28 de setembro de 2009

Discos que nos Tocam 2 / Os Borges - 1980


Bati cabeça pra escolher meu disco inaugural nessa série. Primeiramente, ia escrever sobre o lendário Clube da Esquina, mas aí pensei no incandescente Terra, do Sá,Rodrix & Guarabyra, que logo substituí pelo apaixonante primeiro trabalho do Sérgio Sampaio, quando me dei conta que só tava pensando em MPB e cravei no viajante Hotel California do Eagles, logo descartado pelo incrível Rain Dogs do Tom Waits, que foi ultrapassado pela lembrança do pungente The Final Cut do Pink Floyd, que logo evaporou-se com a volta da MPB na cachola, quando surgiu Elomar e seu apoteótico "Das barrancas do Rio Gavião..", que ficou por pouco tempo, pois pintou bem forte na mente o ‘Os Borges’, este que posto aqui, antes que mude mais uma vez de idéia ( mas lembrando que todos os citados acima podem aparecer na sequência) .
Os Borges! pra que vocês entendam esta escolha, preciso voltar um pouco no tempo. Nos anos 80, conheci mais profundamente o cultuado Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, com participações decisivas de dezenas de músicos, entre mestres instrumentistas, letristas geniais e amigos, iniciantes ou não, todos brilhantes. O LP me pegou de jeito: arrepiou de primeira, dançou nos ouvidos e me fez levitar por semanas. É certamente um dos meus discos de cabeceira. Um pouco depois, li o livro "Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina" do letrista fundador Márcio Borges e pude conhecer nas entranhas a bela e heróica história dos mineiros, desde a infância do Bituca ( Milton para os íntimos) até a Belo Horizonte sessentista e a sequência no Rio,entre o sucesso e o terror da ditadura, com a amizade sempre permeando tudo.
Quem lê o livro não esquece a fantástica família Borges, do patriarca Salomão e da matriarca Dona Maricota, que colocaram no mundo 11 filhos, e entre eles, 7 que acabaram seguindo a música. E se surpreende com o clima de amizade, respeito e cultura que reinava naquele apertado apartamento no centro de Belo Horizonte, lugar adotado pelo querido Milton Nascimento, que iniciou amizade com Maílton, o mais velho dos irmãos, mas logo virou unha e carne do seu mano Márcio, pretendente a cineasta e futuro letrista do Clube. Foi no livro que eu descobri a existência desta reunião familiar em 1980, ocorrida logo depois do Clube da Esquina 2, e que resultou neste apaixonante disco. Fui atrás , revirei sebos, corri o centro de Sampa e descobri que o LP não era fácil de achar. Os anos passaram, continuei ouvindo Lô, Milton, Beto, Tavinho Moura, Toninho Horta, Tavito, Flavio Venturini, mas os Borges reunidos, neca. Até que em 2003, a EMI comemorou seu centenário, lançando várias obras importantes de seu acervo, há muito fora de catálogo, com supervisão de Charles Gavin. Os Borges, vejam só, foram incluídos na terceira série do revival. Comprei, levei pra casa, escutei-o e nunca mais deixei de escutá-lo. Além do histórico narrado, a obra me tocou profundamente pelo seu conteúdo, pois ali estava a essência do apartamento de Belo Horizonte, as influências musicais da família e o clima de irmandade musical indo além da irmandade real.
Lô Borges, o único dos irmãos que alcançou maior projeção, catapultada por sua participação precoce como principal parceiro na acachapante obra chamada Clube da Esquina, de 72, além de gravações anteriores do próprio Milton em 70, acabara de lançar Via Láctea, o melhor LP de uma carreira pautada por poucos lançamentos discográficos e muitos shows. E neste disco em família, talvez intencionalmente, sua participação é discreta, mais focada na guitarra do que na composição ( na capa também é o que menos aparece), mas nem por isso menos importante. Márcio, primeiro parceiro,incentivador e figura chave de tudo o que aconteceu com Milton no início de carreira, também se consagrou como um dos letristas do Clube da Esquina, embora esse papel o tenha mantido naturalmente longe dos holofotes. Com o irmão Lô, seu principal parceiro, compôs dezenas de canções, muitas de sucesso. Mas tem também grandes parcerias com 14-Bis e Tavinho Moura, entre outros.
Marílton foi o primeiro dos irmãos a tocar profissionalmente e quem deu a faísca para a grande tração futura. Ele tocou antes com Bituca (e Wagner Tiso) e foi quem o levou para o apartamento dos Borges, onde foi imediatamente incorporado à família. O resto é história.
Telo, Yé, Solange e Nico invariavelmente compõem e participam de discos do Lô e de outros projetos. Telo inclusive fez para Lô dois de seus maiores sucessos: Ritata e Vento de Maio (c/ Márcio Borges). Dona Maricota, que cantou na mocidade e Seu Salomão, homem de imprensa, soltam a voz em alguns momentos dessa reunião.
