5 de abril de 2017

Os minicontos de Noll na Ilustrada

Noll na época em que colaborava para a Folha ( crédito: divulgação/Folha de S.Paulo)
O recém-falecido escritor João Gilberto Noll foi colaborador/colunista da Folha de S.Paulo entre 1998 e 2001. A sua coluna "Relâmpagos" saía toda segunda e quinta-feira no caderno Ilustrada e serve como parâmetro para se conhecer um pouco da sua linguagem cortante, ligeira e em alguns momentos enternecedora.
Alguns deles estão abaixo, numa seleção que a própria Folha fez em matéria de seu falecimento;


"Coágulos"
(publicado em 15 de outubro de 1998)
Foi durante o temporal que o vulto me apareceu. Parei o carro e você surgiu atrás das afoitas hastes do pára-brisa. seu rosto saído do nada e aquele ruído nervoso no pára-brisa. Você entrou. e o beijo se embebendo do surto celeste. Aí sacudi a cabeça para me libertar de uma espécie de desfalecimento súbito em todo o carro. A atmosfera emudeceras: relâmpagos sem trovão, pára-brisa sem ruído, palavras virando coágulos. Tudo se desesperou e eu gritei e você gritou e veio a madrugada e o agudo sabor de mais um beijo. Depois foi só estio. E nós, pele e osso, jejuando na bruta calmaria.

"O foco"
(publicado em 2 de novembro de 2000)
Ele toca, com cuidado. A mão sente, devagar. Primeiro uma saliência calosa, como se fosse a beira de uma cratera. Os dedos descem, parece que em direção à arena. Pedras pontiagudas, logo um terreno arenoso. Os dedos avançam. Procuram um centro, a esfera nuclear. A mão suada pára, descansa um pouco, sente a textura ainda íngreme, sempre pedregosa. Coberta de sinais prematuros para um sujeito ainda forte como ele, recebe em cheio a grosseira luz daquela hora. Um homem sem chapéu, camisa, todo áspero de vento. Seus dedos, ciscando ali, na terra, sonham às vezes com outra consistência...O que ele faz em pleno meio-dia, cego de sol? Prepara as primeiras filmagens. Para amanhã cedo. Por isso seu tato se aproxima do centro da cratera. De onde tudo deverá partir.
*
Férias
(publicado em 7 de dezembro de 2000)
Ele estaria à espera, sempre. Por que ela depositava tanta confiança? Realmente, era uma exagerada reserva de fé em apenas uma criatura, ele, de compleição tão sucinta, quase um fiapo, como qualquer outra pessoa, aliás, se comparada àquela paisagem ali, por onde corria um rio prateado -esse, sim, todo à espera da lua para se azular. Ela mordeu o lábio, como poderia ter sorrido, se recolhido em concha, tudo porque repentinamente estranhara a imagem do homem que deveria àquela hora estar à sua espera, ensaboado dentro da banheira, bem como gostava. E, de preferência, de chapéu de feltro, como um extinto personagem de filme francês, a ler quem sabe um livro ilustrado sobre John Ford. Ela entrou no rio. Ouviu um assobio. "Tem gente perto", murmurou. E mergulhou para se refazer.
*
"A dívida"
(publicado em 29 de outubro de 2001)
Descarregando a ansiedade, eu passava a lâmina sem praticamente mais nada para escanhoar. Foi quando atrás de mim surgiu uma imagem de cujos traços vinha uma lembrança que eu chamaria de saudade, se conseguisse pegar um ponto, um detalhe que me parecia arisco de antemão. Me virei. Era quem pensava, sim. Eu precisava decidir se acolheria... Mas tinha o detalhe ainda velado, e só com ele eu poderia dizer "venha" ou "volte ao inferno!". A figura abriu a mão mostrando a cicatriz. Não, não era uma das chagas de Cristo, mas o tal detalhe, em ferida. A mão agora retirava a espuma em volta da minha boca, até deixá-la livre. E sem escolha. Encostei os lábios nos lábios ainda sensíveis de sua palma. Covarde, eu mendigava o perdão... 

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