29 de junho de 2014

Jorge Amiden, cofundador de O Terço, por Nélio Rodrigues

Amiden ( com sua guitarra de três braços) no O Terço
Jorge Amiden, um dos grandes compositores e instrumentistas do rock Brasil, cofundador de O Terço, faleceu anteontem. Depois de grandes composições ao lado de O Terço no início da década de 70 e depois de fundar uma banda genial e meteórica de nome Karma ( que teve um único e cultuado LP pela RCA em 1972), Amiden teve problemas sérios de saúde por causa das drogas e se recolheu no início dos anos 70 para nunca mais voltar à música profissional. Logo que li sobre o seu falecimento no Facebook hoje, me lembrei na hora de um dos textos mais intensos e emocionantes sobre o grande músico, escrito há alguns anos atrás no site Senhor F pelo jornalista, pesquisador e escritor Nélio Rodrigues. Transcrevo aqui a matéria na íntegra, como uma homenagem a Amiden. Que ele esteja em paz.

JORGE AMIDEN: UMA HISTÓRIA RESUMIDA

Nélio Rodrigues

Esquecido num sítio na periferia do Rio, o compositor, guitarrista e fundador de O Terço e do Karma, Jorge Amiden, tenta recuperar a saúde abalada pelo uso de drogas e das (pouquíssimas) viagens que fez com LSD no início dos anos 1970. "Foram muito boas, mas custei a voltar delas", diz o nosso afável Syd Barrett. Jorge é o compositor da inesquecível 'Tributo ao Sorriso' (em parceria com Hinds) e de tantas outras canções geniais do repertório de O Terço (1970 a 1971) e do Karma (1972). Era ele o principal arquiteto dos vocais harmoniosos de ambas as bandas. Além do mais, gravou um antológico LP com o Karma, participou do disco 'Sonhos e Memórias' de Erasmo Carlos e integrou a banda de Milton Nascimento. Depois, com o cérebro golpeado, se afastou dos palcos. Seguiu-se, então, um longo e indesejável ostracismo. Mas Jorge quer voltar, quer a música "viva" de volta a sua vida. E nós, órfãos de sua brilhante musicalidade, torcemos para que ele encontre o fio da meada, a luz no fim do túnel, a glória de um final feliz.

Jorge Geraldo Amiden nasceu em Campinas, SP, no dia 9 de janeiro de 1950. Com três anos de idade, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, de onde partiu para Brasília, em 1962, quando seu pai, Jamil Amiden, se elegeu deputado federal.
Por conta dos caprichos da mãe, o menino Jorge começou a estudar piano clássico, com eventuais desvios em direção à bossa nova. Levava jeito, tinha bom ouvido musical e uma especial sensibilidade para a música. No entanto, o piano só resistiu até Jorge entrar em contato com a música dos Beatles. Encantado com o conjunto inglês, que invadia o mundo com seus 'yeah yeah yeahs', Jorge trocou o piano pelo violão, Bach por Lennon e McCartney. Mas não sossegou até conseguir uma guitarra - uma Sound de 12 cordas.
Ainda em Brasília, ajudou os amigos Bina, Edson e Armandinho a montar uma banda. Na verdade, uma das primeiras de Brasília e que veio a ser batizada como Os Primitivos. Amiden, porém, não fez parte do grupo, já que mais uma mudança se encarregou de afastá-lo da cidade ao mesmo tempo que o trouxe de volta ao Rio, no início de 1967.
Amiden chegou decidido a montar sua própria banda. Com Jorge Roberto, na guitarra e vocal, Guilherme Cataldi, no baixo, e Sérgio, na bateria, Jorge criou Os Medievais e logo entrou no circuito de bailes da cidade. No repertório, muito Beatles e Byrds, além de temas de sua autoria.
Já com Vinícius Cantuária ocupando o posto de crooner da banda, os Medievais gravaram um compacto simples para a Diacuí Discos. Num lado, gravaram a otimista 'Hey de Vencer', uma das primeiras composições de Amiden. No outro, serviram de banda de apoio para a cantora Therezinha Côrtes, que colocou no acetato mais uma canção de Amiden: 'Rosa'. A pequena gravadora, no entanto, confeccionou apenas 10 cópias em acetato que mandou distribuir para algumas estações de rádio a fim de testar o potencial dos desconhecidos artistas. Como não aconteceu nada, a companhia não investiu na prensagem do disco.
O grupo seguiu tocando em bailes e acompanhando gente como os cantores Edson Vander e Serguei. Aliás, era o grupo favorito de Serguei, como conta Mário, irmão de Amiden. Mário, por sinal, logo se tornaria o novo baixista da banda. Sua entrada coincidiu com o processo de reformulação do grupo engendrado por Jorge Amiden. Os Medievais deixaram então de existir, entrando em cena o Joint Stock Co., um septeto inicialmente formado por Jorge Amiden (guitarra de 6 e 12 cordas, violão e vocal), o futuro baterista do Peso, Geraldo D'Arbilly (guitarra e vocal), João (bateria), Mário (baixo), Renato Terra (teclado e vocal), Vinícius Cantuária (vocal) e Jorge Roberto Sá (vocal). O ano de 1968 estava em progresso.

