26 de janeiro de 2022

O livro do Vitorio Cestaroli será lançado hoje!

 


Este é o livro do grande Vitorio Cestaroli, saído fresquinho da gráfica. O projeto, por vários motivos, levou alguns anos para ficar pronto e fazer parte da equipe que o ajudou na elaboração (fiz a revisão e o texto da quarta capa), ainda mais no meio dessa pandemia, é realmente um privilégio e um contentamento sem tamanho. Vitório abriu seu coração e mente para contar detalhes e momentos de sua longa carreira na publicidade e no meio editorial, em empresas como Editora Abril, Globo, Mesbla e OESP, e também passagens de sua vida em família, no futebol e na assistência social. Uma trajetória marcada pelo seu temperamento forte e muitas vezes a flor da pele, mas sempre leal, honesto e sincero. As fotos históricas, com grandes profissionais da publicidade, times em que jogou, viagens em família, aliadas às ilustrações fidedignas do ótimo Mario Mastrotti (mais uma vez, meu caminho cruza o do Mastrotti, com quem já fiz projetos inesquecíveis), algumas hilárias, dão o tempero certo para essa intensa autobiografia. A acuidade gráfica da Grife Publicações também deve ser mencionada. Mando mais uma vez os parabéns ao Vitorio e vou fazer o possível para estar presente hoje no seu lançamento às 19:30h no Clube São Caetano, local tradicional aqui da minha cidade, frequentado pelo autor há décadas. A capa aí em cima tem ilustração e lettering do Mastrotti e aqui embaixo segue a dedicatória que o Vitório fez pra mim.



20 de janeiro de 2022

Baú do Malu 84: Histórias Sinistras 21 (Seleções de Terror 88) - Editora Outubro


Eis mais um exemplar da minha coleção "HQs de terror", desta vez "Histórias Sinistras" nº 21 (Seleções de Terror 88) da Editora Outubro. A edição chama logo atenção pela capa "intensa" do mestre Nico Rosso, com uma fatídica mulher com decote aparente e cara maligna, de olho "grande" na gente, enquanto sua vítima agoniza lá atrás. Pelo anúncio interno de "Vigilante Rodoviário", este número da revista saiu entre o final de 1962 e o início de 1963. Nas histórias internas, já há a presença de uma nova geração de desenhistas na editora, como Wilson Fernandes (que trabalharia também para as editoras Pan Juvenil, Taika - nesta faria os heróis Escorpião e Bola de Fogo -, Edrel, Bloch, Press, entre outras) e Manoel Nunes (que também passaria pela Taika e outras editoras menores). Ironicamente, os três artistas que mais me chamaram atenção são para mim, três mistérios: Sumoko ( que usa um interessante jogo de sombra e luz) e Frederico Lopez de La Torre (que aparece em outras histórias da Outubro) - não encontrei referências sobre esses dois - e a primeira história, com um desenho bem original e fora dos padrões, que não tem assinatura (ATUALIZAÇÃO: o amigo Luigi Rocco, viu os créditos na lápide do primeiro quadro e me avisou: história de Ivan Saidenberg e desenhos de Julio Shimamoto. Valeu por essa!). Quem tiver dicas, por favor, me avise nos comentários. No expediente, ainda consta como diretor artístico o mestre Jayme Cortez, co-fundador da Outubro, que logo sairia da sociedade na editora e alçaria voos em outras paragens.










18 de janeiro de 2022

Canequinhas de louça: Bar do Elidio (década de 60) e Baile do Quentão (1912)

 Para apreciação dos leitores do blog, posto imagens (frente e verso) de duas canecas-miniaturas em louça do meu acervo, que já se tornaram peças históricas. A primeira é a caneca brinde do "Baile do Quentão", datada de 1912 (ou seja, com 110 anos). No verso consta o logotipo de um tal FCUST e estou tentando pesquisar na Biblioteca Nacional para ver we encontro alguma pista do que seja (se alguém souber, por favor, avise nos comentários). A outra canequinha é do tradicional Bar do Elidio, famoso pelo seu pioneiro balcão de acepipes, e que existe até hoje na Mooca (foi inaugurado em 1958), tocado pelas três filhas do fundador (Elidio Raimondi, falecido em 2012). Na peça não foi grafado o ano, mas o logo da Brahma sugere que seja dos anos 60.








14 de janeiro de 2022

Algumas clássicas revistas da Editora Pro-C

Em 1979, os amigos quadrinistas Francisco Marcatti e Ricardo Silva, que já faziam algumas edições marginais, resolveram fundar a Editora Pro-C, depois que Marcatti comprou a sua lendária primeira impressora offset de mesa (Rex-Rotary, dinamarquesa). Em agosto de 1980, foi impressa a Refugo nº2 e nos anos seguintes da década mais de três dezenas de revistas com tiragens de até 1000 exemplares. Abaixo, algumas dessas pioneiras revistas do meu acervo, uma pequena mostra histórica da extensa carreira do mais ativo artista dos quadrinhos independentes do Brasil: Francisco Marcatti. O artista continua em grande atividade, com nova impressora e um esquema recente onde imprime uma revista mensal com campanha fixa no Catarse. Um viva ao guerreiro Marcatti!

                             Refugo 2 (reimpressão de fevereiro de 1981)


                        
                                                  Lôdo 4 - novembro de 1983



                                      Cupim 1 - março de 1984



                                   Lôdo 6 - janeiro de 1985


5 de janeiro de 2022

"You Will Always be in Our Minds" - Átila Salvatore Panitz Púglia (1966-2022)

