa e meticulosamente bem planejada.


29 de maio de 2015

Clássica livraria carioca Leonardo da Vinci vai fechar aos 63 anos

Carlos Drummond de Andrade na Da Vinci nos anos 80 
Uma das últimas livrarias clássicas do Rio de Janeiro, a Leonardo da Vinci, que foi frequentada pela nata literária e intelectual, principalmente entre os anos 60 e 80, vai encerrar suas atividades nesse ano de 2015. Drummond foi um desses ilustres frequentadores e acabou fazendo uma poesia em homenagem à livraria ( que pode ser lido no final do post). Ocupando quatro salas de um edifício histórico da avenida Rio Branco, a livraria, fundada pelo romeno Andrei Duchiade há 63 anos, já cerrou as portas de duas delas e a partir de 1º de junho começará a liquidar seu estoque de livros de 60 a 80 mil títulos ( entre obras raras e estrangeiras). Seu espírito sempre foi o de uma empresa familiar - a herdeira Milena Duchiade é descendente do fundador - e sua especialidade a de manter à venda raridades e lançamentos fora da lista dos best sellers. Esse viés rebelde e autêntico não estava mais sendo rentável, frente à oferta fácil de livros na internet e as facilidades das megas livrarias instaladas nos shoppings. Nada contra as grandes lojas multimídia atuais, mas estabelecimentos como a Da Vinci deveriam ser considerados patrimônio histórico-cultural-intelectual e assim sendo, deveriam ser tombados, para quem sabe, permanecerem alicerçados como ícone cultural de uma época.

Livraria ( Carlos Drummond de Andrade)

Ao termo da espiral
que disfarça o caminho
com espadanas de fonte,
e ao peso do concreto
de vinte pavimentos,
a loja subterrânea
expõe os seus tesouros
como se defendesse
de fomes apressadas.
Ao nível do tumulto
de rodas e de pés,
não se decifra a oculta
sinfonia de letras
e cores enlaçadas
no silêncio dos livros
abertos em gravura.
Aquário de aquarelas,
mosaicos, bronzes,
nus,
arabescos de Klee,
piscina onde flutuam
sistemas e delírios
mansos de filósofos,
sentido e sem-sentido
das ciências e artes
de viver: a quem sabe
mergulhar numa página,
o trampolim se oferta.
A vida chega aqui
filtrada em pensamento
que não fere; no enlevo
tátil-visual de idéias
reveladas na trama
do papel e que afloram
aladamente dançam
quatro metros abaixo
do solo e das angústias
o seu balé de essências
para o leitor liberto.

Capa do Mês: Hulk rocker!

A capa da Rolling Stone Brasil deste mês traz o gigante esmeralda da Marvel quebrando tudo, assim como faziam os icônicos guitarristas dos anos 60/70 no palco. A capa saiu desse mesmo jeito na edição de abril americana. Não tem personagem Marvel mais rocker, não acham?
Em tempo: a Rolling Stone americana, em seus primórdios (16/09/1971), também exibiu o Hulk em sua capa, como bem lembrou o antenadíssimo Toni Rodrigues. ( capa abaixo)


26 de maio de 2015

Os "Craques Curiosos" de José Renato Santiago

André Catimba, o mais recente "craque curioso" da série
O site "Memória Futebol" é uma página bem rica em informações futebolísticas e além de análises bem formuladas sobre o esporte mais querido do país, traz efemérides e fatos históricos semanalmente, e esse viés memorialista se deve em grande parte a um dos mais apaixonados pesquisadores do futebol, José Renato Santiago. Neste ano, Santiago começou uma série semanal bem interessante no site, chamada "Craques Curiosos", cujo intuito é trazer para conhecimento do leitor a trajetória daqueles jogadores inesquecíveis, bem distantes da genialidade, mas que por destino, autenticidade ou um lance ou sequência daquelas que marcam a torcida para sempre, deixam nos times que passaram a aura de craques insubstituíveis. Uma delícia de texto, muito bem pesquisado - em se tratando de um dos maiores colecionadores do assunto, isso não é novidade - em uma série que já merecia uma coluna própria dentro da página. Eu penei pra encontrar a série no Memória Futebol e com muita insistência, acabei encontrando-a dentro do tópico "Fórum", espaço opinativo dos leitores. Fica a dica mais destaque para os "Craques Curiosos"!
Aqui no link dá pra ler toda série na sequência: http://www.memoriafutebol.com.br/forum

