19 de setembro de 2010

Dom Quixote, uma bela obra itinerante

Ontem fui com a família na gigantesca e lotada Livraria Cultura do Conjunto Nacional, e logo na entrada do prédio, nos defrontamos com uma maravilhosa obra intitulada Dom Quixote. Embora (soube depois) essa incrível exposição exista desde 2005, inicialmente no próprio Conjunto Nacional e nos anos seguintes, em diversos locais da região Sudeste, só pude ter o prazer de encontrá-la agora em 2010. As esculturas de Dom Quixote, Sancho Pança e o cavalo Rocinante, vistas ao vivo, encantam e surpreendem, tanto pelo tamanho como pelas centenas de objetos recicláveis que fazem parte das três estruturas. A partir de terça, a exposição sai mais uma vez do seu espaço original e se instala na estação Sacoman do metrô ( no Ipiranga). Vale muito a pena ver com os próprios olhos.
Para saber mais ( os responsáveis, a inspiração, rota histórica e detalhes e materiais das obras):
http://www.ccn.com.br/dom_quixote.php
http://www.cooperaacs.org.br/

17 de setembro de 2010

Baú do Malu 27 - Folheto Convite do Clube "Amigos do Sesc e Senac" - 3º Festival de Arte ( 23/03/1950)

Quem é rato de sebo como eu, sabe: por detrás das capas dos livros raros existe um verdadeiro tesouro escondido. Dentro de páginas amareladas de livros antigos já cheguei a encontrar dinheiro, convite, postal, ticket e poesias manuscritas. Sem contar as dedicatórias. Outro dia, me deram uma edição espírita de autoria de Chico Xavier, dos anos 70, e quando eu abro a primeira página, está lá, uma dedicatória do próprio Chico Xavier. Este exemplo que colei acima explicita bem estes "encontros": um folheto de programação datado de 23/03/1950 que eu encontrei dentro de um velho livro da coleção do meu pai ( eh, sempre o velho João) do saudoso Círculo do Livro. Na verdade, é um programa-convite do evento intitulado "3º Festival de Arte", encenado pelo "corpo de baile da Escola de Dansas (sic) Clássicas de Maria Zemerova" no "Auditório da Escola Caetano de Campos" (ainda na Praça da República), organizado por professoras da centenária escola e produzido pelo Clube "Amigos do Sesc e Senac. Realmente um achado histórico. Assim que encontrei esse documento, entrei em contato com o Centro de Referência em Educação Mário Covas para que esse convite seja incorporado ao acervo específico da Escola Caetano de Campos ( fundada no século XIX!!). Eu guardo coisa pra caraco, mas também tenho consciência. Existem certos docs históricos que devem permanecer em centros documentais especializados. É o caso, e espero que sirva como luva para eles. Aliás, quem quiser conhecer, vale uma boa olhada no site do Centro, que tem muita informação essencial sobre a história da educação em São Paulo.

15 de setembro de 2010

O louco Jim Carrey em impagáveis performances musicais

Jim Carrey não é só o cara que mais faz caretas no cinema. Ele também tem seus méritos como comediante e costuma se entregar de corpo e alma aos personagens, mesmo que suas extravagâncias cênicas às vezes esconda sua real concentração. Mas vamos dar um desconto, pois ao que parece, Jim é daquele jeito também fora das câmeras. Essa entrega total faz com que ele faça muitas cenas mirabolantes sem precisar de dublês, como pular de bungee jump ou extrapolar em lances circenses ( o que já lhe ferrou algumas costelas). A maioria de seus filmes também tem um fundo musical bem intenso, incluindo cenas em que ele próprio ataca de vocalista. Selecionei quatro trechos hilários abaixo. O primeiro link traz a já clássica performance do ator, cantando alucinadamente em um karaokê caseiro, Somebody to Love, classicão do Jefferson Airplane, no filme O Pentelho (Cable Guy - 1995/1996). O segundo traz a sua interpretação entusismada para a canção Jumper, do Third Eye Blind, ao lado de um suicida em potencial no filme Sim Senhor (Yes Man - 2008). Detalhe curioso: no final, ele dá uma batida no violão e grita "I got blisters on my fingers" (Eu tenho bolhas nos meus dedos), mesma frase usada por Ringo Starr no fim da música Helter Skelter, após pequeno solo de bateria. O terceiro link, é um trechinho impágavel em cena inicial de O Mentiroso (Liar Liar - 1997) e o último traz uma incrível e rara gravação de I am Walrus ( talvez a música mais pirada dos Beatles) ao lado do lendário produtor dos Fab Four, George Martin (que riu muito com o maluco) para a trilha do filme O Mundo de Andy (Man on the Moon -1999), sobre a tragicômica vida do humorista e ator performático Andy Kaufman(1949-1984), e que também protagoniza.Vida longa ao Crazy Jim.
http://www.youtube.com/watch?v=mMSC-GhY0-g  
http://www.youtube.com/watch?v=yvkMy-Pj64E&feature=related 
http://www.youtube.com/watch?v=biUHyy9dExc
http://www.youtube.com/watch?v=lTO85q4oc2c&feature=related

13 de setembro de 2010

Wesley Duke Lee

Faleceu ontem, aos 78 anos de idade, o múltiplo artista Wesley Duke Lee. Desenhista, gravador, artista gráfico, professor, fotógrafo, Wesley participou de grupos e movimentos cruciais, como o Realismo Mágico e o  Rex nos anos 60. A sua inquietude crônica o fez um experimentalista de primeira hora: além de pioneiro em happenings no Brasil, passou pela pop art, criou objetos tridimensionais, experimentou cartografia, caligrafia oriental, pesquisou técnicas de xerox, vídeo, polaroid e várias outras reproduções eletrônicas de imagens.
Assista o vídeo do Itaú Cultural, em que ele chama a si mesmo de "artesão de ilusões":
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=877
E nesta galeria do UOL, grandes momentos de sua longa carreira:
http://entretenimento.uol.com.br/album/wesley_duke_lee_album.jhtm?abrefoto=4#fotoNav=1