                                                          Festival do Idalina - 1984

Mais uma vez o chão a minha volta tremeu nessa pandemia: soube ontem à noite que o Átila, amigo de longa data (quase 40 anos de amizade), nos deixou antes do combinado. Quem o conheceu, sabe que ele era daqueles que de tão à flor da pele e com tanta ânsia e fome de tudo, podia tanto se transformar em uma onda cheia de paixão e ternura como um vulcão incontrolável. Foi assim a vida toda. Mas não vou entrar em seus conflitos e dificuldades aqui e sim lembrar de tantos, tantos momentos inesquecíveis que testemunhamos juntos, nessas quatro décadas de amizade: as composições que fizemos (eu letra, ele música) a partir do longínquo 1984 - que guardadas as devidas proporções, tinham uma sinergia na criação que lembrava Elton John-Bernie Taupin; o presunto parma que seus pais compravam e a gente devorava nas manhãs pós madrugadas insones em sua casa em Santo André; o festival de música ainda em 1984, para o qual formamos uma banda hippie de 7 integrantes, classificamos 6 músicas e por causa de problemas técnicos (e falta de ensaio), não levamos nenhuma para a final; o milagroso café da manhã que minha santa mãe levava pra gente no meu quarto (cujo ar era uma mistura de cigarro, álcool e chulé), nos domingos que acordávamos de ressaca às três da tarde; a viagem para Porto Alegre em 1986, quando descobri que lá não se atravessava serra para chegar na praia e que o Átila tinha duas avós incríveis: uma, amorosa e cheia de abraços, outra braba que só, mas muito divertida em sua rabugice; suas grandes interpretações de Elvis Presley, tanto no palco como em rodas de violão - aliás foi ele quem me mostrou tesouros escondidos da discografia do rei (e em troca eu lhe retribuí com os Stones); a viagem maluca que fizemos com o Zucco em que levamos pás e picaretas atrás de um veio de ouro que ele tinha visto em seu sonho (será que isso também foi sonho?); o apartamento de sua família na Ponta da Praia em Santos, que entrou para o folclore da turma do Ponto depois de tanta bagunça (e que por isso foi interditado posteriormente para qualquer integrante da turma); as noites sem fim do Chaplin Bar; os ensaios na casa dos Mazuras (regado à Beatles, Made in Brazil e Joelho de Porco) e na Tumba; os churras que duravam três dias na casa da Greice na Rua Alegre; as conversas filosóficas no terraço do Luiz; o show antológico em Santo André, que tinha na plateia minha tia e minha mãe, e foi tão empolgante que terminou com o Átila de shorts; a Kombosa que compramos em sociedade (por 500 pilas) e que depois de andar muito (chegou a ficar um tempo com a turma TNT, do mesmo bairro), acabou arriada no chão na Anhanguera, depois que lotamos a coitada em um trampo com material de gráfica; o show do Legião no Aramaçan; as voltas de moto pelo ABC; e tem mais, muito mais. Anteontem, como sempre fazíamos, trocamos mensagens via whats e ele, sempre empolgado (embora tenha reclamado de “probleminhas de saúde”), fez mais uma vez planos de tocarmos juntos nesse ano, e dessa vez com a presença do Gabriel e Letícia (meus filhos musicais). Lembrou também dos velhos tempos e parecia bem. Ontem, sua ex-esposa me avisa que ele faleceu no domingo à noite (ou seja, algumas horas depois da nossa conversa), possivelmente de um infarto. Era uma despedida.

Siga em paz, meu amigo. Agora, é descansar dessa sua última vida tão agitada e atribulada e ficar um pouco mais perto do seu pai, da minha mãe, do Délius e de tanta gente querida que certamente lhe acolherá onde você estiver.

                                                          No Chaplin - início dos 1990


   II Festival do Idalina - 1985 (banda Sétimo Cálice): Haroldo, Átila, Shazam, Ruy, Marcelo Mazuras,  Ricardo Mazuras


                              
                       Malu & Átila no I Festival do Idalina em São Caetano do Sul (Délius aparece atrás)

                                                   Átila, Nena e eu em frente a minha casa (1984) 


Átila e banda em frente ao lendário Chaplin Bar (Ricardão baterista aparece na esquerda e Satan, tecladista é o quarto da esquerda para a direita) - 1989


Átila em uma performance mais recente

31 de dezembro de 2021

"Mãos Dadas", de Drummond ( Um ótimo 2022!)

 O Almanaque fecha o ano com esse belo poema de Drummond, "Mãos Dadas". Mais do que nunca, não devemos largar as mãos dos nossos aliados! Um ótimo 2022 para todos os leitores do blog. Em 2022, tem mais, muito mais.



Grande Capa - "Tiradentes", de Gutemberg Monteiro (CETPA)

 


A série "Capa do Mês" passa a partir deste post a ter outro nome:"Grande Capa". Inauguro a nova fase com essa magnífica capa do mestre Gutemberg Monteiro (1916-2012 - também conhecido como Gut ou Goot). "Tiradentes" é uma das publicações da CETPA (Cooperativa Editora e de Trabalho de Porto Alegre -RS) que não constam nos perfis da editora sulista publicados por aí. A CETPA ousou lutar por um mercado de quadrinhos nacionais em um período complicado da História brasileira (entre a crise mundial do papel e o golpe militar de 1964), capitaneada pelo editor e desenhista José Geraldo, que conhecia o então governador do RS, Leonel Brizola., e arregimentou grandes desenhistas e autores para a empreitada:  Julio Shimamoto, Flavio Colin, Getúlio Delphin, João Mottini, Renato Canini, Bendatti, Flavio Teixeira, Luis Saidemberg (alguns não tiveram tempo de publicar nada e outros saíram com seus trabalhos em tiras nos jornais). A coisa começou a degringolar com a renúncia de Jânio Quadros e afundou com os militares assumindo o poder, mas mesmo assim a cooperativa conseguiu lançar pelo menos meia dúzia de títulos entre 1962 e 1963: Aba Larga (três edições); História do Cooperativismo; História do Rio Grande do Sul; Sepé; Zé Candango (só em tiras). Há algumas semanas consegui incluir esse "Tiradentes" no Guia dos Quadrinhos, importante site de indexação de títulos do quadrinho nacional. Até onde sei, é a primeira vez que a edição consta "oficialmente" entre as publicações da editora gaúcha. Nada mais justo que Gutemberg apareça como mais um membro atuante da CETPA (ele que fez não só a capa, mas a história em quadrinhos a cores e todo o texto histórico, ao lado da equipe da cooperativa), ele que é um dos mais importantes artistas nacionais, que fez história na Rio Gráfica (principalmente como capista, mas também como desenhista de Fantasma e outros personagens em uma segunda fase), trabalhou para a Ebal e Editora Outubro e brilhou nos EUA fazendo HQs de terror (para a Warren), HQs para a Charlton (linha romântica) e Harvey (Gasparzinho) e tiras para a dupla Tom & Jerry durante quase duas décadas. Gutemberg é um daqueles artistas geniais brasileiros que merecem uma biografia digna de sua vida/carreira. Demorou. (abaixo, o link do Guia dos Quadrinhos):

http://www.guiadosquadrinhos.com/capas/tiradentes/ti249100

A pedidos (Ranieri e outros amigos), posto uma página interna da publicação:


Atualização: diferente do que comentei na postagem, essa publicação já tinha sido publicada no blog do amigo Luigo Rocco (Tiras Memory) em 03/05/2019, que transcreveu na íntegra o capítulo sobre a CETPA do clássico livro "Quadrinhos para Quadrados", escrito pelo saudoso Diamantino da Silva (Bels, 1976), esse sim, o primeiro veículo a citar esse volume em quadrinhos sobre Tiradentes.

