9 de abril de 2010

Quem é quem: as novas compositoras brasileiras

Faz tempo que eu tento escrever sobre essa nova safra de compositoras brasileiras, mas confesso que são tantas e tão talentosas e surpreendentes, que eu acabava me embaralhando nos diversos estilos/propostas e fugia do assunto. De uns dias pra cá, resolvi escutar pra valer todas aquelas que me surpreenderam ou me instigaram - venho anotando seus nomes de 2007 (ano 1 do boom) pra cá em minha vagabunda caderneta de dicas, divagações e idéias culturais e almanaqueiras. São muitas, mas para que o post não saia caótico, resolvi inseri-las em ordem alfabética (decrescente), cada uma com seu respectivo resumo de apresentação e áudio/links. Tirei de propósito as mais óbvias e consolidadas, como Pitty, Rita Ribeiro (que despontou recentemente para o Brasil todo, mas está na música desde os anos 80), Luiza Possi e Vanessa da Mata. Com estilos, aspirações, timbres e posturas diversas, pra todos os gostos e ouvidos, as novas compositoras brasileiras estão aí, críveis, incríveis e criadoras.


Vanessa Bumagny – A cantora e atriz paulistana sempre buscou o erudito e o popular, mas a paixão pelo Nordeste bateu mais forte, principalmente o brilho do Lua, eterno Luis Gonzaga. Conheceu Chico César e logo era backing na sua banda. Foi inevitavelmente apresentada a Zeca Baleiro e logo estava dividindo palco com ele. Se o primeiro disco, de 2003, já trazia a constatação de sua bela voz de timbres certos e afinação absurda, foi no segundo, de 2007, que a sua porção compositora aflorou de vez, em parcerias com Chico César e Zeca Baleiro, que também produziu o trabalho.

http://www.youtube.com/watch?v=77BowrfTDao
http://www.youtube.com/watch?v=IpqOEKhdrcg&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=5BJ3xdYF8Nk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=fQ8NhMOdr-o&feature=related
http://www.vanessabumagny.com.br/

Tulipa Ruiz – A santista Tulipa é filha do baixista Luiz Chagas, que tocou com Itamar Assumpção e meio mundo do Lira Paulistana. Também é poetisa, ilustradora e adora pesquisar sons da natureza e cantigas de ninar. Assim como Erika Machado, Tulipa me emociona demais. Talvez porque resgate aquela melodia perdida no tempo ou porque me lembre, sem deixar de ser moderna, a época de ouro da nossa música, quando derramar-se era libertar-se e o contido era contido. Troca muitas figurinhas com as contemporâneas de composições, tendo participado de trabalhos de Tiê, DonaZica (do seu irmão Gustavo Ruiz e Iara Rennó) e dividido palco em várias ocasiões com as “comadres” e com o pai. Seu esperado primeiro disco está prestes a eclodir.
http://www.youtube.com/watch?v=UEasgxSEjww
http://www.youtube.com/watch?v=qLmbsblD-G8&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=_X3CzInIt9A&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=SAMB1_31jg0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=L_wBQf-xq-Y&feature=related
http://tuliparuiz.blogspot.com/

Tiê – Folk até a alma, a paulistana Tiê foi estudar canto em Nova York em meados dos 2000, e foi descoberta por Toquinho, que a convidou para ingressar em sua banda e rodou mundo, adquirindo experiências que aula nenhuma consegue traduzir. Em busca de um trabalho autoral, a cantora lançou em seguida o prestigiado projeto Cabaret, com Dudu Tsuda, que rendeu um EP. Em 2008, com dez composições próprias em punho, lançou Sweet Jardim, um CD surpreendente, gravado ao vivo em estúdio. Se não bastassem as letras inspiradas e o tom autobiográfico, ainda há a participação especialíssima de mestre Toquinho. Tiê é o que há.
http://www.youtube.com/watch?v=FhYlBummLMg
http://www.youtube.com/watch?v=81ivNDLzR1Q&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=biqw7jTvSf4&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=vLO5o9asfkc&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=6z0jPG5RuE0&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=Kb7E_BffNoQ&feature=channel
http://sweetjardim.wordpress.com/

#Tamy – A capixaba Tamy não tem uma década de carreira, mas já fez muita coisa: dividiu palco com os Paralamas e com Leila Pinheiro, abriu show de João Bosco e também de Cláudio Zoli e lançou ótimos discos ( em 2004 e 2010), enquanto compunha com Donatinho, DJ Marcelinho da Lua e o consagrado Roberto Menescal. Pois é, o veterano compositor da ala marítima da Bossa, se derreteu pela cantora e não só compartilhou o palco em show intimista, como virou parceiro de composição. Tamy pode ser ouvida todo dia da semana, fazendo trilha para a personagem de Giovanna Antonelli em Viver a Vida.
http://www.youtube.com/watch?v=OBOcEnFwnhA
http://www.youtube.com/watch?v=eq4VzqhTv14&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=2sZh0X6KC8c&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=9XtkDgFgnjU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=bhK8vWUoobA&feature=related

