3 de março de 2015

Vila del Capo e literatura pulp dos anos 30

Entrada da "Vila del Capo" em São Pedro/SP
No fim de semana passado, fui com a família - filhos, mulher, sogra - conhecer a região de Águas de São Pedro/SP e São Pedro/SP, e fiquei encantado com a paisagem, a preservação e o bucolismo das localidades. Estava comemorando 22 anos de relacionamento com a esposa e, estrategicamente, reservei um almoço num lugar que não poderia ser mais apropriado: um misto de restaurante/orquidário/antiquário chamado Vila del Capo. Que marravilha! (como bem diria o chef francês na televisão). Pelo que pude pesquisar antes, o local foi inaugurado em 2003 em São Pedro com influências do famoso O Velhão de São Paulo e Mercado Surpresa de Campinas. A comida, em pratos individuais estava divina e o orquidário, infelizmente, não dispunha de muitas espécies. Mas o prato principal realmente é o antiquário: um espaço amplo, com todo tipo de antiguidade e sem nenhum resquício de poeira! a limpeza do lugar deve ser diária, tal o aspecto impecável que se percebe em todo o tipo de objeto. E são muitos itens: pinguins de geladeira, rádios, uma lambreta vermelha, juckbox, pratarias, quadros, castiçais, mobílias, geladeiras, porcelanato, brinquedos de lata, máquinas diversas, despertadores, cucos, etc, etc. Um paraíso, sem dúvida. Não levei money para esse fim ( porque não tinha), mas claro que não poderia sair de mãos abanando. Bati o olho em uma mesa e lá estavam eles: três livrinhos em frangalhos, no melhor estilo da literatura popular/pulp dos anos 30 e 40 no Brasil. E quem liga para o estado? Nesse caso, o que vale é a aura cult, os desenhos chamativos da capa, o papel barato amarelado, o corte gráfico irregular. É tudo isso que faz desses livretos artigos únicos, colecionáveis e cultuados. Os três exemplares que comprei por um preço ínfimo foram editados nos anos 30. O "Feiticeiros do Deserto" , de um tal E.M.Hull, saiu pela Companhia Editora Nacional e é de 1933. Nessa época a editora não mais pertencia a Monteiro Lobato, mas a seu sócio Octalles e seu irmão Themistocles Marcondes Ferreira. O livro mostra uma beleza intacta, mesmo com a capa despencando. Já os outros dois livros, ambos de bolso, saíram por editoras concorrentes especializadas em livros populares e coleções de reembolso postal ( prática iniciada por Monteiro Lobato no Brasil). "Os Homens do Mar" de Victor Hugo (segundo volume) foi publicado pela Sociedade Impressora Paulista em 1933 ( a mil réis, como informa a contracapa com a lista completa da coleção) e traz um corte abrupto de impressão na capa que chegou a ceifar parte do título. Como peculiaridade, vale ressaltar a presença de dois anúncios de remédios nas capas internas. Essa edição específica é citada pela especialista em traduções Denise Bottman em post do seu blog com data de 30/11/2012 ( veja aqui http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/11/traducoes-de-les-travailleurs-de-la-mer.html ). O outro, chamado Ave de Rapina , escrito por Jorge Ohnet, tem data de 1939 e saiu pela Empresa Editora Brasileira, também paulistana como as outras. Seu corte é o mais correto de todos, embora o bolor de aspecto ferruginoso tenha poluído deveras sua capa. Com esses belos e avariados exemplares à mão, e mesmo com o estômago bem forrado, consegui sair bem leve e satisfeito do local. Além dos livros, levei também um 78 rotações da Stelinha Egg, com dois baiões em cada lado. Antes da despedida e da chuva que se avizinhava, troquei um lero com o refinado e jovem garçom Jeferson Oliveira, morador das redondezas e grande apreciador de literatura em geral e mangás. O seu acervo, mencionado na conversa, tem no total 8 mil volumes e só de mangá, 2 mil exemplares. Diante de tal descoberta, na próxima oportunidade, esticarei uma visita à sua biblioteca. A chuva nos pegou saindo. E viva São Pedro!





Até no bar da Vila del Capo surpresas aparecem
















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