16 de dezembro de 2021

Vânia Bastos canta Taiguara (Tema de Eva)

Quando ouvi essa música na Rádio Brasil MPB, me emocionei pra valer. Eu sempre tive uma paixão incomensurável pela pungente interpretação de Vânia Bastos, e quando digo interpretação pungente estou me referindo a todas as suas interpretações, desde a época do Lira Paulistana na virada dos 1970 para os 1980. Tudo o que ela canta vira emoção, sentimento, profundidade. Tive a honra de vê-la uma vez (queria muito que fossem mais vezes) aqui perto de casa, nos anos 80, quando abriu uma casa de shows intimistas, Marina's, que trouxe muita gente boa pra tocar em São Caetano. Na mesma noite em que Vânia cantava com toda sua delicadeza e ternura, estava na plateia um fã seu de nome Belchior (que sentou em uma mesa com amigos, do lado da minha). Desde sempre comprei seus discos (que não foram tantos assim), muitos deles por selos ou gravadoras pequenas. Vânia Bastos é grande, tão grande, que nem sempre cabe nesse mundo urgente do sucesso a todo custo. Seu público fiel, que lota seus shows nos Sescs da vida, nas viradas culturais e festivais por aí comprovam que sucesso nas paradas é muito relativo. Viva Vânia Bastos, sempre Vânia Bastos.


Em tempo: esta gravação foi feita para o CD e DVD em homenagem à Taiguara, "A Voz da Mulher na Obra de Taiguara", de 2011. "Tema de Eva" foi gravada originalmente por Evinha, outra iluminada.


Raízes 64



Depois de um hiato na edição passada - não consegui mandar o artigo a tempo - eis que volto a colaborar com a querida revista Raízes, publicação semestral memorialista da minha cidade, editada e produzida pela Fundação Pró-Memória. Voltei ao formato crônica para contar algumas passagens tragicômicas e emocionantes como escoteiro do Grupo de Escoteiros João Ramalho (entre 1979 e 1981). É sempre um grande prazer colaborar com um veículo tão raro - são poucas, pouquíssimas cidades ou municípios no Brasil que mantém uma publicação periódica, de cunho histórico, e ainda por cima com tanta qualidade e tantos anos ininterruptos em atividade. Parabéns mais uma vez à editora Paula Fiorotti e sua ótima equipe de pesquisadores, articuladores, profissionais gráficos, historiadores e colaboradores. A edição vem forrada de boas matérias, a começar pela da capa, escrita e pesquisada com muito afinco pelo ótimo Caio Bruno, jornalista e supervisor do Museu Histórico Municipal, que trouxe à baila um perfil completo da Avenida Goiás, a mais famosa avenida de São Caetano do Sul. Outros artigos que eu devorei e gostei muito: o ensaio do escritor/poeta Carlos H.Chirotto ("Uma Tarde em São Caetano"), as curiosidades e surpresas por detrás dos nomes de ruas da cidade ("Um passeio pelas ruas de São Caetano do Sul" da pedagoga e membro da Comisão Editorial Cristina Ortega); o emocionante perfil da saudosa atleta Delenice Aparecida da Fonseca de Oliveira ("Uma Quadra Poliesportiva leva o nome de uma Vencedora: Delenice" do escritor e ex-atleta e professor Paulo Moriassu Hijo), a parte 2 da série sobre o clube de futebol Saad (pelo professor de educação física, fanzineiro e amigo Renato Donisete) e a surpreendente história da EMEF Dom Benedito - eu não sabia que essa tradicional escola tinha nascido no meu bairro! (do historiador Rodrigo Marzano Muraro). As fotos históricas espalhadas pela edição também surpreendem  sempre. Com mais de 30 anos de existência, a revista Raízes continua firme e forte em seu propósito de divulgar e manter viva a História do nosso município! Viva!

(A publicação é gratuita e pode ser retirada na própria Fundação Pró-Memória, na Avenida Dr. Augusto de Toledo, 255, Bairro Santa Paula - São Caetano do Sul).

30 de novembro de 2021

Foto em Destaque: Daniel Azulay em seu programa Turma do Lambe-Lambe


Essa foto incrível eu consegui em um leilão virtual. Na imagem, o querido e saudoso Daniel Azulay, de violão em punho, senta com sua equipe do programa Turma do Lambe-Lambe (seu grande trunfo na carreira) em cima de um mar de cartas (um termômetro da receptividade do programa junto ao público). No verso da foto PB 12x24, há o crédito do fotógrafo - Luiz Silva - mas o veículo referente está apagado no carimbo (pode ser Tribuna da Imprensa). Não tem data, mas pelo jeitão da cena e certa mocidade do apresentador, deve ser entre o final dos anos 70 e início dos 80. Daniel, que faleceu no ano passado aos 72 anos (tratava um câncer quando sucumbiu ao Covid) foi devidamente homenageado aqui no blog naquele triste momento e também quando foi premiado no HQMix de 2018, por sua  carreira em prol dos quadrinhos e do ensino artístico (links abaixo). No mesmo ano, publiquei com muito sucesso aqui, a íntegra do programa original do documentário "Os Doces Bárbaros" de 1976, dirigido por Tom Job Azulay, irmão de Daniel - com desenhos personalíssimos desse último (também entre os links abaixo). 

Saudade, Daniel Azulay!

http://almanaquedomalu.blogspot.com/2020/03/daniel-azulay-1947-2020.html

http://almanaquedomalu.blogspot.com/2018/09/foto-do-mes-com-daniel-azulay-no-30.html 

http://almanaquedomalu.blogspot.com/2018/11/bau-do-malu-76-programa-original.html 



GET BACK!