22 de maio de 2015

Einstein legítimo no cofre do colégio!

foto: G1
Essa deu no G1 via RBS/Sul: uma carta datilografada assinada por Albert Einstein foi descoberta dentro de um cofre de um colégio em Porto Alegre. A missiva, com quase 65 anos e direcionada aos alunos, teve sua autenticidade garantida por uma perícia contratada pela direção do Colégio Anchieta, a escola que tinha esse tesouro guardado embaixo de seu teto. Junto ao documento havia uma foto do físico alemão, também assinada. O texto em alemão, diz o seguinte: "Quem conheceu a alegria da compreensão conquistou um amigo infalível para a vida. O pensar é para o homem, o que voar é para os pássaros. Não toma como exemplo a galinha quando podes ser uma cotovia ( pássaro da família das aludídeas)". Em 1951, o padre jesuíta Gaspar Dutra se encontrou com Einstein em Nova York e pediu que a carta fosse dedicada à escola, onde mantinha vínculos. Desde então, ficou guardada no cofre da instituição, dentro do gabinete da diretoria, e mesmo que sempre se falasse sobre a existência da tal carta, o tempo acabou deixando o assunto com aura de lenda. A carta só foi redescoberta por conta de uma feira científica, que fez com o diretor, que trabalha no colégio há 40 anos, reavivasse a história e fizesse uma busca interna. Hoje, em uma redoma de vidro no museu da escola, cópias da carta e da foto ficam à exposição dos frequentadores. Já a carta e foto originais... cofre de novo!

mais sobre o assunto, aqui: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/05/escola-do-rs-encontra-carta-escrita-por-einstein-para-alunos-ha-65-anos.html


20 de maio de 2015

Fatos ou suposições? Machado de Assis descoberto numa multidão abolicionista e o único retrato conhecido de William Shakespeare revelado em um livro de botânica

A missa campal de 17/05/1888 ( foto Antonio Luiz Ferreira/acervo Instituto Moreira Salles)
Esse título extenso acima prova que a semana não foi nada comum para os historiadores. Machado de Assis (1839-1908), que sempre foi acusado de omisso em relação ao abolicionismo mas nos últimos tempos vem tendo uma reavaliação em sua participação no movimento, foi descoberto, vejam vocês, no meio de uma multidão que celebrava junto à Princesa Isabel e o Conde D'Eu uma missa relacionada à libertação dos escravos ( por extenso, Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura), realizada quatro dias depois da Abolição (17/05/1888). Machado aparece na foto ( de Antonio Luiz Ferreira) bem perto da realeza e foi identificado por vários especialistas depois de ser descoberto em uma pesquisa interna da equipe da Brasiliana Fotográfica ( da Biblioteca Nacional/Instituto Moreira Salles). Os biógrafos do escritor acreditam que ele foi à missa com seu grande amigo abolicionista José do Patrocínio ( que também está em discussão como um dos integrantes da imagem) e como se revela na cena, comprovou seu jeito esquivo em público.

Detalhe do grupo próximo à Princesa Isabel, com destaque para Machado de Assis, quase coberto (Antonio Luiz Ferreira/Acervo IMS)

Claro que há controvérsias na descoberta e há historiadores em discordância com essa revelação, mas que o homem de barba e óculos ali meio de soslaio no grupo é bem parecido com o Machado de Assis que vemos em retratos desde os livros do ginásio e enciclopédias de infância, isso não se duvida.

Gravuras da capa da primeira edição do livro "Herbal" do século 16 - Shakespeare foi identificado como sendo essa figura à direita (foto Reuters)

A outra descoberta, e essa é mais polêmica, foi anunciada ontem pelo historiador botânico britânico Mark Griffiths. Ele afirmou ter descoberto o único retrato conhecido em vida do dramaturgo William Shakespeare (1564-1616). Além da forma surreal com que foi descoberto - em uma gravura na capa da primeira edição de um conhecido e gigantesco livro botânico do século 16 - a pesquisa também foi muito contestada, visto que Griffiths, na falta de uma legenda com seu nome, identificou o "bardo" através de sua vestimenta, o tipo de flor em suas mãos e um código criptografado que após ser revelado, forma o nome de Shakespeare. A revelação será publicada hoje na revista Country Life, em artigo assinado por Griffiths, e com todos esses detalhes surreais na apuração histórica, certamente suscitará discussões acaloradas entre os experts shakespearianos.