Clausuras, dores e casulos transformadores

Renato Russo na adolescência (Arquivo Pessoal)
Conversando com a Cris sobre o ótimo livro "O Filho da Revolução", do jornalista Carlos Marcelo, que narra a trajetória do fundador da Legião Urbana em paralelo à própria história da capital federal ( Renato e Brasília nasceram no mesmo 1960), comentei que uma das passagens mais intrigantes é aquela em que o jovem Renato Manfredini Jr. é diagnosticado com uma terrível doença chamada epifisíólise, que desgasta ossos e cartilagens a ponto de deslocar o fêmur da bacia. Renato não podia se exercitar e sequer caminhar, o que o imobilizou na cama por dois anos. Para um garoto de 15 anos essa condição certamente é o inferno na Terra, mas nesse caso, acabou se transformando num laboratório de idéias e planos que sedimentaria toda a carreira do futuro compositor. Enclausurado e coberto de dores, Renato criou nesse período uma banda de rock imaginária (42nd Street Band) e uma persona, o vocalista e baixista Eric Russel, que já prenunciava seu futuro nome artístico. Quando curou-se, depois dos 18, todos os rabiscos, rascunhos e estratagemas planejados em seu casulo involuntário, deram a faísca necessária para a formação do seminal Aborto Elétrico e toda a postura rocker que o acompanhou pelo resto da vida. O sofrimento propiciou um plano de vôo milimetricamente estudado.
As biografias não mentem: convalescências, prisões, doenças mobilizantes, acidentes, entre outras rupturas radicais, muitas vezes servem como chaves que evocam vocações, ativam sonhos escondidos e transformam para sempre a vida e a postura dos atingidos.

Típico pôster de Griffin (1968)
Rick Griffin, famoso artista gráfico e quadrinista californiano, era também surfista dos bons e seus primeiros trabalhos traziam toda a cultura surfer para a arte do início dos anos 60, abusando de ondas gigantescas e personagens ensolarados.Até que em 1964, sofreu um grave acidente de carro rumo à São Francisco, onde lesionou seriamente um olho e teve várias cicatrizes permanentes no rosto. A partir daí, o surfista louro e galã Griffin trocou o bronzeado e as bermudas por um tapa olho e uma vasta barba cinza, e mudou totalmente sua concepção artística, que passou a incorporar elementos psicodélicos e darks como caveiras, lagartos cobras e esqueletos. Foi a partir desse terrível acidente que Griffin se encontrou como artista, criou os mais incríveis posters de bandas hippies dos anos 60/70 e pôde virar lenda antes de morrer ( em outro acidente, em 1991), tornando-se ao lado de Stanley Mouse, Victor Moscoso, Alton Kelly e Wes Wilson um dos 'Big Five" da psicodelia.

Tom Jobim mergulhado na música (anos 50)
Tom Jobim era na juventude um exímio esportista, caçador,nadador e mergulhador, até que em uma brincadeira besta na praia, caiu de mau jeito e avariou seriamente as costas. Impedido de praticar esportes, "mergulhou" de vez no piano e na noite. O resto é história.
"O Filho da Revolução" de Carlos Marcelo
Lembrei de três casos, mas com certeza há muitos enredos similares em que uma "avalanche" no caminho abriu clareira para um novo atalho, mais transformador e corajoso que o primeiro. Quem lembrar de outros, é só acrescentar.
Mais sobre:
http://www.renatorussoolivro.com.br/home.asp
http://www.rickgriffinink.com/
http://passagemcultural.blogspot.com/2009/01/em-1927-nasceu-o-maestro-soberano.html

1 de setembro de 2010

Baú do Malú 26 (Especial 100 Anos de Corínthians) - Autógrafos Corínthians 1980

No embalo do centenário do coringão velho de guerra, desencavei esta preciosidade: autógrafos dos principais jogadores da equipe corinthiana do início de 1980, que acabara de vencer o Campeonato Paulista de 1979 ( que teve a final em 1980). A data: 21/03/1980. O local: Luxor, em Maceió - a equipe acabara de jogar com o Remo pelo Campeonato Brasileiro ( perdeu por 1x0) e estava chegando à Alagoas onde jogaria com o CRB ( ganhou de 2x1)*. Pelo que vi do precioso papel acima, todos os jogadores titulares assinaram, com exceção de Amaral, mais alguns reservas, o médico, o técnico interino ( que daria lugar para Jorge Vieira já no outro jogo) e até o jornalista Flávio Adauto. Começando lá de cima, temos: Flávio Adauto, jornalista na época do O Estado de Sao Paulo, Gil, Solito, Renê de Toledo (médico), Wilsinho, Mauro, Nicanor (de Carvalho, técnico interino), Wladimir, Jairo, Píter, Caçapava, Geraldão, Basílio, Carlinhos, Biro-Biro, Zé Maria, Sócrates ( o único que escreveu mais que o nome: 'uma lembrança de'), Márcio e Wagner ( que deve ser o Vaguinho, embora seu nome de batismo seja Wagno). Um timaço, que ainda dispunha de muitos heróis de 1977, e que já se preparava para um futuro próximo glorioso ( o da Democracia Corinthiana), que teve Sócrates como um de seus artífices. A assinatura ao lado da do Basílio não reconheci- quem souber me avisa.
Este baú especial vai para todos os corinthianos apaixonados da nação alvinegra, e especialmente para meu pai, João Massolini, responsável-mor pelo meu corinthianismo, meu falecido vô Antonio Massolini ( goleiro da GM nos anos 30/40 e outro corinthiano roxo), meu brother Marcelo Tieppo, os irmãos Engelmann (Leo, Rogério & Lu), Tio Aramis, corinthianíssimo e sócio antigo, meu sogro Demeure, meu cunhado Zé ( e Flavito e Meurinho, da semifinal pra frente), minha mana Helô, meus filhos Letícia e Biel ( no bom caminho), os cenbraconianos Edu Soares, Colela, Wilsão, Tadeu e Denise, Mazurão,Wally, e minha amada companheira Cris. Viva nós!

* as informações dos jogos da época foram tiradas do Almanaque do Timão ( Abril - 2000) do grande Celso Unzelte, um dos maiores corinthianos dentro do jornalismo esportivo.