Além do instrumental impecável, com predominância das cordas, o disco surpreende pela leveza, mesmo em temas mais constritos. É uma grande festa, com convidados saindo pelo ladrão, como bem convém ao espírito dos Borges. E cada faixa, de alguma maneira, surpreende. Em família, que abre os trabalhos, é leve e solta, feita especialmente para todos cantarem. Na cuíca, Marçal e nas tablas, prato, ganzá, panela e talkingdrum, o onipresente Naná Vasconcelos. A próxima, Carona, tem uma bela orquestração de Nivaldo Ornellas e cai como uma luva para o vocal do convidado especialíssimo Gonzaguinha. Voa Bicho, mais uma obra-prima de Telo e Marcio, com orquestração precisa de Guilherme Arantes e vocal inspirado de Solange, foi reaproveitada recentemente em uma das novelas globais, com vocais de Milton Nascimento. Em Um sonho na Correnteza, quase todos os irmãos participam ( a exceção de Marilton): Yé e Marcio compuseram, Yé e Solange cantam, o violão é do Yé, bandolim do Telo, sintetizador de Márcio (?!), guitarras com o Lô e percussão de Yé, Márcio, Nico e o baterista Rubinho (que toca em quase todas as faixas). Ainda, de Telo e Márcio again, ponto altíssimo do disco, tem a marcante presença de Guilherme Arantes na orquestração, regência, piano elétrico e vocal, dando a impressão de que é mais uma de suas composições. O Sapo, adaptada do folclore pelo Seu Salomão, é o momento mais descontraído dos disco, com todos cantando, inclusive pai e mãe, além do baixo de Ezequiel e piano do Marilton. A próxima, Eu sou como você é, é uma típica canção de Lô,com participação de Marilton, Paulinho Carvalho no baixo e Mario Castelo na bateria e injeta Liverpool e jazz na algazarra mineira. Outro Cais, tem a participação de uma pessoa totalmente enraizada no Clube da Esquina, pois além de ser a primeira cantora brasileira a gravar Milton Nascimento, continuou gravando músicas dele durante toda a carreira e um ano antes arrebentou em sua performance emocionada no Clube da Esquina 2: Elis Regina, musa eterna de Milton e de todo o Clube. Aqui, participa de terna canção, referência a “Cais”, obra-prima de Milton e Ronaldo Bastos, registrada por ela oito anos antes em seu LP. Nesse ponto o disco toca o céu. No tom de sempre, é de Chico Lessa, chapa dos meninos, e Márcio Borges, e lembra muito as músicas solares de Lô e Márcio, inclusive com as cutucadas estratégicas de Márcio na letra que sempre dá um jeito de botar política nas entrelinhas. O grande guitarrista Fredera, ex-Som Imaginário e membro ativo do Clube e da banda de Gonzaguinha, participa dessa ”faixa”. Qualquer caminho é uma raridade: traz Márcio Borges compondo sozinho e se não bastasse, dividindo o vocal principal com o mano Marilton! Daniel, a próxima, é a música mais doce de todas e o vocal inspirador de Solange é a grande responsável por esse clima de infância restaurada. Os convivas ajudam :Toninho Horta e Frederiko. E pra fechar com chave de ouro, o mentor Milton Nascimento, ex-hóspede e amigo eterno da family, canta com o caçula Nico, Pros meninos, composição pungente do próprio Nico e Duca Leal ( a produtora, co-autora também de Outro Cais e se não me engano, mulher de Márcio na época). Por tudo o que eu sei dessa história de amizade e música, o finale com Bituca é realmente de chorar. É por essa e todas as outras que esse disco, me toca. E eu sempre tocarei-o.
As canções do disco :
1- Em Familia (Yê Borges / Márcio Borges )2- Carona (Marilton Borges) 3- Voa Bicho (Telo Borges / Márcio Borges) 4- Um Sonho Na Correnteza (Yê Borges / Márcio Borges) 5- Ainda (Telo Borges / Márcio Borges) 6- O Sapo - Adaptação Salomão Borges 7- Eu Sou Como Você é (Lô Borges) 8- Outro Cais (Marilton Borges / Duca Leal) 9- No Tom De Sempre (Chico Lessa / Márcio Borges) 10- Qualquer Caminho (Márcio Borges) 11- Daniel (Nico Borges / Solange Borges) 12- Pros Meninos (Nico Borges / Duca Leal)

3 comentários:

  1. Faltou falar da "turma" que pegou o livro "Histórias" e passou de mão e mão, para uma sucessão de lembranças, discussões e elucubrações sobre o Clube.

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  2. Claro que vou botar isso, Rica, mas vai virar um post a parte, pois tem tambem a visita do Zé até a casa dos Borges na Rua do Clube da Esquina ( e o encontro dele com o proprio Seu Salomão). é só eu achar o livro por aqui ( será que emprestei de novo?)

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  3. Malu, que coisa.

    Fiz uma busca no Google pra achar capa e contracapa do LP. Apareceu, na primeira página, o Almanaque do Malu.

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