capa da magazine "Country Life" de hoje

Polêmicas à parte, as duas descobertas bombásticas anunciadas num curto intervalo de tempo na semana, deixaram a iconografia mundial em polvorosa!
Mais detalhes nas matérias abaixo e nas imagens espalhadas pelo post:

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2015/05/historiador-diz-ter-descoberto-unico-retrato-de-shakespeare-feito-em-vida.html

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/05/1630720-pesquisa-identifica-machado-de-assis-em-foto-historica-sobre-abolicao.shtml


19 de maio de 2015

Satisfaction versão Junior Wells

Muddy Waters (e), Junior Wells (c) e Keith Richards (d) em 1981 ( credito Michael Halsband/Landov)
Continuando com as versões inusitadas da cinquentenária "( I Can't Get No) Satisfaction", eis que me deparei com essa bela versão de Junior Wells (1934-1998), bluesman que tocou com muita gente, inclusive com a turma do rock - Rolling Stones, Santana, Van Morrison - e além de ser um exímio gaitista, gerou um LP que eu venero, junto com Buddy Guy, em 1972. Aqui, Satisfaction surge numa versão bem tranquila, mas ao mesmo tempo bem raiz. Keith Richards deve ter gostado muito dessa gravação, assim como as outras selecionadas para o disco Paint,it Blue (Songs of The RollingStones), de 1997, com a nata do blues mandando ver no repertório stoneano. Junior Wells faleceu um ano depois dessa gravação.

https://www.youtube.com/watch?v=H9NijFed0dI


15 de maio de 2015

B.B.King (1925-2015)



A música mundial amanheceu de luto: o rei do blues se despediu nesta madrugada. O lendário B.B.King (Riley B.King) foi um maiores do blues porque não só compunha, tocava e cantava, mas tinha uma verdadeira adoração pelo gênero que abraçou e pela sua famosa guitarra Lucille ( na verdade várias durante a carreira, chamadas por esse nome depois que teve que enfrentar um incêndio e salvar seu instrumento do fogo, que começou em uma disputa de dois garotos por uma garota de nome Lucille). A sua comunicação com a guitarra sempre foi impressionante: seus solos não eram bombásticos, mas bem sutis, com poucas notas, e sempre parecia que essas notas flutuavam a sua volta. Seu apelido, Blues Boy, ele ganhou quando virou DJ de uma rádio, ainda nos anos 40. Aprendeu guitarra sozinho e nunca mais parou, em quase 70 anos de carreira - até o ano passado ainda se apresentava ao vivo e chegava fácil às 100 apresentações por ano! um fenômeno realmente. Tocou com meio mundo do blues, do rock e do pop, recebeu muitos prêmios em vida e manteve sua aura sempre acesa. Curto seu som desde a adolescência, graças, e comprei muitos discos seus - o último foi aquele em dupla com Eric Clapton. Adoro de paixão aquele de capa azul, ao vivo na prisão, "Live in Cook County Jail", de 1970 ( e é ele que compartilho no link abaixo). Obrigado B.B., por ter existido e por ter tocado por tanto tempo!

https://www.youtube.com/watch?v=Pn7Jc1sWGg4



14 de maio de 2015

Satisfaction versão Mountain




Neste mês em que a cult "Satisfaction" completa 50 aninhos, postarei algumas versões inusitadas da song stoneana feitas durante este meio século. Nada de David Bowie, Ottis Reding, Devo... estas muita gente já conhece. Vou escolher só versões obscuras como essa do Mountain, maravilhosa banda de hard rock do começo dos anos 70, comandada pelo "peso pesado" Leslie West, chapa de Jimi Hendrix e um dos melhores guitarristas que eu já ouvi - merecia mais reconhecimento! Essa versão aqui é do álbum "Avalanche" de 1974. Escutem e me digam se não é um estouro! Satisfaction!