31 de agosto de 2010

O cinema de Rafael Saar encontra Luhli, Lucina e Baby do Brasil

Luhli & Lucina - foto de Luiz Fernando Borges da Fonseca

Baby do Brasil em show no Sesc Pompéia-SP - Foto de Gabriel Chiarasrelli
Depois de seis curtas-metragens, entre eles o premiado Depois de Tudo (2008) com Ney Matogrosso e Nildo Parente, o cineasta Rafael Saar engata em 2010 duas produções que prometem chacoalhar o cinema documental brasileiro. O longa-metragem Apocalipse segundo Baby com previsão de lançamento para 2012, enfocará toda a carreira da cantora niteroiense ( ou baiana da Baía de Guanabara, como ela mesmo diz), incluindo a longa jornada junto aos Novos Baianos e os projetos solos posteriores, mas com ênfase na sua incessante busca espiritual , numa ponte entre a Baby esotérica e a evangélica atual. Já Luhli & Lucina – Porque sim, porque não?, produzido em parceria com o Canal Brasil, concluirá a maioria das filmagens este ano para lançamento em 2011. A cultuada dupla, que já foi Luli & Lucinha, existiu entre 1971 e 1997 e deixou marcas na história da nossa música, ao lançar um dos primeiros discos independentes brasileiros e tratar pioneiramente de temas ecológicos. As duas continuam a mil, em produções solos e vários projetos culturais/sociais. Luhli foi quem apresentou Ney Matogrosso a João Ricardo do Secos & Molhados e foi co-autora de dois dos maiores sucessos da banda, O Vira e Fala (João Ricardo- Luhli). Lucina iniciou carreira no grupo Manifesto, que acompanhou Gutemberg Guarabyra na apresentação da sua vitoriosa Margarida, no II Festival Internacional da Canção de 1967. Além da face musical, o longa trará à tona a vida alternativa e comunitária de Luhli, Lucina e o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca, um “casal de três” que deu muito o que falar na época.

Luhli, Lucina e os tambores - foto de Luiz Fernando Borges da Fonseca
Entrei em contato com Rafael Saar via internet, para falar sobre cinema e jogar um pouco de luz sobre os dois trabalhos:

AM –Baby do Brasil, Luhli e Lucina viveram à fundo o conceito de comunidade hippie. Ney Matogrosso era hippie antes dos Secos & Molhados e sempre manteve ao longo da carreira uma postura “alternativa”. Quais são as pontas que ligam esses quatro peculiares artistas brasileiros ao cinema de Rafael Saar?

RS-Todos eles são especialmente cinematográficos por possuírem uma proposta estética sonora e visual muito interessante e particular. Além disso o pioneirismo destes artistas, que tendo surgido todos num mesmo momento histórico de repressão do país, mudaram desde os meios de produção musical, passando pelas influências que deixaram na própria música brasileira e chegando ao comportamento da sociedade.

AM-"Luhli & Lucina – Porque sim, porque não?" dará grande enfoque ao singular relacionamento entre Luhli, Lucina e Luiz Fernando Borges da Fonseca. "Apocalipse segundo Baby", adentrará o esoterismo e o mundo evangélico para seguir a carreira da múltipla Baby do Brasil. Com você não tem essa de ‘suavidade nos temas’, né?

RS-São histórias lindas e instigantes e o que proponho é tratar estes temas de forma natural. Seja no amor de Luhli, Lucina e Luís, ou de Baby e Pepeu; seja na música gospel de Baby ou na pesquisa de pontos de umbanda de Luhli e Lucina; discutir ou entender de que forma estes aspectos influenciaram e influenciam a arte que eles produzem.

Baby do Brasil em show no Sesc Pompéia-SP - Foto de Gabriel Chiarasrelli

AM-Existe uma amnésia crônica e um desleixo generalizado no Brasil em relação à sua memória cultural. Como conseqüência, resgatar documentos e materiais de arquivo torna-se um dos maiores obstáculos na produção de documentários. Como andam estas “escavações” para as duas produções?

RS-Os obstáculos são muitos nas escavações de material de arquivo, que são fundamentais neste tipo de proposta de trabalho. É uma pena que os arquivos, principalmente de emissoras de TV, cuidem tão mal de acervos tão preciosos à memória cultural. Estamos ainda em busca de muitos programas e filmes dados como perdidos, tanto dos Novos Baianos, como de Luhli e Lucina.
É uma pena também que o acesso e o preço que se paga por esse acesso seja tão alto, e por vezes inviabilize que idéias se concretizem, e que as pessoas tenham a possibilidade de conhecer sua história.
Conto muito com a ajuda de colecionadores, pesquisadores e fãs em geral que tenham imagens desses artistas para que os projetos se concretizem.

AM-Como você vê o atual mercado de documentários no Brasil? Existe um novo boom do gênero no país, paralelo ao sucesso alcançado pela literatura biográfica?
 
RS-Com a dificuldade que tem se encontrado para financiamento de projetos de ficção, que são bem mais caros, e com o digital e o barateamento dos meios de produção, o documentário ganhou um impulso muito grande. O importante agora é fazer com que toda esta produção chegue ao grande público, na salas de cinema e na TV aberta, e saia do pequeno circuito de festivais.
 
AM-Obrigado, Rafael, pela entrevista. Alguma colocação final?
 
RS-Quem puder contribuir com material como filmes, vídeos, áudios e fotos para os projetos, entre em contato com rafaelsaar@gmail.com
 
AM-Valeu!
 
Seguem os promos das duas produções:
http://www.youtube.com/watch?v=jupTPIMI63Y   Baby  
http://www.youtube.com/watch?v=bu7Fbo9EXAM Luhli e Lucina Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=zt4hGb8Rugs  Luhli e Lucina Parte 2

