9 de junho de 2010

As canções para o Rei...rejeitadas

Eu estou sempre lendo sobre música brasileira e atento aos mínimos detalhes da história. Concomitantemente, compro biografia pra burro. O livro de cabeceira do momento é "A canção do Mago - a trajetória musical de Paulo Coelho"(Editora Futuro- 2007). Muitos torcem o nariz pro tal "mago", que vende milhares de livros pelo mundo afora - eu pessoalmente, não tenho nada contra e acho que há muita inveja solta por aí ( é aquela velha mania de achar que pro cara fazer sucesso, tem que ser erudito, acadêmico ou algo similar - esquecem que existe também faro, caradura, coragem, bagagem, etc) - mas esse livro, da jovem e promissora jornalista carioca Hérica Marmo, traz subsídios importantes para meus escaninhos: os meandros políticos e culturais dos loucos e conturbados anos 70, detalhes curiosos e até então escondidos da vida de Raul Seixas, a indústria fonográfica de então ( e um destaque especial para o produtor Roberto Menescal, cuja participação neste processo precisa ser reavaliada), as várias composições espalhadas de Paulo Coelho ( que inclui Rita Lee & Tutti Frutti, Fábio Jr ainda saindo do ovo e muitos outros), entre outras tantas cositas más. O assunto deste post também surgiu de sua leitura: quantos e quantos compositores do período, consagrados e novatos, mandaram composições para apreciação do rei do disco Roberto Carlos; e quantos, muitos, tiveram suas canções rejeitadas. Esse tema já estava no meu córtex há um tempo, e quando li neste livro, que Paulo Coelho e Raul Seixas tinham mandado a música Bruxa Amarela ("Acabei de dar um check-up geral na situação/ o que me levou a reler Alice no País das Maravilhas"...) para Roberto Carlos, o assunto saiu da escotilha. Neste caso específico, os dois autores esqueceram completamente a índole de bom moço do rei ou mandaram a música pra incomodar mesmo, pois em sua letra há citações de cerveja, morte, e logicamente, da bruxa do título - temas óbvios para a lixeira imediata de Roberto. Mas em muitos outros casos, o cantor-compositor simplesmente rejeitou uma canção enviada, muitas vezes até encomendada, por detalhes pouco explicados, ou por encafifar com alguma palavra ( ele costuma pedir mudanças nas letras de seus compositores mais habituais). Abaixo, alguns casos sobre canções "reijeitadas", ou seja, rejeitadas pelo rei:
1) A citada "Bruxa Amarela", de Paulo Coelho e Raul Seixas, acabou sendo gravada pela Rita Lee no LP Entradas & Bandeiras, de 1976. A mesma música foi reescrita por Raul com o nome "Check-Up" e por descrever sem firulas, pílulas e remédios ( Discomel, Kilindrox, Ploct-Plux 25...), ficou censurada por anos.
2) Uma das mais famosas músicas rejeitadas pelo Rei foi "Se eu Quiser Falar com Deus", de Gilberto Gil. O excelente livro Todas as Letras, organizado por Carlos Rennó (Cia das Letras - 1996), traz detalhes do próprio Gilberto Gil e eu transcrevo aqui: " O Roberto me pediu uma canção; do que eu vou falar? Ele é tão religioso - e se eu quiser falar de falar com Deus? Com esses pensamentos e inquirições feitas durante uma sesta, dei início a uma exaustiva enumeração: 'Se eu quiser falar com Deus, tenho que isso, que aquilo, que aquilo outro'. E saí. À noite voltei e organizei as frases em três estrofes. O que chegou a mim como tendo sido a reação dele, Roberto Carlos, foi que ele disse que aquela não era a idéia de Deus que ele tem. 'O Deus desconhecido'. Ali, a configuração não é a de um Deus nítido, com um perfil claro, definido. A canção (mais filosofal, nesse sentido, do que religiosa) não é necessariamente sobre um Deus, mas sobre a realidade última; o vazio de Deus: o vazio-Deus."