(Pôster - The Beatles - Get Back/ Divulgação Disney)

O assunto do momento e que certamente vai render pano pra manga no decorrer de dezembro é a estreia do documentário em três episódios “Beatles: Get Back”, de Peter Jackson (o aclamado diretor da trilogia Senhor dos Anéis), lançado pelo canal de streaming Disney+ nesse último final de semana de novembro e que deixou beatlemaníacos, curiosos e detratores da banda em polvorosa. Em um trabalho extenuante e hercúleo (com os nomes de Ringo, Paul, e as viúvas Yoko Ono e Olivia Harrison presentes na produção) que levou cerca de quatro anos para ser finalizado, Jackson filtrou com acuidade um material colossal a que teve acesso – 60 horas de imagens e mais de 150 horas de áudio até então inéditas, que sobraram do doc “Let it Be” (1970), de Michael Lindsey-Hogg – para chegar a quase oito horas de puro entretenimento/deleite/emoção/animosidades/conversas confessionais/desabafos/ gêneses de grandes composições/gracejos, com uma qualidade técnica incrível. É como se o telespectador puxasse uma cadeira e se sentasse ao lado do quarteto de Liverpool e sua equipe em torno, no centro de um gigantesco galpão (a acústica do local é duramente criticada pelo grupo), e não só se percebesse uma testemunha ocular desse último suspiro criador da banda, como começasse a duvidar de muita coisa que foi falada e gritada por aí sobre o fim de um dos maiores grupos musicais de todos os tempos. Yoko Ono, que era um dos principais focos negativos do documentário anterior, lançado em meio à fogueira das vaidades alimentada pelo fim definitivo do quarteto, não parece tão vilã assim no filme atual – o que se vê é mais um John aéreo e etéreo, sem muita bronca externada, levitando sem grandes aflições sobre as conversas mais pesadas dos outros e mais tocando do que externando suas opiniões. Paul aparece como aglutinador, mas ao mesmo desgastado e em certos momentos criticado por colocar suas ideias com muita incisão e ênfase ( George, o mais irritado com esse comportamento de chefe de Paul, lança frases irônicas ou reclamações sobre sua posição dentro da banda a todo tempo); Ringo, que sempre foi o mais divertido,  e estava às voltas com filmagens ao lado de Peter Sellers, aparece na sua, sem muitos apartes, enquanto George (talvez o maior destaque do documentário) surge a toda hora (assim como Paul), ora sarrista, ora espirituoso, ora com o saco cheio e ora deixando claro que suas ideias novas não se encaixavam com o momento da banda (sob os olhares de dois de seus novos amigos hare-krishnas, sentados no chão do estúdio improvisado). Entre conversas, insinuações, improvisos e closes inusitados, o que mais emociona (principalmente para fãs como eu) é a execução das músicas ainda cruas, sem as letras definitivas e com algumas notas ainda desencaixadas – ou seja, a essência da criação de verdadeiras obras primas, ali, brutas, na nossa cara.

Eu falei tudo isso, e só assisti a primeira parte (com pouco mais de duas horas). Ainda há muito o que se ver nesse impressionante documento – o último capítulo, por exemplo, é todo dedicado ao antológico e famoso show ao vivo “no telhado” em Londres (a última aparição ao vivo da banda, que não tocava fora dos estúdios desde 1966). Um colosso de filme que merece ser visto mesmo por quem não conhece direito o legado ou a história da banda (talvez ver esse documentário seja um bom começo para começar a conhecer – há inclusive uma pequena introdução sobre a trajetória da banda até ali). Afinal, em pleno 2021, a Beatlemania está definitivamente reinstalada!

Para quem não tem assinatura da Disney, não se aflija. Com a repercussão do filme, logo, logo serão disponibilizadas outras mídias – como DVD -, tenha a certeza disso.

28 de novembro de 2021

33º HQMix - A premiação na íntegra

Ontem rolou a entrega dos troféus HQMIX em cerimônia online que durou pouco mais de 1 hora e meia. Com a onipresente apresentação de Serginho Groisman e produção dos criadores Jal e Gual (+ equipe fiel), a 33ª edição do prêmio teve como destaque incontestável a presença maciça das mulheres em premiações importantes - Ana Luiza Koehler levou 4 troféus -, além dos concorrentes que somaram mais prêmios à sua coleção, como a editora Pipoca & Nanquim (pelo 4ºano), MSP/Panini (com três premiações) e o artista Shiko (3 também). Meus destaques adicionais: a justa premiação à dupla Marcelo Alencar e Fábio Figueiredo do Stúdio 313, para o álbum de luxo Disney "Mob Dick" , de Francesco Artibani e Paolo Mottura, publicado pela Panini ("Adaptação para os Quadrinhos") - a dupla vem fazendo um trabalho fantástico em lançamentos colossais da Disney para a Panini; a vitória de "Império dos Gibis" de Manoel de Souza e Mauricio Muniz - Editora Heróica, um livraço que concorreu com outras ótimas publicações (Memo, de Toni Rodrigues, também era uma de minhas favoritas,não só porque eu participo como revisor do projeto, mas porque sei de sua importância histórica); e "Menage"#1, de Laudo Ferreira, Marcatti e Germana Viana (com 2 premiações) - um trio de ouro que faz das tripas coração e deve/precisa/necessita seguir com outros projetos. Outra homenagem/premiação que me deixou emocionado foi a da Maria Aparecida Godoy, como Mestre do Quadrinho Nacional. Ela foi responsável por dezenas de histórias de terror nos anos 60,70 e 80, em parceria com quadrinistas ilustres do gênero - Colonnese, Zalla, Rosso, entre outros - tornando-se uma das pioneiras nessa atividade. Maria Aparecida e Eva Furnari - a querida autora de inúmeros livros infantis e ilustrações (inclusive para Recreio e Folhinha) e criadora da personagem Bruxinha, que deu forma ao troféu deste ano (Serginho, que também levou prêmio especial para casa, fez uma ótima entrevista com ela, abrindo os trabalhos da premiação) - são a mais perfeita tradução de um ano em que ELAS reinaram! Viva!

O momento triste da noite - e que pareceu durar uma eternidade - foi a galeria de ilustres profissionais e personalidades ligadas aos quadrinhos que nos deixaram entre 2020 e 2021. Por conta da pandemia ( e das consequências dela, para além do vírus), esse número duplicou ou triplicou e ver queridos como Ota, Antero Leivas, Robson Rocha, Biratan, Nani, Charlie Watts (baterista e quadrinista), Klebs Jr. e tantos outros, foi um murro no coração. Que todos eles, que de uma maneira ou outra, encantaram o mundo com sua magia artística e força criativa, estejam bem onde estiverem agora.