27 de agosto de 2010

O melhor de Chico nas bancas

Hoje nas bancas chegou o primeiro disquinho/livreto da 'Coleção Chico Buarque' (Abril Coleções). Ao que parece, a Abril engata a mesma marcha da Folha, que lançou num fôlego só, coleção sobre bossa nova e na sequência, série com compositores da velha guarda da MPB, que termina justamente nesta semana, após 25 volumes. O formato é o mesmo, mas a nova coleção, além de focar um artista só, recupera os discos oficiais de carreira, lançados originalmente em vinil. Como a inclusão de todos os discos da longa carreira de Chico ficaria inviável para um lançamento desses, optou-se por uma seleção com os 20 discos mais relevantes, onde o principal jurado, ao que parece, é o próprio Francisco Buarque. A começar por esse primeiro, Chico Buarque 1978, que já na apresentação aparece como o disco escolhido pelo próprio compositor para inaugurar a coleção. Eu estou com ele: esse sempre foi, ao lado do Construção (1971 - o 2º da coleção) meu 'disco do Chico de cabeçeira'. As suas faixas misturam trilha de teatro e cinema, músicas liberadas depois de anos no cabide da censura e inéditas imponentes. Nesta amálgama surgem vários Chicos: o político (Apesar de Você/ Cálice/Tanto Mar), o cronista (Feijoada Completa/ Trocando em Miúdos/Pivete), o desbravador da alma feminina ( O Meu Amor/ Pedaço de Mim) e até o narrador satírico/crítico de si mesmo ( Até o Fim). Um clássico disco pra iniciar uma coleção interessante. Pra encerrar eu iria comentar sobre uma grande lacuna, que a primeira vista eu não havia localizado: Chico Canta (1973) não está entre as capinhas da coleção e eu já ia reclamar, por ser esse um clássico iminente, talvez o mais político deles e o mais decapitado ( há músicas sem letra nenhuma e outras com o áudio avariado). Mas então botei a vista em Calabar, o Elogio de Traição (1973) e saquei tudo: a coleção não só incluiu as músicas de Chico Canta, como manteve o nome da peça que na época foi censurada e não pôde dar nome ao disco. Uma boa surpresa inicial - veremos se o repertório será idêntico. De resto, alguns discos paralelos à discografia oficial, como o italiano, c/ arranjos de Ennio Morricone ( Per Un Pugno di Samba - 1970) e o ao vivo, e fácil de encontrar até hoje ( Ao Vivo Paris - Le Zenith - 1986). De lacuna mesmo, só o Vol.4 (1970), um disco bacana ( que inclui o desabafo Agora Falando Sério), mas que talvez o compositor não goste tanto, por ter sido uma imposição da gravadora após o fracasso de vendas do primeiro disco em italiano. O resto, só alegria: estão incluídos os imbatíveis Construção, Meus Caros Amigos (1976), Vida (1980) e Chico Buarque (1984). Os iniciais, que firmaram Chico como grande cronista, do naipe de Noel Rosa e Sinhô: Chico Buarque 1 (1966), Vol.2 (1967) e Vol.3 (1968). E os da última lavra, que se não chegam aos pés dos antigos, também não comprometem a obra. Resumo da Ópera do Malandro: entre violências gratuitas dos jornais diários, fofocas inúteis das revistas de celebridades e pornografia e futebol saindo pelo ladrão, a coleção Chico Buarque é um alento aos olhos de quem merece um oásis logo de manhãzinha, depois do café com pão de sexta-feira.

20 de agosto de 2010

Além de Os Flinststones e Os Jetsons, havia também outra família típica de Hanna-Barbera:Os Muzzarelas

Quando é lançada a pergunta aos fãs e apreciadores de desenhos animados: "Quais foram as séries clássicas da Hanna-Barbera protagonizados por famílias?", a resposta quase sempre é imediata: "Flinststones e Jetsons". Estas foram realmente as mais famosas, mas houve também outra, caracterizada também em um tempo antigo, mas bem mais a ver com a nossa civilização moderna: Os Muzzarelas, família de "classe média" da Roma Antiga. Muitas gags são similares às duas famílias mais famosas: os eletrodomésticos e objetos "adaptados" da época, comportamentos modernos acoplados à rotina e todo o perfil psicológico inerente aos membros cosanguíneos. Aqui temos o chefe de família sempre às voltas com o aluguel, a esposa que resolve suas trapalhadas, a caçula espertinha e o irmão que não quer saber de trabalho. O animal de estimação também surpreende: se na pré-história há um jovem dinossauro (Dino) e no futuro um simpático cão falastrão (Astro), entre os membros da família romana reina o folgazão e sensível Brutus, um enorme leão que de feroz não tem nada. Segue o primeiro episódio da série, dividido em três:

19 de agosto de 2010

Baú do Seu João 4 - Cinelândia- setembro de 1954 ( da Série Revistas de cinema que sobreviveram à terrível batalha contra os cupins cinéfilos




Aconteceu no começo do mês. Meu pai me ligou com uma voz esquisita e eu logo saquei que havia algo terrível no ar. E havia mesmo: suas mais de duzentas revistas de cinema, que ficavam guardadas em caixas no velho guarda-roupa do "quartinho" ( cômodo separado da casa, no fundo do quintal) foram devoradas por uma impiedosa horda de cupins famintos. Gelei da cabeça aos pés e enquanto corria os 100 metros que separam nossas casas, já imaginava os buracos nos lindos olhos azuis de Marilyn, os rombos na barriga de Kim e as mordidas nas pernas da Audrey. Ao chegar lá, meus temores se materializaram: Cinemin, Cinelândia, Cine-Fan e Filmolândia, dezenas delas, em pandarecos, corcomidas pelos pequenos monstros cinéfilos que devoraram sem piedade, em pouco mais de um mês, capas com starlets e mocinhos, cenas de filmes antológicos e centenas de fotos do cast de ouro de Hollywood. Nem John Wayne deu jeito. Os maiores heróis do far-west e das milionárias sagas da época foram engolidos pelos miseráveis e minúsculos gulosos, sem mesmo terem tempo de sacar seus revólveres ou espadas. Moçoilas estonteantes não puderam nem retocar a maquiagem. Entre mortos e feridos, eu e Seu João ainda conseguimos retirar do desastre alguns exemplares intactos ou quase, cerca de vinte deles. Uma das edições resgatadas é esta acima, de 1954, com a capa da suprema loira ( que vendia mesmo sem ter matéria nenhuma sobre ela na edição) e que contém também a curiosa matéria que selecionei sobre a acidentada viagem de Ava Gardner ao Rio de Janeiro em setembro de 1954. Esta e outras que salvamos, serão postadas aos poucos no Almanaque do Seu João. Quanto aos cupins, da mesma forma que a Hollywood clássica, que sucumbiu aos seus próprios excessos, também eles tiveram uma morte agonizante e lenta, embebidos em veneno viscoso, após um mês de extravagante comilança entre os poderosos da indústria cinematográfica.

18 de agosto de 2010

Chorinho raro no Porta Curtas

De vez em quando dou uma bisbilhotada no ótimo Porta Curtas, portal patrocinado pela Petrobras com um acervo de mais de 700 curtas. Tem muitos filmes curiosos, novidades e raridades como este curta abaixo, "Chorinhos e Chorões", de 1974, dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, com a consultoria de Lucio Rangel, arquivos de Almirante e narração de Hugo Carvana (que não parece em nada com o Hugo Carvana interpretando...). Vale a pena rever mestres como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Cesar Faria ( pai de Paulinho da Viola) e Luperce Miranda.