13 de maio de 2015

Satisfaction 50


A música que trouxe para o rock a crítica desdenhosa e irônica e um dos riffs mais lembrados de todos os tempos completou ontem meio século! Satisfaction começou a ser gerada despreocupadamente por um jovem Keith Richards naquele maio de 1965, quando acordou com o tal riff na cabeça, gravou-o rapidamente e pegou no sono de novo - por isso na gravação  o que se ouvia depois do pequeno trecho da guitarra era uma longa sequência de roncos. No dia seguinte, Keith gostou um pouco do que ouviu, mas a banda não se entusiasmou tanto e a primeira gravação da música saiu com uma levada mais lenta , quase folk,. Só quando o arranjador e músico Jack Nitzsche apresentou à Richards um novo pedal de efeitos chamado Fuzz-Tone, que tinha a função de aproximar o som da guitarra a um instrumento de metal, é que a coisa realmente pegou fogo. Não contente, Nitzsche ainda participou decididamente da faixa, tocando pandeiro e um indefectível piano, que só se percebe com muita atenção, mas que se mostra imprescindível no conjunto da obra. O resto é história: Mick Jagger cantou como nunca, Keith Richards azeitou seu genial riff sonhado e a banda toda mergulhou com ímpeto na canção que iria catapultar a carreira dos Rolling Stones e ajudar a transformar o rock dos anos 60 em grito, hino, libelo, protesto, rebeldia.

https://www.youtube.com/watch?v=7wiy9WEeYuQ



SONHO ALTO

Este texto intitulado "Sonho Alto" eu encontrei hoje numa caixa cheia de recibos, notas e contas pagas. Não sei quando eu escrevi, mas sei que tenho costume de guardar esses rascunhos com o intuito de mexer em sua estrutura em uma data futura oportuna. Mas lendo-o, resolvi postar do mesmo jeitinho que ficou na ponta da caneta Bic. Ei-lo:

SONHO ALTO

Eu tenho costume de voar em meus sonhos.
Ora deslizando sob nuvens miraculosas,
ora planando lentamente rente ao chão,
em quarteirões apinhados de crianças e jovens.
Os vôos baixos começam com uma breve corrida
e então o impulso consistente me coloca deitado no ar,
batendo os braços como se asas fossem.
A partir daí, tudo é festa:
Posso alcançar longas distâncias,
atingir velocidades estonteantes ou
fazer piruetas em espaço mínimo.
A sensação de liberdade é tamanha
e a respiração junto ao vento tão nítida,
que eu acordo todas às vezes acreditando plenamente
que realmente posso voar!
Amigos, eu recomendo:
Voem em seus sonhos!

Marcos Massolini


12 de maio de 2015

Foto do Mês: Um Galo de Campina na porta de casa!


Essa aparição inusitada vale o registro, mesmo sendo uma ampliação de uma foto de celular tirada às pressas. Avistei esse indivíduo plumado da espécie Galo de Campina em plena manhã no começo do mês, do outro lado da minha rua, numa árvore baixa quase de frente de casa. Em se tratando de uma ave que dificilmente se avista em São Caetano e arredores, tive que tirar rapidamente a foto do jeito que deu, antes dela voar pra longe: do celular e o mais perto possível.

8 de maio de 2015

A poesia de Zhô Bertolini nas ruas de Santo André


Dois flagrantes da poesia de Zhô na rua ( fotos Diário do Grande ABC e ABCD Maior)
Zhô Bertholini é uma das figuras mais proeminentes do universo literário e cultural do ABC. Poeta e agitador cultural desde os anos 60, foi criador da crucial revista literária A Cigarra (em 1982 - a revista resiste até hoje em edições esporádicas), ao lado da esposa poetisa Jurema Barreto de Souza, além de ter ajudado na consolidação da Feira Livre do Vinil de Santo André como feira independente e mensal. Independente aliás, sempre foi seu lema - edita livros independentes desde que se conhece por poeta, na mesma toada de seus antigos conterrâneos literatos frequentadores da clássica livraria andreense Alpharrabio. Zhô respira poesia e a última das suas tem, claro, a ver com essa sua paixão de vida: o projeto "O Poeta na Rua - Zhô e a Cidade", realizado pela Prefeitura de Santo André, atrávés da Casa da Palavra, é uma intervenção que contará com a obra do poeta impressa no asfalto em mais de sessenta cruzamentos de ruas pela cidade ( já valendo em mais de 40 deles). A técnica utilizada para impressão dos versos é o graffiti e as máscaras são confeccionadas pelos artistas Pixote e Michel Ramalho da Cena 7. A intenção do projeto, além da sinergia entre poesia, arte e o olhar cotidiano, é homenagear esse cidadão de corpo, alma e poesia chamado Zhô Bertholini, que há muito tempo já faz parte do chão e da paisagem de Santo André.
O SPTV 1ª Edição noticiou o inusitado projeto: http://globotv.globo.com/rede-globo/sptv-1a-edicao/v/artista-usa-asfalto-para-escrever-pequenos-trechos-de-poemas-nas-ruas-de-santo-andre/4161992/