Nasce o Terço

Jorge queria uma banda tão boa quanto os Analfabitles ou The Outcasts, mas seguindo estilo próprio. E o Joint Stock Co. tinha nos vocais uma de suas melhores armas. Afinal, haviam cinco para dividir as vozes. Com o instrumental também afiado, a banda encarou os Analfabitles no palco do Casa Grande e, na Zona Norte, dividiu vários shows com as principais bandas da região, os Red Snakes e os Famks (futuro Roupa Nova).

No início de 1969, com a saída de Mário, que foi estudar teatro, e de Jorge Roberto Sá, o Joint Stock Co. agregou Sérgio Magrão e César de Mercês. Mas a nova fase não foi muito longe. Magrão, que integraria aquela clássica formação de O Terço, com Flávio Venturini, Sérgio Hinds e Luiz Moreno, teve que servir o exército, deixando o grupo capenga.

Insatisfeito com a situação, Jorge se encontra com o guitarrista Sérgio Hinds e com o baixista Robertinho (ambos do trio Os Libertos), a fim de tê-los como parceiros em sua nova empreitada. Da conversa, resulta porém um reformulado Os Libertos, que vira um quinteto com a exclusão de seu baterista e a entrada de Jorge, Vinícius e João (todos ex-integrantes do Joint Stock Co.). Mas, ao longo do ano de 1969, vários acontecimentos levariam o grupo a se transformar no trio que se lançaria pela etiqueta Forma (da Philips); teria participações memoráveis em festivais; e se consagraria, mais tarde (e com mudanças em sua formação), como uma das maiores bandas do rock brasileiro, O Terço.
Para abreviar uma longa história, o grupo seguiu para Corumbá, MS, onde passou meses se apresentando numa boate local, com esticadas eventuais à Bolívia e Campo Grande. Mas João e Roberto não ficaram muito tempo por lá. Mário voltou a assumir o baixo, posição que ocuparia temporariamente até o retorno do grupo ao Rio, no início de 1970. O fato é que os remanescentes Jorge, Sérgio e Vinícius já tinham um compromisso agendado com Paulinho Tapajós, com quem Sérgio Hinds se encontrara numa breve visita ao Rio. Paulinho estava começando a trabalhar com produção na Philips e mostrou-se interessado em ouvir o grupo.
Contudo, como o nome Os Libertos não havia sido do agrado de Paulinho, inclusive por soar desafiador em plena ditadura, o grupo resolveu se auto-intitular Santíssima Trindade. Enquanto ainda estavam em Corumbá, num encontro do grupo com o Padre Ernesto, velho conhecido da família de Amiden, ouviram dele que Santíssima Trindade não era um nome adequado para uma banda de rock. Na verdade, o padre deu um tremendo esporro (desculpe, Padre) em Jorge por causa disso. Quando acabou o sermão, olhou para o rosário que segurava nas mãos e disse: "Que tal batizar a banda com o nome O Terço?".

Embora Jorge tenha gostado do nome, Santíssima Trindade prevaleceu até cerca de abril de 1970, quando o primeiro LP do trio já estava quase pronto para ser lançado. Mas, por conta de um veto atribuído à censura, a banda finalmente passou a adotar o nome defendido por Amiden, O Terço, em substituição ao censurado Santíssima Trindade.
Junto com o novo epíteto, veio o LP de estréia, o primeiro e único de Amiden com o Terço (Forma VDL 116). Amiden assina nove de suas 12 faixas. Cinco em parceria com Hinds e as demais com diferentes parceiros. Um dos destaques é o apurado vocal do trio, preocupação constante de Jorge, cuja voz, em tom mais alto, completava o terceto.
Com um LP nas costas e o benefício de excelentes apresentações nos prestigiados festivais de Juiz de Fora (em junho de 1970) e no Internacional da Canção Popular (em outubro de 1970), a ascenção de O Terço foi muito rápida. No primeiro, venceram o certame com uma canção de Guttemberg Guarabyra e Renato Corrêa, 'Velhas Histórias'. E no segundo (o V FIC), obtiveram o 9o lugar com a lindíssima 'Tributo Ao Sorriso', de Amiden e Hinds.
Em 1971, seguindo no embalo dos festivais, com 'Mero Ouvinte', de Amiden e Cézar de Mercês, o Terço levou o prêmio de melhor arranjo (de Amiden) do IV Festival de Juiz de Fora. Já no VI FIC, o grupo obteve o 7o lugar com 'Adormeceu', também de Amiden e Cézar de Mercês. Foi nesse FIC que o quarteto (Cézar já fazia parte do grupo) apresentou ao público seus novos instrumentos: uma guitarra de três braços (tritarra) e um violoncelo eletrificado. A 'tritarra' foi idealizada por Jorge. Ele queria explorar diferentes timbres e possibilidades sem precisar ficar trocando de instrumento durante as apresentações. Sérgio entrou na onda de Amiden e também quis inovar, introduzindo o violoncelo eletrificado. Talvez assim os holofotes não apontassem apenas para Jorge.