13 de agosto de 2010

Sexta Feira, 13 de agosto, com Zé Ramalho e sua trupe cordelista

Sexta feira? Dia 13? E ainda por cima agosto? como homenagear este dia cabalístico? Pensei em Black Sabbath, mas ia ficar meio óbvio. Aí me lembrei da capa mais sexta-feira 13 da nossa música brasileira (acima). Zé Ramalho - A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979) - CBS - é certamente a capa mais performática já feita por estas plagas. Estão lá, além do anfitrião paraibano, Zé do Caixão (José Mojica Marins), que dispensa apresentações, seu assistente careca, a atriz Xuxa Lopes, com uma providencial maquiagem vampiresca, e por último a figura naturalmente performática do artista Hélio Oiticica, que morreria logo depois. Toda esta encenação cordelista foi produzida pelo cineasta Ivan Cardoso, famoso por seus filmes de "Terrir" ( terror escrachado setentista). Além da capa para deleite, fiquem com um post do Som Barato do ano passado, que dá todas as coordenadas da obra em textos de Marcelo Fróes, Sidney Rezende e do próprio Zé Ramalho, uma matéria sobre exposição fotográfica de Ivan Cardoso em 2009 ( que inclui uma bela cena com todos os integrantes da contra-capa do 'Peleja') e uma seleção das grande músicas deste disco. A ultraconhecida Admirável Gado Novo, aparece em clipe feito para o Fantástico - e o mais inacreditável é a cena em que aparece um militar batendo em um cidadão - esse clipe foi ao ar em pleno governo Geisel. Terror é pouco.

7 de agosto de 2010

Morris e o elefante

Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar do jingle " Ô, Mônica, abrace o elefante, e beije ele bastante..". Quem tem por volta dessa idade também se lembra da música "Feelings" de Morris Albert, um grande sucesso de 1975. A música de Maurício Alberto Kaisermann (o verdadeiro nome de Morris) vendeu horrores no mundo todo, teve uma versão vertida para o punk ( pelo Offspring) e em 1988 foi declarada pela Suprema Corte da Califórnia ( EUA) como plágio de "Pour Toi", uma música francesa de 1956. Eu nunca escutei a tal música francesa, mas o jingle do Extrato de Tomate Elefante da Cica sim, e dá para se perceber semelhanças na linha melódica (mas não suficientes para se caracterizar plágio) . Segundo o criador da turma da Mônica e xará do compositor, a música Feelings se "inspirou" no jingle criado alguns bons anos antes. Abaixo, o jingle todo (c/a declaração de Maurício de Sousa) e a inevitável Feelings...

6 de agosto de 2010

Quadrinhos? Literatura? Não, Mr.Crumb quer discos 78 rpm brasileiros dos anos 20/30

Quem foi na Flip para ouvir de Robert Crumb alguma teoria nova sobre a nona arte ou a linguagem dos quadrinhos na novo jornalismo, perdeu a viagem. Na verdade, Robert Crumb quiçá sabe porque realmente está no Brasil. É famosa a sua aversão a entrevistas, holofotes e qualquer assunto relativamente recente. "Sou um artista da idade média", diz de si mesmo. E dá-lhe mau humor e respostas evasivas. Embora seja o grande propagador do quadrinho underground que surgiu paralelamente ao acid rock em San Francisco nos anos 60 e tenha feito arte para capa de disco de rock (Janis Joplin & Big Brother & The Holding Co.), Crumb odeia qualquer música feita depois dos anos 50 e não conhece nada sobre os novos autores de HQ. Seu maior lance é blues e música de raiz. Daí o seu real interesse por discos de 78 das décadas de 20 e 30 onde quer que aterrisse. Procurem no baú de seus avós, pois ele paga bem!
Para quem quer conhecer mais sobre o Robert Crumb:
Matéria do UOL ( Maurício Stycer), que me deu a deixa:

Hoje é dia de relembrar três grandes da MPB: Baden Powell, Adoniran Barbosa e Moacir Santos




Os dois, Baden e Adoniran, nasceram no dia 06 de agosto. Moacir Santos faleceu há 4 anos atrás, em um dia 16/08. Um dia para relembrar três artistas excepcionais.

Baden Powell - Um dos mais criativos violonistas brasileiros, nasceu em 06/08/1937 e faleceu em 26/09/2000 - mês que vem já se vão 10 anos. Veja, ouça e leia mais no blog-irmão Consciarte, do meu amigo Rick Berlitz, especialista em bossa-nova:

Adoniran Barbosa - Este gênio paulista, nascido em 06/08/1910, completa hoje 100 anos e não poderia ficar de fora. Aqui mesmo no blog, já postei sobre Adoniran três vezes: relembrem:
No mês, mas principalmente entre hoje e domingo, há uma intensa programação em torno dos 100 anos do homem. Destaquei alguns bons programas para vcs (e um vídeo, pra não perder o costume):
*Vida Rouca: Wandi Doratiotto e Danilo Moraes- Usando cavaquinho, violão, guitarra e samplers, os músicos dão novos arranjos às canções de Adoniran.
Quando: Hoje (dia 06), às 21h
Onde: Auditório Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº - portão 2 do Parque do Ibirapuera) - Tel: (11) 5908-4299
Quanto: De R$ 15 a R$ 30
*Feira de Artes da praça Benedito Calixto celebra Adoniran Barbosa - A praça reúne amigos e parceiros musicais do cantor, além de exibir livros, discos e fotos de Adoniran. O jornalista e historiador Celso Campos Jr. participa do Autor na Praça, autografando a biografia no encontro que contará também com Sérgio Rubinato, sobrinho que entoará alguns dos clássicos do tio Adoniran. Outros shows ao vivo e uma mostra de filmes com a participação do sambista também fazem parte da celebração.
Quando: Sábado (07), a partir das 14h
Onde: Praça Benedito Calixto, 159 - Pinheiros
Quanto: Grátis
*Trovadores Urbanos - O grupo de serenatas tocará as principais músicas do sambista em três sextas-feiras do mês de agosto, na Janela do Sobrado, em Perdizes. Sucesso de público, o Seresta de Sexta vem chamando a atenção pelo seu formato inusitado: os músicos se apresentam na janela do sobrado, literalmente.
Quando: Dias 13/8, 20/8 e 27/8, das 20h às 22h
Onde: Rua Aimberê, 651, Perdizes
Quanto: Grátis
*100 anos de Adoniran com shows no CCSP - Diversos cantores, como Fabiana Cozza (08/08), Cauby Peixoto (15/08), Wanderléa (22/08) e Demônios da Garoa (29/8) se apresentam ao longo do mês de agosto para homenagear o centenário do compositor.
No sábado (07/8) 19h, tem Vânia Bastos e Maria Alcina. Domingo (08/8) às 18h , Osvaldinho da Cuíca, Fabiana Cozza e Milena.
Quando: dias 07, 08, 14, 15, 21, 22, 28 e 29/8. Sábados, às 19h, e domingos, às 18h
Onde: Centro Cultural São Paulo – Sala Adoniran Barbosa (Rua Vergueiro, 1000) 11 3397-4002 Quanto: Grátis
* Ouça/veja Adoniran interpretando algumas de suas criações geniais:
Moacir Santos - Nascido em 26/07/1926 em Pernambuco, maestro, compositor, arranjador, instrumentista, Moacir é um mito. Mais conhecido dos músicos do que propriamente do público, fez história no Brasil com seus arranjos para Ari Barroso e grandes nomes da bossa e antes de partir definitivamente para os States nos anos 60, deixou-nos um dos mais importantes discos da música brasileira, As Coisas (1965). Não contente, fez história por lá também, lançando discos primorosos (o primeiro foi indicado ao Grammy) e regendo como nunca. Antes de falecer, em 06/08/2006, teve bons lançamentos em CDs no Brasil e foi finalmente reconhecido em seu país, ganhando o Prêmio Tim (disco do ano) e o Prêmio Shell (conjunto da obra).
Em alguns momentos de sua biografia, Baden Powell se fez presente:Vinicius de Moraes se referiu a ele no famoso "Samba da bênção", composto em parceria com Baden Powell, nos versos: "...A bênção, Maestro Moacir Santos, que não és um só, mas tantos, tantos como o meu Brasil de todos os Santos...". Moacir participou também, de um disco de Baden Powell, como pianista e cantando em dueto com Alaíde Costa.
Músicas de Moacir de Santos:

A vida cinematográfica de Cartola

O saudoso Cartola, gênio intuitivo da nossa música, virou filme em 2006, e ainda por cima, filme bem falado por público e crítica. E não deveria ser diferente. A sua vida foi tão conturbada e movimentada, que daria pra se fazer uma penca de filmes bons, todos com doses cavalares de drama, comédia, aventura e sobremaneira, amor. Cartola nasceu Angenor é só foi descobrir que não era Agenor nos anos 60. Nasceu pobre no subúrbio, em 1908, e já na década seguinte a família se mudou para o morro, a sua amada Mangueira, que na época contava com pouco mais de 50 barracos. Com muito custo consegue terminar o primário, mas aos 15 anos, com a morte da mãe, se afasta ( ou é afastado) da família e cai na boêmia. Ainda na juventude se mostra bamba no samba e no copo e se faz respeitado pela malandragem local. Faz bicos em tipografias e na construção civil, e é na obra que conquista o apelido para a vida inteira: para evitar que o cimento e o cal caísse em seu cabelo, usava um chapéu alto, quase uma cartola. Antes dos 20, adoecido pelas noitadas no meretrício, é amparado pela vizinha Deolinda, casada e com uma filha, que acaba acolhendo-o em casa. O marido, Astolfo não agüenta a situação e sai de casa, fazendo de Cartola um chefe de família precoce. Em 1925 funda com Carlos Cachaça, amigo pra vida toda e parceiro mais constante, e outros sambistas como Massú e Zé Espinguela, o Bloco dos Arengueiros, que depois de se unir a outros blocos da comunidade, vira escola de samba em 1928, a segunda do Rio de Janeiro, com o pomposo nome G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira. Tanto o nome como as inusitadas cores verde e rosa foram escolha de Cartola. A partir daí, se tornou o principal compositor da escola, que até 1940 sagrou-se quatro vezes campeã do Carnaval do Rio. Além do seu prestígio dentro da verde e rosa, lançou seus sambas para fora do morro, primeiro em 1931, com a venda de Que Infeliz Sorte para Mario Reis, que fez grande sucesso nas rádios ao ser repassada para Francisco Alves, e em seguida, com outras criações, nas vozes de Araci de Almeida, Carmen Miranda, Mário Reis e Sílvio Caldas (o último,também parceiro). Com outro parceiro, Noel Rosa, compôs muitos sambas que se perderam nas noites de bebedeiras de ambos e nunca foram gravados – a exceção foi o samba ‘Qual foi o mal que te fiz’, gravado por Francisco Alves e creditado só ao mangueirense. Grande testemunha dessa parceria foi Deolinda, que deu muito banho no reincidente Noel, que vivia encharcando com seu companheiro e acabava pousando por ali. Noel logo faleceu, os sambas pingavam aqui e ali, mas o dinheiro era sempre curto e Cartola precisava de um emprego fixo. Na virada da década cria com Paulo da Portela um programa de rádio bem diferenciado, onde os ouvintes eram apresentados a sambas inéditos da dupla e podiam batizá-los. Também são dessa época as famosas gravações do maestro Leopoldo Stokowski no navio S.S.Uruguay, atracado no Rio em uma daquelas viagens da “boa vizinhança” EUA-Brasil. O maestro juntou a nata da música popular brasileira da época (Pixinguinha, Donga, João da Baiana, componentes da Mangueira, entre outros) e as execuções captadas na ocasião saíram posteriormente nos EUA em álbuns de 78 rpm. Algumas dessas faixas chegaram a sair no Brasil décadas depois em tiragem limitada através do Museu Villa-Lobos, mas logo voltaram a ser itens raríssimos como de início (para conhecer toda a saga, leiam as heróicas reportagens de Daniella Thompson feitas em 2005 http://daniellathompson.com/Texts/Stokowski/Cacando_Stokowski.htm .Cartola, claro, estava entre os escolhido e foi elogiado pessoalmente por Heitor Villa-Lobos, que ajudara o músico americano, mas dinheiro que é bom, never( na verdade, o compositor chegou a receber, um ano e meio depois, um pagamento que lhe rendeu três maços de cigarros vagabundos). Em 1941, logo depois de algumas apresentações com Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres em São Paulo, Cartola simplesmente desaparece de cena. Por 15 anos, escafedeu-se do mapa! Depoimentos posteriores do compositor dão algumas pistas desse período, mas propositadamente o mantém na obscuridade: ‘coisas pesadas’ e ‘me envolvi com uma mulher’ são os termos usados. O que se sabe é que até 1946, ficou à beira da morte por conta de uma meningite e enviuvou-se de Deolinda. O fato é que Cartola sumiu, e do esconderijo em que estava, ainda pôde ouvir ou saber da vitória de sua Mangueira em 1948, com um samba seu e de Carlos Cachaça, “Vale do São Francisco”. Muitos achavam que o sambista tinha batido as botas, até que em meados dos anos 50, foi ‘encontrado’ pelo cronista Stanislaw Ponte Preta, lavando carros em um condomínio de Ipanema. Logo em seguida, Sérgio levou-o de volta para a rádio e Jota Efegê conseguiu-lhe um emprego no Diário Carioca. Outros como o cartunista Lan e o crítico e especialista Lúcio Rangel também abriram-lhe portas. Cartola voltava à vida. No fim da década, já enamorado de Eusébia Silva do Nascimento, a Zica,consegue algumas pontas em filmes, como no famoso Orfeu Negro de 1959 (veja aqui a aparição do casal nos 5min55: http://www.youtube.com/watch?v=ZtDNtvAJOC0 ).
Nos anos 60, volta a falar com o pai, reaproxima-se das composições e abre a porta de sua casa para os diversos amigos sambistas e boêmios. Nestas reuniões, onde a boa comida de Zica e a roda de samba imperavam, brota-se a idéia de um restaurante, que viria a se tornar realidade em 1964, com a inauguração do Zicartola, em 1964, na Rua da Carioca. Logo a casa se torna famosa, tanto pelos quitutes de Zica, como pela reunião da melhor música feita no morro e na cidade. Sambistas veteranos encontravam-se ali com a nova geração: Nara Leão ( que gravaria Cartola no show Opinião), Zé Keti, presença constante no palco ( e que também participaria do Opinião), o jovem Paulinho da Viola ( um dos primeiros da geração 60 a gravar Cartola), Nélson Cavaquinho e Hermínio Bello de Carvalho, entre outros. A casa não durou muito, mas ficou pra sempre cravada na história do Rio do Janeiro. Cartola prosseguiu, ainda pobre, mas finalmente com casa própria e emprego fixo (como contínuo) e redescoberto pela nova geração. A sua maior frustração era não ter um disco próprio. Essa lacuna só foi preenchida em 1974, quando o produtor Pelão ( João Carlos Botezelli), que já havia feito milagre no ano anterior ao produzir o disco de Nelson Cavaquinho, conseguiu convencer Aloísio Falcão, da gravadora Marcus Pereira, a fazer um disco solo do veterano compositor. Depois de algumas resistências internas, o disco não só saiu, como foi aclamado pela crítica e virou clássico no ato. Dois anos depois, repetiu-se a dose e o sucesso foi ainda maior: duas das músicas mais conhecidas de Cartola entraram no vinil de 76, ‘As Rosas Não Falam’ e ‘O Mundo é um Moinho’. A fase era tão boa, que Cartola finalmente estreou seu primeiro show individual, um sucesso que ficou em cartaz por meses.
A repercussão dos trabalhos na Marcus Pereira fez com que o compositor assinasse contrato com a major RCA Victor, que providenciou a produção de Sergio Cabral para o próximo disco, outro primor. Aos 70 anos, engatilhou ainda um quarto disco solo, enquanto finalmente tinha um retorno financeiro e um conforto merecedor junto à Zica. Mas a saúde começava a cobrar os excessos de uma vida toda. Cartola ainda fez alguns shows e recebeu merecidas homenagens, até que em novembro de 1980, ao lado de sua amada Zica, despediu-se da vida e entrou para sempre na história da música brasileira. Um filme é pouco para Cartola. Que se façam outros. Que venham outros livros, que se divulgue o site ( abaixo). Cartola, sábio do povo, poeta intuitivo, melodista nato, merece.
*Site: http://www.cartola.org.br/
*Com o pai (trecho do filme Cartola-2006): http://www.youtube.com/watch?v=acLkgRX28D8
*Com Paulinho da Viola (trecho do filme Cartola): http://www.youtube.com/watch?v=26wDkehacic&feature=related

29 de julho de 2010

Uma Noite em 67

A Folhona finalmente soltou hoje uma matéria consistente sobre música/cinema ( pois vem apanhando do Estadão nesta área por meses). O tema é o aguardado filme "Uma Noite em 67" de Ricardo Calil e Renato Terra, que tenta resgatar o clima de um dos festivais mais disputados de todos, o III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, aquele que teve violão jogado na platéia e levou para a final Chico Buarque e MPB-4 (Roda-Viva), Caetano Veloso e Beat Boys(Alegria, Alegria), Edu Lobo e Marília Medalha ( Ponteio) e Gilberto Gil e Mutantes ( Domingo no Parque). Teve também Roberto Carlos surpreendendo ao levar para a final "Maria, Carnaval e Cinzas" do ex-lavrador Luis Carlos Paraná. Fora as vaias, muitas vaias. O documentário foca na noite da finalíssima, incluindo a apresentação ( completa, não só do arremesso) de Sérgio Ricardo ( já mostrada aqui), além de preciosas declarações dos envolvidos, que ao que parece, longe do calor dos acontecimentos, finalmente desanuviam historicamente detalhes cruciais do festival e consequências posteriores. Pena que muitas das declarações, como as de Maria Medalha e Arnaldo Baptista, só constarão no DVD. O filme já foi visto em abril no festival É Tudo Verdade e teve pré-estréia na segunda (26), mas a estréia comercial é amanhã (30), no Frei Caneca Unibanco Augusta (tels: 3288-6780 -salas 1 a 3 e 3287-5590 -salas 4 e 5), Espaço Unibanco Pompeia (Tel: 3673-3949), Frei Caneca Unibanco Arteplex (Tel: 3472-2365), Cine UOL Lumière (Tel: 3071-4418) e Cine Bombril (Tel: 3285-3696). Segue a matéria da Folha + uma esclarecedora entrevista com Sérgio Ricardo na Folha.com.