Para quem não conseguiu assistir a premiação ontem, segue aqui na íntegra, pelo canal do Sesc-SP no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=f8bP_cljt-E

22 de novembro de 2021

Livros Livres (Viva Marisa Déa)

No fim de semana, fui despreocupadamente em uma feirinha esotérica, acompanhado de minha amada Cris, aqui mesmo na minha cidade. Eu curto esse universo "São Thomé das Letras" e nesses eventos sempre tem alguma miniatura interessante ou impressos inusitados. De cara, conheci o quadrinista Alexandre Lince, um jovem artista que faz um trabalho interessante com aventuras em tiras de sua turminha "Blizys", além de projetos especiais, como a compilação que fez com histórias lendárias da cidade de Paranapiacaba. Vale a pena conhecer!

Um pouco mais adiante, me deparo com um pequeno móvel de duas prateleiras com um cartaz: "LIVROS LIVRES", com publicações doadas para o evento que podiam ser adquiridas gratuitamente, sem devolução. Claro que fui lá fuçar. Entre dicionários, folhetos bíblicos e alguns exemplares com temas de saúde, encontrei dois ótimos volumes: "Letras & Canções" de Ana Terra (1981) e "O Rapto da Mulher Barbada" (1978) de Cláudio Feldman. A primeira tem letras belíssimas que já viraram música com Danilo Caymmi, Joyce, Natan Marques, Angela Ro Ro, Milton Nascimento, Zé Renato, etc. - e esse primeiro livro de sua carreira traz quase todas elas, entre 1974 e 1980. Excelente! Já o livrinho do Claudio Feldman, autor são andreense de longa carreira, filho do grande cineasta Aron Feldman, é brilhante: com um humor telegráfico e direto, inclui centenas de mini textos transfigurando jornalismo em literatura e literatura das boas! A capa é de Moacir Torres, quadrinista de extensa carreira, que já morou em Santo André e atualmente está no interior de São Paulo - ele foi cocriador ao lado de Feldman do cultuado Jornal da Taturana, publicação independente que marcou a literatura na região. Feliz da vida, fui pra casa e quando bato o olho na dedicatória do livrinho do Feldman, "Para a Marisa, esta 'barbada', oferece Cláudio", me caiu a ficha. Minha saudosa amiga Marisa Déa, que desencarnou em junho deste ano (e que por conta da minha total paralisia na ocasião, acabei não homenageando no blog) - professora, tradutora, escritora, revisora e agitadora cultural - não era amiga da Ana Terra? E também, por conta de sua eterna cumplicidade com a literatura, depois de anos e anos dando aula de letras em Santo André, não conhecia também o Feldman? (quem do meio em Santo André, não conhece o Feldman?). Posso até estar viajando, mas é muita coincidência dois livros de dois amigos de Marisa na minha mão, vindos de uma cestinha de "livros livres" em nossa cidade natal! Na época em que ela foi subitamente para outro plano, estava combinando em mensagens de comprar seu último livro - a ideia era adiar até a pandemia melhorar, mas acabou não dando tempo de encontrá-la. Hoje, depois de cinco meses, por confluências do universo, acho que adquiri dois livros cativos do substancioso acervo de Marisa Déa, que assim como esses livros, deve estar LIVRE por aí, ensinando, escrevendo, corrigindo, declamando, e principalmente juntando gente em torno de arte/cultura/literatura, sua mais deliciosa armadilha. Viva Marisa!




12 de novembro de 2021

"Cantacrônica": todos os programas estarão no Spotify


O programa "Cantacrônica", anunciado no post anterior, já está de vento em popa dentro da programação da Rádio Brasil MPB. Entre o final de outubro e hoje, entraram no ar três programas e tanto eles como os posteriores, ficarão disponibilizados no Spotify. Quem perdeu ao vivo, pode escutar depois neste link abaixo. Deixem suas impressões, comentários ou sugestões de temas no chat ou nos comentários do site da rádio! 

https://www.radiobrasilmpb.com.br/news-6-cantacronica-ouca-os-programas-anteriores

"Cantacrônica" - às sextas-feiras, meio dia ou reprise nas segundas, 1 da matina.

https://www.radiobrasilmpb.com.br/


28 de outubro de 2021

"Cantacrônica" na Rádio Brasil MPB estreia amanhã (29-10)

No mês passado recebi um convite que me deixou muito contente: meu amigo Leo Engelman, que eu conheço desde os tempos em que dragões ainda sobrevoavam os céus, está envolvido no projeto de revitalização da Rádio Brasil MPB e como um dos diretores responsáveis, me convidou para participar da programação da web rádio com um "drops" de 10 minutos chamado "Cantacrônica". Nesse pequeno programa (que vai ao ar semanalmente às sextas entre 12h e 12:10 e segundas entre 1h e 1h10 da matina) vou contar um pouco sobre as histórias por trás das canções - curiosidades, encontros, bastidores das criações - e consequentemente, a escolha de raridades e clássicos que comporão essa "crônica musical". Curtam e depois comentem aqui ou lá na página da rádio. A apresentação do programa, assinada pelo Leo, está aqui: https://www.radiobrasilmpb.com.br/news-3-cantacronica-a-mpb-contada-em-historias 

Ah, se por acaso alguém perder o programa ao vivo, depois todos eles ficarão disponíveis no Spotify.

A programação da rádio, aqui: https://www.radiobrasilmpb.com.br/programacao



29 de setembro de 2021

Cantos Populares do Brasil , de Sylvio Romero - Com cara de lançamento inédito, a nova edição de um clássico de 140 anos


