2 de abril de 2013

Oscar Niemeyer, atemporal


(Nota do Malu): o genial Oscar Niemeyer deixou o nosso planetinha no final de 2012. Eu estava de férias e ao invés de um post sobre o homem, preferi ler tudo o que eu tinha sobre ele aqui em casa e mandar pro alto uma boa vibração para o velho arquiteto. Uma troca justa, visto as centenas de obras iluminadas e positivas que deixou sobre nossa superfície. Ontem, ao limpar minha caixa do gmail ( que não visitava a um bom tempo) me deparei com uma jóia escrita pelo meu amigo Rogério Engelmann, chapa e colaborador desse blog. E fiquei ainda mais entusiasmado quando vi que em sua mensagem ele ofereceu-me o texto para publicação no Almanaque. Uma honra e um grande acerto: esse texto não poderia ficar inédito, trancado em uma gaveta qualquer. E quanto a dúvida se ficou muito tarde para a sua publicação, bobagem. O blog não se prende a novidades e o velho Oscar sempre foi atemporal, seja em suas obras, seja em sua existência. Segue lá:

                                     

                                       Oscar Niemeyer (1907-2012)

por Rogério Engelmann**
Acredito que tudo sobre ele já foi dito: que é bom, que é ruim, que é repetitivo, e que nunca se repete, que teve sorte, que já passou o tempo dele, que não passou, que é metido e esnobe, e que não é, que estava no lugar certo na hora certa, e muitas outras mais. Inclusive por ele mesmo, que ouvi várias vezes dizer que "a arquitetura não importa, importa mesmo é a vida, os amigos e as pessoas".
Suas obras, inconfundíveis, são admiradas ou odiadas, mas como ele mesmo dizia, "você pode não gostar, mas não pode falar que já viu algo igual..." Fazia questão da imaginação, da invenção, da surpresa. Seus projetos sempre foram acompanhados de textos explicativos, e ele ensinava: "se o texto não ficou claro, não explica bem, é porque o projeto ainda não está bom, tem problema, precisa mexer, melhorar..."
Seu discurso sempre foi tranquilo, essencial, simples (não simplório, simples mesmo), em suas palestras contava quase sempre as mesmas histórias, das mesmas obras. Talvez porque gostasse mais daquelas, pois projetos e obras não faltavam, foram cerca de 600 (isso mesmo: seiscentas)  obras construídas e projetos, no Brasil e pelo mundo, em cerca de 75 anos de carreira, o que corresponde, em média a uma a cada 45 dias. E cada uma delas poderia ser o projeto da vida de muito arquiteto por aí, inclusive (muitos) daqueles que falam mal.
Das palestras que assisti, me marcou uma em particular, nos tempos de faculdade (1993, ele tinha então 85 anos) em que pude conversar com ele muito rapidamente. Findado a apresentação, a mesa do velho mestre foi inesperadamente cercada pelos estudantes. A organização tentou dispersar-nos, porém, rompendo o protocolo, a pedido de Niemeyer formou-se uma fila imensa de estudantes (e depois até professores...), e ele atendeu a todos um a um, por cerca de duas horas. Aperto de mão, autógrafo, uma foto, um sorriso: "Vocês me pegaram de surpresa!..."
A crítica? Ora, a crítica. O que posso dizer ou acrescentar? Me atrevo a dizer que Oscar Niemeyer foi nosso maior artista pop. Através da arquitetura, criou verdadeiros ícones cujo significado expresso hoje é: Brasil. As colunas do Palácio da Alvorada em Brasília, por exemplo. Ou o "s" do Edifício Copan em São Paulo. Ou ainda a "taça" do Museu de Niterói. Mais recentemente o "olho" do Museu de Curitiba. E tantos outros.
Os alemães tem uma palavra, "zeitgeist", para designar o dia. Significa literalmente "espírito do dia", é a essência, o humor, ou, como dizemos por aqui, o astral do dia. E Oscar, antenado como todos os gênios, soube captar esses momentos, o "espírito do dia" e plasmá-lo em edifícios. Traduziu o nosso espírito do dia "zeitgeist" em traços imortais. Seja no conjunto da Pampulha em Belo Horizonte; seja em Brasília, a obra-prima; seja no Copan, obra que renegou; no Parque do Ibirapuera que adoramos, no Detran, ou no Memorial da América Latina, nos museus de Niterói, de Curitiba, na nova sede do governo de Minas Gerais e tantos outros, nos legou o desenho de um Brasil moderno, futurista, dos cinquenta anos em cinco, Brasil da Bossa Nova, o Brasil vanguarda. Detentor da carteira profissional no. A.000.001 do recém criado CAU - Conselho de Arquitetura e Urbanismo, Doutor Honoris Causa várias e várias vezes aqui e mundo afora, o cidadão do mundo Oscar Niemeyer, como disse Ricardo Ohtake, será muito provavelmente um dos poucos, senão o único brasileiro do século XX que será lembrado no século XXX.
E nos deixa, após quase 105 anos de vida, 80 dos quais dedicados a arquitetura, num vazio enorme.
Vazio que tanto prezava nos edifícios. Vazios incríveis como o da marquise do Parque do Ibirapuera, do Pavilhão da Bienal, da Oca, do foyer do teatro do Memorial da América Latina e sua escada fantástica.
Vazio como o da Catedral de Brasília, na minha opinião o mais impactante.


Oscar, o então comunista que se dizia ateu, conquistou seu lugar no céu com a Catedral de Brasília. O prédio é em si uma prece. Desconcertante pela simplicidade de sua composição, é formado por uma única peça de concreto, repetida dezesseis vezes, armadas e fundidas no chão e içadas uma a uma numa planta circular. Os vãos entre as peças são vedados por vidros. o acesso é subterrâneo, através de rampa e túnel longos, que dá acesso direto à nave, grande espaço, único. Vazio. Que pelos vitrais é inundado de luz por todos os lados.



Luz do céu.
O céu imenso de Brasília.

** Rogério Engelmann é arquiteto

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