26 de julho de 2010

Anima Mundi

Aos 18 anos de idade, o festival internacional de animação Anima Mundi reflete bem a maturidade alcançada pelo setor no Brasil. E foi o próprio festival um dos vetores que alavancaram a animação a um nível nunca antes visto. Se lá no início, em 93, o festival idealizado pelos animadores Aída Queiroz, Cesar Coelho, Lea Zagury e Marcos Magalhães, tinha o objetivo de mostrar e divulgar os diversos trabalhos nacionais e internacionais, tanto os cults como os que não conseguiam botar a "cara" pra fora em circuito comercial, hoje ele pode ser considerado um verdadeiro catalisador do setor, por difundir, debater e atrair empresas e patrocínios. Estão aí os longas em produção, as parcerias com emissoras de tv, as produtoras independentes e os contatos externos que comprovam a excelente fase. A versão carioca do festival fechou agora e a partir de quarta, 28, começa a maratona paulistana, que segue até o dia 1º de agosto.
Neste ano, além de mestres e escolas de todas as partes do globo, haverá a participação ao vivo nos debates de Stephen Hillemburg, o criador do fenômeno Bob Esponja.
Mais informações - horários, locais de exibição e preços - no site oficial do evento.
http://www.animamundi.com.br/

24 de julho de 2010

A arte de Gonçalo Pavanello

Na semana, estava andando em Santo André com as crianças, quando resolvi mostrar-lhes o belo casarão antigo que comporta a Casa do Olhar, um belo espaço próximo à igreja do Carmo, totalmente dedicado às artes e tombado desde 1992. Além da bela arquitetura da casa, a criançada se deliciou com a exposição presente, do artista plástico e designer gráfico Gonçalo Pavanello. Sua arte chama a atenção pelas múltiplas cores, a visão surrealista e as colagens surpreendentes. Pena que estou postando tarde e a mostra só vai até hoje. Quem não conseguir ver ao vivo, pode visitar a página do artista e conhecer sua trajetória e obras, pelo menos até uma outra oportunidade de presenciar seu trabalho in loco. Vale a pena e alegra o espírito.

22 de julho de 2010

Chega ao fim a longa história impressa do Jornal do Brasil


O JB impresso faria 120 anos em 2011, mas conforme o dono, Nélson Tanure, o velho jornal não estará mais nas bancas para comemorar a data. Em setembro, segundo o mesmo Tanure, permanecerá em atividade somente a redação do JB online. Triste fim para um jornal que viu três séculos diferentes em sua existência e revolucionou a imprensa brasileira pelo menos uma vez, em sua reforma gráfica iniciada em 1956 e consolidada nos anos 60. De 1891, ano de fundação até meados dos anos 50, o Jornal do Brasil se transformara numa grande tribuna popular, com classificados enchendo as páginas e as notícias cotidianas tomando o lugar da cobertura política mais ostensiva. Se o jornal nascera totalmente intelectual, primeiro com Joaquim Nabuco e logo depois com Rui Barbosa, sofrendo reveses políticos, invasões e até fechamento temporário, ao entrar no século XX, assumiu uma postura popularesca - a até sensacionalista em algumas ocasiões- mas sem tomar partido em movimentos políticos, como o da Revolta da Chibata. Assim o jornal permaneceu por 50 anos: popular, carregado de classificados, voltado para a periferia e os esportes. No primeiro período, os irmãos proprietários Mendes passaram o controle para o Conde Pereira Cordeiro, que seguiu no leme até a sua morte no início dos anos 50. E foi a partir daí que o Jornal do Brasil começou de fato a marcar história na imprensa nacional. Primeiro, a viúva, Condessa Maurina, assumiu, trazendo para o comando o já veterano de jornal Aníbal Freire e o genro Manuel Francisco do Nascimento Brito. Em seguida, com a vinda do poeta Reynaldo Jardim, que já tinha programa na rádio JB, inicia-se o Suplemento Dominical, embrião do Caderno B, que iria misturar em suas páginas, poesia com ciência, artes plásticas, música e literatura, tudo com um grafismo concretista inédito. O CDJB, iniciado em 1956 foi o primeiro caderno da imprensa brasileira exclusivamente dedicado à variedades e cultura e tornou-se modelo para todos os segundos cadernos e cadernos culturais subsequentes. Foi em suas páginas que o movimento concretista cravou o seu manifesto inaugural. A transformação do caderno incentivou a Condessa a mexer graficamente em todo o jornal. Nesse período de transformação gráfica passaram pela chefia editorial Odylo Costa Filho ( 57 a 59), Janio de Freitas (59 a 61) e Alberto Dines, que foi quem consolidou a reforma editorial e permaneceu no jornal por 12 anos. Os nomes que passaram pelo Suplemento e Caderno B ( desde 09/1960) impressionam: Reynaldo Jardim, Mário Faustino, Ferreira Gullar, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Mário Pedrosa, Amílcar de Castro, Drummond, Clarisse Lispector, Fernando Sabino, Henfil, Ziraldo, Carlos Leonam. Sem falar nos colunistas de outros cadernos, como João Saldanha, Carlos Castelo Branco, Armando Nogueira e Alceu Amoroso Lima. Outro grande feito no período foi a implementação por Dines, do Departamento de Pesquisa ( depois CPDoc) que também serviria de modelo para outros bancos de dados que viriam. Bom... depois foi depois. Veio a ditadura, houve algumas represálias políticas e a censura de praxe. O último grande acontecimento em termos editoriais foi o surgimento em 1976 do Caderno Domingo, que fez até um certo estardalhaço. Quanto aos bastidores, os proprietários sempre bateram na tecla que durante a ditadura houve boicote econômico intenso ao jornal, que inclusive foi prejudicado em várias concessões para emissoras de TVs. Independente do que houve realmente, o jornal começou a ficar mal das pernas ainda nos anos 70 e nunca mais se estabilizou. A Condessa morreu nos anos 80, Nascimento Brito se afastou nos anos 90 e o jornal ficou nas mãos de Nelson Tanure a partir de 2001. Nos últimos tempos, diminuiu de tamanho, enxugou páginas, demitiu medalhões e até as tirinhas de quadrinhos sumiram. Triste fim para um jornal que deixou marcas.