Estranhamente, os desentendimentos começaram a brotar no núcleo do grupo, criando um antagonismo entre Sérgio e Amiden. Nessa época, Jorge Amiden era quem mais sobressaía, certamente gerando ciúme nos companheiros. Aos poucos, começou a se sentir isolado dentro do grupo. Sérgio e Vinícius, por exemplo, queriam enveredar pelo rock mais pesado e isso contrariava os desejos de Amiden. Além disso, Sérgio Hinds decidiu registrar a marca 'O Terço' em seu nome e sem o conhecimento de Amiden.
A atitude de Sérgio e dos companheiros deixou o guitarrista profundamente abalado. Encostado na parede, não teve alternativa senão largar o grupo que ajudou a fundar e lhe dar uma cara. "Fiquei traumatizado", diz Amiden depois de tanto tempo. Na verdade, um trauma jamais superado e de graves conseqüências, a começar pelo uso cada vez mais freqüente das drogas em sua fase pós-Terço.

O raro Karma

Todavia, Amiden logo encontrou novos parceiros. Com Luiz Mendes Junior (violão e vocal) e Alen Cazinho Terra (baixo e vocal), irmão de Renato Terra, o guitarrista daria início a sua trajetória de pouco mais de um ano como líder do Karma. Ramalho Neto, da RCA, não teve dúvidas em contratar a banda antes mesmo de ouví-la. Reconhecia o talento de Amiden e antevia um belo disco do Karma para a RCA.

E foi o que aconteceu. Pouco tempo depois, a RCA distribuía na praça o LP homônimo do Karma, uma obra antológica que merece constar de qualquer lista dos melhores discos da história do rock brasileiro. Com uma sonoridade predominantemente acústica servindo de base para a primorosa vocalização do trio, 'Karma' é recheado de canções brilhantes, como 'Do Zero Adiante' (Amiden e Mendes Junior), 'Blusa de Linho' (Amiden e Rodrix) e a revisitada 'Tributo Ao Sorriso' (Amiden e Hinds). Esta, levada quase até seu final em a capela, servia para realçar ainda mais a força vocal do conjunto. Vale destacar a participação do baterista Gustavo Schroeter (então integrante da Bolha), que ajudou a abrilhantar o disco com sua batida sempre consistente, arrojada e precisa.
E foi com Gustavo na bateria que o Karma fez o show de lançamento do disco no Grajaú Tênis Clube. Lamentavelmente, este pequeno tesouro concebido por Amiden jamais foi reeditado. Possivelmente hiberna nos arquivos da RCA desde o seu lançamento, em 1972, como hibernam tantas outras obras importantes nos arquivos das gravadoras brasileiras.
Em sua curta vigência sob a liderança de Amiden, o Karma ainda participou do VII Festival Internacional da Canção Popular, em setembro de 1972. Foi quando defendeu 'Depois do Portão' (Amiden e Mendes Junior). Em 1973, nos primeiros meses do ano, durante um show no Clube de Regatas Icaraí, em Niterói, depois de misturar bebida com drogas, Amiden perde o controle do próprio cérebro. O solo de guitarra parece interminável... Depois, sentado à beira da praia com Mário, se perde em plano existencial paralelo, vagando inseguro e solitário pelo lado escuro da lua.
Jorge só encontra a saída do enovelado e desconhecido labirinto no dia seguinte, quando percebe que o mundo não é mais o mesmo, o Karma não é mais o mesmo, a música não é mais a mesma...E nem sua vida seria mais a mesma. Dos palcos, se afasta...para na calma do tempo, quem sabe uma luz como guia, em dado momento, conceda algum dia seu retorno sereno.

Agradecimentos: Jorge Amiden, Mário Amiden e Mendes Junior.


Depois desse brilhante texto, só nos resta ouvir o essencial LP do Karma (1972), na íntegra:
http://www.youtube.com/watch?v=rDAaRBVt9-Q

2 comentários:

  1. grande musico brasileiro de rock progressivo uma pena que os jovens que tanto valorizam led zepelin,pink floid e outros saxonicos nao valorizam nosso progressivo rock por preconceito imbecil

    ResponderExcluir
  2. Verdade, José Ailton! O preconceito às vezes é tanto, que muitos dizem não gostar sem ao menos escutar. abs

    ResponderExcluir