Vejam essa: anteontem, passando pelo Park Shopping São Caetano, aqui na minha cidade, me deparo com uma feirinha de livros com preços promocionais, bem em frente à Livraria da Vila (inaugurada há pouco, surgiu no vácuo da Saraiva, que saiu da cidade, e está em situação financeira delicada). Não perco essas coisas nem se o Papa estiver me esperando na praça de alimentação. Despreocupadamente, acabei comprando um livro por 15 pilas, "Cantos Populares do Brasil", de Sylvio Romero, primeiro por que gostei da capa (design de Ana Dobón), segundo porque o tema folclore brasileiro sempre me interessa e terceiro porque esse nome do autor não me era estranho. Chegando em casa, fui pesquisar, claro. No próprio prefácio do autor ("Advertência"), há a explicação que essa coleção "Cantos Populares do Brasil" já estava pronta há seis anos, que a coleta dos cantos foi feita em Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas e em escritos de outros autores e que a obra se divide em quatro partes: "Romances e Xácaras", "Reinados e Cheganças", "Versos Gerais e "Orações", além de um apêndice de Carlos Koseritz com uma silva de Quadrinhas soltas do Rio Grande do Sul. O final dessa abertura é revelador: "Resta-nos apenas agradecer a todos aqueles que nos ajudaram nesta ímproba tarefa e, especialmente, aos senhores Theophilo Braga e Carrilho Videira, que tão brilhantemente se ofereceram para salvar das traças esta coleção, que foi repelida pelos livreiros e editores brasileiros com o mesmo horror com que se foge da peste". Aí no final o autor assina e bota a data: Rio de Janeiro, novembro de 1882. Só então me dei conta que estava com um livro na mão que teve sua origem lá no final do século XIX! Depois, folheando um pouco mais o volume, topei com uma ótima introdução de Theóphilo Braga (já citado), "Sobre a Poesia Popular do Brasil" e em seguida, enfim, com a seleção dos cantos/modinhas. A editora Principis fez um trabalho bacana de design e edição, mas tirando a orelha do livro, com um pequeno perfil do autor e um texto mínimo na última capa, contando que é um "(...), volume organizado por Sílvio Romero, um pesquisador e estudioso da nossa história. É um livro raro para todos os que se interessam pelos estudos folclóricos do Brasil.", não há pistas de que essa obra foi escrita há 140 anos ou mais - talvez para chamar a atenção de um público mais jovem. No pequeno perfil, fica-se sabendo que Sílvio Romero nasceu em Sergipe em 1851, fez Direito em Recife, radicou-se no Rio de Janeiro, onde fez sucesso como crítico literário, publicou seus dois primeiros livros em 1878, lançou anos mais tarde os famosos "Cantos Populares do Brasil", lançados em Portugal, foi membro do Academia Brasileira de Letras e faleceu em 1914. Nessa mini-bio há a confirmação de que "Cantos Populares do Brasil" era uma coleção (talvez em quatro partes, como se vê no volume completo) e que desafortunadamente, foi rejeitada - pelo menos sua primeira edição - no Brasil. Pelo que pesquisei, algumas edições posteriores de "Cantos Populares do Brasil" vieram em tomos (como na coleção Folclore Brasileiro, organizada por Câmara Cascudo e ilustrada por Santa Rosa).

Saindo um pouco do livro e pesquisando mais sobre o autor por aí, descobri que Sylvio Romero, nascido Sylvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (quando eu me refiro ao autor, coloco seu nome com y, que é como está em sua certidão. Mudar o nome das pessoas por causa de novas normas, pra mim não cabe. A Editora Principis decidiu tirar o y) foi (além de crítico), ensaísta, folclorista, professor e historiador da língua portuguesa, mas antes de tudo um grande polemista (e daí provavelmente escorraçado das rodas literárias mais requisitadas na época), justamente por não medir palavras para criticar a postura de boa parte dos escritores de sua época no Brasil, que evitavam focar seus escritos na realidade social do país, preferindo uma visão mais surreal e fantasiosa. 

Por último, o nome. Encafifei que já conhecia o nome do autor e não é que eu estava certo? Aqui em São Caetano existe uma escola tradicional chamada EMEF Sylvio Romero e esse patrono que a batizou é o mesmo Sylvio Romero de "Cantos Populares" (no site da instituição há uma boa biografia dele, inclusive citando sua viagem à Portugal em 1883 para publicar o livro de folclore). No meu subconsciente esse nome ficou gravado desde os tempos de jogos interescolares dos anos 70, quando o meu time de escola jogou basquete e futebol com a turma do Sylvio Romero. A escola foi fundada em 1950.

Depois dessas pesquisas todas, faltava achar alguma capa do livro original e acabei achando em uma antiga página de leilão a segunda edição de 1897, pelo visto, finalmente publicada em solo brasileiro (vejam lá embaixo). A capa que chamou a minha atenção no shopping abre o post. E logo aqui embaixo tem um canto popular que achei bem bonito e transcrevo na íntegra. O organizador Sylvio Romero tomava o cuidado de colocar em cada canto ou modinha o seu local de origem e quem foi o pesquisador que o catalogou primeiro (no caso desta selecionada, foi o próprio). Palmas para ele. Depois deste post, vou procurar mais coisas sobre ele (aguardem).


Quando Eu Nessa Casa Entrei

(Sergipe) 


Quando eu nesta casa entrei

Logo por ti perguntei;

Não me deram novas tuas,

Com vergonha não chorei.


Cadê a luz de meus olhos?

Cadê esta casa cheia,

Que ainda hoje não o vi

Nem na janta, nem na ceia?


Cada vez que considero,

Chego na janela e digo:

Alto céu, bonita luz,

Quem me dera estar contigo!


Em tempo: hoje liguei para a secretaria da escola e conversei com uma simpática funcionária sobre eu ter encontrado este livrinho há poucos quilômetros dali e sugeri que ela avisasse alguém ou ela mesmo fosse até a feirinha do shopping e adquirisse o "novo" livro do patrono da instituição. Será que foram? Espero que sim. Frase dela: "Puxa, que bacana. Mas é Sílvio com y, né?". Com certeza, caríssima, se depender de mim, com y até a eternidade.




25 de setembro de 2021

Otacílio D'Assunção (1954-2021)