"Se eu Quiser Falar com Deus" foi gravada pelo próprio Gilberto Gil e por Elis Regina, ambos em 1980.
3) No mesmo livro, cita-se também a canção anterior de Gil "Nova Era", de 1976, como outra mandada para o cantor e não gravada. Sem mais detalhes...
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O livro sobre Roberto Carlos escrito por Paulo Cesar de Araújo (Editora Planeta - 2006), trouxe vários casos em seu capítulo sobre compositores. Uma pena que até hoje, esta preciosa obra, detalhada ao extremo, estaja embargada. Seguem alguns:
4)Sérgio Sampaio, nascido em Cachoeiro de Itapemirim, sempre tentou compor para o conterrâneo famoso, e acabou fazendo uma música, "Meu Pobre Blues" (1974), gravada por ele mesmo, falando sobre o assunto: "Eu queria tanto ouvi-lo cantar/ eu não preciso de sucesso/ eu só queria ouvi-lo cantar o meu pobre blues e nada mais".
5)Tom Jobim e Roberto se encontraram em 1973, em Nova York e o segundo revelou sua vontade em gravar "Ana Luísa". Tom mandou a letra inteira para o seu hotel mas por alguma cisma o cantor nunca gravou-a, assim como não gravou "Ângela", música de Tom oferecida a ele em outra oportunidade.
6)Zé Ramalho compôs em 1980 uma canção para Mister Braga gravar. "Eternas Ondas" falava em apocalipse e trazia metáforas políticas ("Quanto tempo temos antes de voltarem/Aquelas ondas.."). Um dos executivos da CBS na época achou que tinha tudo a ver com o rei e convidou o compositor paraibano para acompanhá-lo em um passeio no iate "Lady Laura". Lá, Ramalho cantou várias canções de seu repertório, menos a inédita, e no final, entregou uma fita cassete com a gravação de "Eternas Ondas" para apreciação do ídolo. Alguns dias depois, o empresário confirmou que Roberto gostara muito da música, mas achou a letra carregada e forte demais, com suas referências ao final dos tempos. Fagner acabou gravando a canção em 1981, com enorme sucesso nacional.
7)Caetano Veloso teve três composições suas gravadas por Roberto Carlos ( Como Dois e Dois, Muito Romântico e Força Estranha). A única que o intérprete não aceitou gravar foi "Ela e Eu", canção romântica gravada por sua irmã, Maria Bethânia, em 1979.
8)Chico Buarque também mandou música inédita para o rei. Depois que Roberto pediu-lhe uma música em 1978 e Chico lhe enviou a já famosa Cálice ( recusada por Roberto, obviamente), foi a vez de Chico lhe mandar em 1984, "Tantas Palavras" ( dele e Dominguinhos), não gravada e sem explicação direta por parte de Roberto.
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Passar pelo crivo de Roberto Carlos é realmente tarefa árdua, mas muitos conseguiram furar o bloqueio e outros até tiveram a honra de serem contactados pelo próprio. Centenas deles, anônimos ou consagrados, tentam até hoje, e dependendo do astral, da confluência cósmica dos planetas, da sorte, do momento, dos trâmites burocráticos, do tempo e disposição de Roberto Carlos, podem, pelo menos quatro ou cinco deles por ano, ao lado da dupla Erasmo-Roberto e outros habituais compositores, ver uma música inédita de sua lavra, em um disco novo do Rei.

3 comentários:

  1. Roberto carlos só grava músicas com apelo comercial.Seu negócio nunca foi arte e sim money.Santa ingenuidade.Ele só gravou músicas do intelectual baiano porque Caetano fez as músicas pensando nas limitações musicais e literárias do ex rei da jovem guarda.

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  2. Ingenuidade dos compositores, eu me refiro.

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  3. Ingenuidade mesmo. Imagina RC gravando Bruxa Amarela!!

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