Que ano difícil! Fico sabendo hoje pela minha amiga Ada que o grande Otacílio D'Assunção, um dos maiores editores dos quadrinhos brasileiros, foi encontrado morto em seu apartamento no Rio. A sua passagem aos 67 anos de idade deixa um vácuo enorme no meio editorial, não só pela sua importante e antológica gestão como editor na Vecchi nos anos 70 e início dos 80, mas porque ele nunca deixou de trabalhar com os quadrinhos, seja em editoração, reportagem, pesquisa, tradução, projetos com personagens próprios, etc., já há algum tempo com sua própria empresa. Que ele foi "O Editor da MAD", ninguém tem dúvida: em 34 anos, na Vecchi, na Record, na Mythos e por pouco tempo na Panini (mais de 300 edições ao todo), ele  moldou a "cara" da publicação americana em sua versão nacional e fez a revista estourar em vendas. Graças a ele também, dezenas de desenhistas puderam ter a chance de publicar pela primeira vez em suas páginas (e ele mesmo, no sucesso "Relatório Ota"). Mas ser chamado só de "o editor de Mad" o irritava bastante, e ele tinha razão em se aborrecer, afinal, desde que começou como estagiário na Ebal, em 1970, sua participação nos bastidores sempre fez a diferença para muitos lançamentos em bancas, seja em mudanças editoriais ou estratégias sutis que surtiram um efeito muito significativo. Formado em jornalismo, fez história na Editora Vecchi, não só com MAD, mas com lançamentos surpreendentes que mexeram com o mercado, como revistas de terror que trouxeram de volta à ativa muitos desenhistas "clássicos" do terror nacional dos anos 60, além de - como sempre em seu trabalho - revelar novos valores das HQs nacionais. Na editora, trabalhou com todas as revistas em quadrinhos da casa, de 1974 a 1981, entre elas, Spektro, Histórias do Além, Sobrenatural, Pesadelo, Tex (não no início da publicação), Arquibaldo e sua Turma (com a turma do Archie), Pimentinha, Ken Parker, Eureka (uma das melhores revistas Mix de tiras lançadas no Brasil), Gasparzinho, Brasinha, Alakazam, Mistério- Jacques Douglas, Os Duendes Strunfs, Zagor, Histórias do Faroeste, Comanche, Chacal, Chet, Diabolik, Labareda, Gansola, Luísa, a Boa Bruxinha, Lelo, entre outras. Em seguida, na Record, continuou com o bom nível, sempre em paralelo à revista Mad, que continuava no topo e com mais artistas nacionais ainda. Na editora, lançou vários personagens da Bonelli, assumiu a revista do Recruta Zero (inclusive colaborando com enredos), reiniciou a coleção de Asterix, lançou no Brasil os irmãos Hernandez (Love & Rockets, Locas e Crônicas de Palomar) editou uma edição especial de Carlos Estêvão, uma maxi-série do personagem Judas e uma muito bem feita coleção de Crypta do Terror, com capa de Carlos Chagas e clássico material da EC Comics. Foi na Record que lançou o livro "O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro", depois de um intenso período de pesquisa sobre os "catecismos", revistinhas eróticas artesanais que eram uma febre nas décadas de 50/60. Na sequência de sua carreira, teve ótima passagem pelas editora Ediouro, com lançamentos de revistas mensais e uma retomada de histórias de terror nacionais (Coleção Assombração). Nos últimos tempos, foi responsável por edições de luxo de personagens clássicos na Ediouro/Pixel (Fantasma, Mandrake, Recruta Zero, Luluzinha, Popeye) e trabalhos pontuais de editoração, lettering e tradução para várias editoras. Em sua longa carreira, sempre manteve viva suas atividades como autor. Logo no início da Vecchi, lançou três números da revista Biruta pela Roval/Gorrión, com personagens próprios. Na própria Vecchi, foi coautor dos personagens Chet e Chacal e fez também roteiros de terror (anos depois, sairiam alguns em Calafrio da D-Art, além do especial "Hotel Nicanor", com desenhos de Flavio Colin, que sairá compilado em álbum ainda este ano). Entre os anos 70 e 90 participou de inúmeras revistas independentes ou com tiragens mínimas e em tiras, lançou Idi-Otas e Don Ináfio (no JB e também na MAD-Mythos). A Garota Bipolar surgiu na metade da década passada e depois de fazer sucesso na internet ( em sites como Colecionadores de HQs e página própria - em 2015/6 virou e-book e edição impressa), ganhou edição caprichada com campanha no Catarse em 2020 pela Tai. Vale mencionar também sua volta à EBAL entre 1983 e 1984, pouco mencionada, onde lançou publicações louváveis com Tarzan, Homem Borracha, relançou a Cinemin, e soltou a edição comemorativa de 50 anos do Suplemento Juvenil. A mesma Ebal que o colocou desenhado como anfitrião na edição especial "Chamada Geral - Epopeia", em 1970 - um garoto que já sabia muito de quadrinhos entre feras do traço. Suas contribuições como pesquisador também devem ser lembradas, seja em livros importantes (como a edição do centenário de O Tico-Tico, com vários autores) como em sua inesquecível coluna de quadrinhos no JB, uma das melhores sobre o tema. Eu sou muito privilegiado por ter conhecido o Ota nas redes e ter trocado muitas figurinhas sobre quadrinhos desde o começo deste século e ter a honra de participar do seu grupo fechado de pesquisas. Quem o conheceu ao vivo, guarda sua generosidade, seu desapego e sua fama de anfitrião no Rio - hospedou muitos artistas em passagem pela cidade, em seus vários endereços desde os anos 70 (no bairro Santa Teresa, no centro e na Tijuca) e compartilhou seus convescotes nas calçadas (e as preferidas mesas do Bibi). Quem viu sua vasta coleção (sempre empilhada em montanhas surrealistas) ficou de queixo caído, visto suas edições raríssimas em meio ao caos. Mesmo que, com seu jeito "a flor da pele", ele tenha brigado com meio mundo do mercado, a comoção pela sua morte foi unânime - entre grandes afetos e desafetos, Ota era sempre muito respeitado e admirado. Otacílio Costa D'Assunção Barros, que tentou até ser vereador em 1988, agora segue para outras missões quadrinísticas, e quando a gente menos esperar, vai virar documentário, livro e graphic-novel. O genioso e genial Ota merece.


2 de setembro de 2021

Pelão (1943-2021)


Fiquei sabendo da morte do Pelão (João Carlos Botezelli - ), aos 78 anos de idade, por uma postagem do Gonçalo Jr., que o entrevistou o ano passado para seu livro sobre o Jacob do Bandolim. Na entrevista, ele viu pessoalmente o estado delicado de saúde de Pelão, que estava praticamente em uma UTI dentro de sua casa (e mesmo assim, conversou com ele por horas, acendendo um cigarro atrás do outro). Em 2011, tive a honra de conhecê-lo, quando fui ao seu apartamento com um amigo, o jornalista Marcelo Mazuras, para uma entrevista sobre seus projetos dentro da gravadora Marcus Pereira. Foi uma conversa agradável, franca e muito produtiva, com muito café, fumaça (eu tinha parado de fumar, mas o Mazuras e ele fumavam um atrás do outro) e acessos de tosse da parte do Pelão que me deixaram preocupados com sua saúde na época. Infelizmente o projeto - que era sobre a gravadora Marcus Pereira - não vingou e essa gravação com o Pelão acabou extraviando. Ainda assim, consegui passar para o papel na época o comecinho dessa conversa. Transcrevo esse trecho na íntegra, abaixo, para a posteridade. Um salve ao Pelão, um dos mais autênticos produtores musicais que esse nosso Brasil viu, responsável por muita gente boa gravar o primeiro LP (Cartola, Adoniran entre eles), por gravações antológicas na Marcus Pereira e outras façanhas mais.

MMass- Você fez trabalhos essenciais na gravadora Marcus Pereira, até hoje lembrados, a começar pelo disco do Cartola.
Pelão - Eu trabalhei o tempo suficiente na Marcus Pereira, que deu pra fazer alguns trabalhos. Deixei muitos projetos lá, que infelizmente não souberam fazer.
MMass- Da série de discos regionais da gravadora, você chegou a colaborar em quase todos?
Pelão – Alguns. Mapeamento fiz só o Centro-Oeste e o Sudeste, que fui produzir junto com o Theo (Nota: Theo de Barros, compositor e violonista, coautor de Disparada junto com Geraldo Vandré). Foi o Theo que me indicou. A minha parte, eu escolhia, fazia, e não tinha “não”. Pegava o carro – um Fusquinha – e saía por aí, com o gravador...
MMass – Como era a gravação em si? Era in loco?
MMaz – ...gravava na raça mesmo? Chegava lá na casa do violeiro, “toca aí”, “vambora”?...
Pelão – O melhor gravador que tinha na época era um Werzinho, mono. O Wer era legal porque foi um gravador de guerra, né? Servia pra dar porrada nos outros...
MMass – rs...guerra mesmo!
MMaz – rs...por causa do peso dele?
Pelão – O peso, o corpo pra proteger ele...então era legal pra externa.
MMass –Na linha de frente de batalha era você...e quem mais na equipe nessa época do mapeamento?
Pelão – Externa era eu...
MMass – O Theo não ia junto?
Pelão – Não, ele só emprestava o Fusquinha.
MMaz – E você gravava no interior das casas dos caras?
Pelão – Podia ser na casa ou em campo aberto mesmo. Na casa dos caras a gente pendurava os cobertores na parede pra não “bater” o som. Pra tentar fazer uma coisa melhor. O importante era registrar aquilo.
MMaz – E quem achava esse pessoal, aquele que dava as coordenadas: “tem um fulano ali, na cidade tal...”.
Pelão – Teve alguns que fui eu que descobri, porque fui atrás de um e achei outro. Às vezes falavam que não tinha ninguém na região. Eu insistia que tinha. Procurava as pessoas que eu conhecia na cidade que eram importantes, que conheciam o folclore, as músicas regionais. E como eu tinha sido da TV Tupi, isso sempre ajudava. O sujeito já conhecia ou tinha ouvido falar...
MMass – E nessas gravações vieram artistas mais conhecidos como o Renato Teixeira, né?
Pelão – Isso já foi em estúdio. O Renato tem aquela pesquisa do Chico Noca. Ele ia muito pra Ubatuba e conhecia o Chico Noca. Foi um projeto fantástico que deu um pouco de trabalho. Eu fui lá, gravei, trouxe a gravação e o Theo acrescentou o instrumental em cima. Ficou lindo. Leve. Só o Theo sabe fazer isso – é brasileiro pra cacete. Sem roubar nada.
MMaz – Então você ia lá, com o gravador de guerra, capturava os instrumentos...geralmente era o cara sozinho tocando ou ele trazia o pessoal dele?
Pelão – Eles sempre traziam os agregados. Eu gravei uma catira, que captei em Nova Odessa, que o João Biarini, que era um grande pesquisador – companheiro de Partido Comunista – falou; ‘Vai embora que aqui não tem catira nenhuma”. E eu sabia que tinha, mas não ia brigar com o cara. “Tá legal, João, obrigado”. E eu descobri um grupo de catireiro fantástico! E eu gravei os caras na casa deles. Nessa ocasião eu não tinha auto falante, só fones de ouvido, e o grupo de catira tinha doze pessoas, mais o pessoal lá fora, e eu tinha que pegar o canto deles e o sapateado. No fim deu tudo direitinho. O duro é que no fim todo mundo o queria escutar uma vez ou duas. Eu falava: “Não pode. Se eu passar mais uma vez, apaga”. Aí explicava o contrato, eles assinavam pra receber...tudo direitinho e documentado.

30 de agosto de 2021

"Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias no Brasil" - segunda e definitiva edição"

Um dos (poucos) alentos nesse período de pandemia foi ter colaborado com  esse magistral projeto do Alexandre Morgado, que finalmente conseguiu finalizar a segunda edição - atualizada, com novo layout, novas informações e nova revisão - do essencial "Marvel Comics - A Trajetória da Casa das Ideias no Brasil" (Splash Books). Referência desde sempre para quem pretende saber qualquer detalhe sobre a história da editora americana no mercado de quadrinhos nacional. Valeu!





28 de agosto de 2021

Totó, o Detetive, por Guilherme Valpeteris (Suplemento Juvenil - 16-03-1940)


Pesquisando um assunto na hemeroteca da Biblioteca Nacional - pra variar - encontrei sem querer esta página incrível do artista Guilherme Valpeteris no Suplemento Juvenil de 16/03/1940. Pouco mencionado na bibliografia dos quadrinhos ou em páginas de arte, Guilherme é irmão de outro artista que precisa ser resgatado do limbo: Sigismundo Walpeteris, que desenhava para Gazetinha (e gostava de assinar com o W no nome). Guilherme só é mencionado rapidamente por Álvaro de Moya em seu "História das Histórias em Quadrinhos" e um pouco mais detalhado no "Mundo dos Quadrinhos", de Ionaldo Cavalcanti, de 1977, uma obra de muito fôlego, sem recursos ou equipe, que traz mais de 1800 verbetes entre personagens e títulos de histórias (tem erros, mas totalmente admissíveis diante do conjunto). Ionaldo destaca duas histórias, destacadas abaixo - uma do Totó - e não cita o Suplemento Juvenil, mas sua publicação irmã na mesma editora, Mirim (e Totó só em 1943). Algo para se pesquisar (coisa que o nobre colega Francisco Dourado, do Blog HQ Retrô já está fazendo, assim que viu essa página do Totó em SJ que eu postei no FB). Na minha pesquisa só descobri que ele foi um ativo capista de livros entre os anos 40 e 50, inclusive com algumas capas feitas para a famosa coleção Saraiva (onde se sobressaía Nico Rosso).