# Nô Stopa – ginasta até os 16, ouvia música desde que nasceu. Não é para menos: sua mãe sempre tocou piano clássico e seu pai, Zé Geraldo, despontou como compositor de folk brasileiro há mais de trinta anos. Mas como profissão, a música foi chegando mais devagar: timidamente aos 20 anos, depois com duas composições em trabalho conjunto do pai e do compadre Renato Teixeira. Com dois discos lançados, Nô desenvolve trabalhos paralelos com teatro de bonecos, circo e música infantil e segue espontânea e autêntica como compositora,em total sintonia com seu pai.
http://www.youtube.com/watch?v=cVuAKMIBRh4
http://www.youtube.com/watch?v=umTexBewy-c&feature=fvw
http://www.youtube.com/watch?v=5Fqf1OvxKGk
http://www.youtube.com/watch?v=2Fxx56Yh9Qw&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=B51zjtXuE_w&feature=related
http://www.myspace.com/nostopa

#Natália Mallo – Nascida na Argentina e residente do Brasil ( mais precisamente Vila Madalena)desde 1995, a cantora, compositora, baixista, violonista, produtora e cozinheira Natalia, é vocalista do histriônico grupo Trash Pour 4, que regrava clássicos do pop com nova roupagem. Seu primeiro solo, Qualquer Lugar, foi lançado em 2008 e transpira frescor, seja no violão direto, seja no timbre suave que contempla as nove faixas, tudo sem perder a verve irônica.
http://www.youtube.com/watch?v=apG9Osz8oUk
http://www.youtube.com/watch?v=9v0eYlRbAA0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=ncyboHfha9U&feature=related
http://www.myspace.com/nataliamallo

# Mariana Aydar –Chegando nos 30, filha de músico, estudante da Berklee em Boston ( já lemos isso), Mariana Aydar, filha do ex-Premê Mario Manga e da produtora Bia Aydar, começou a carreira a partir de 2000, quando estudou cello,violão e canto, conheceu Seu Jorge na França em 2004, onde foi convidada a abrir seus shows pela Europa e investiu pra valer no seu primeiro disco, Kavita 1, em 2005. Mas a maior exposição aconteceu em 2007 e 2008, quando ganhou prêmios e encaixou músicas em trilhas globais. O segundo disco, Peixes, Pássaros e Pessoas, do ano passado, não deixa dúvidas: Mariana Aydar veio para ficar.
http://www.youtube.com/watch?v=x04QvWnfGes
http://www.youtube.com/watch?v=XI0UxY7Zh1w&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=9OrqQuiW7gg
http://www.youtube.com/watch?v=eI417D0Zg_A&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=hLOKvIHTOPg&feature=related
http://www.myspace.com/marianaaydar

#Maria Gadu - Maria Gadú foi um dos maiores nomes de 2009 e deve bisar em 2010. Com apenas 22 anos de idade, a paulistana radicada no Rio de Janeiro canta, toca violão e compõe com propriedade de veterana. Depois de chamar a atenção de grandes nomes entre 2008 e 2009, teve a sua versão de Ne Me Quitte Pas incluída na minissérie Maísa na Globo, pelas mãos do próprio Jayme Monjardim, que também providenciou-lhe uma ponta como atriz. Logo veio o primeiro CD e Shimbalaiê, primeira canção sua, composta aos 10 anos, entrou na trilha de Viver a Vida. O violão solto e a voz potente lembram muito Cássia Eller. Maria Gadu é certamente a bola da vez.
http://www.youtube.com/watch?v=Ph-pLZEVWGs
http://www.youtube.com/watch?v=_m8ioncgLns&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=PKnX6RwA0LM&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=0xeLSZ0xEEY&feature=related
http://www.mariagadu.com.br/

# Luiza Maita – Luisa Maita, também paulistana, filha do cantor Amado Maita (1948-2005), e da produtora Myriam Taubkin ,iniciou sua carreira como vocalista e compositora no grupo Urbanda, que chegou a lançar um CD em 2003. Três anos depois, a cantora Virginia Rosa gravou duas composições de sua autoria, seguida por Mariana Aydar, qua gravou outra.Seu disco solo, ensaiando para nascer desde 2007, finalmente veio à tona em 2010. Intitulado Lero-Lero, traz um samba jazz massudo e entrosado. Seu pai, muito famoso no exterior e amigo de bambas do samba fusion, onde estiver, deve ter ficado orgulhoso.
http://www.youtube.com/watch?v=TVxfFi94KFc
http://www.youtube.com/watch?v=I5E9doyHXWs&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=nvXN3QtM8h8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=ksOswZLwUJE&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=A4CF9TqAXBE&feature=related
http://www.myspace.com/luisamaita

# Karina Buhr- É um dos nomes mais comentados no ano. Atriz, desenhista, compositora, percussionista, Karina é um vulcão criativo. No final dos anos 90, depois de ter passado por vários grupos de Recife, fundou o Comadre Fulozinha, que fez história ao resgatar as cantigas de roda com a vivacidade do rock. Até que Zé Celso convidou Karina para se juntar à trupe do Oficina há cinco anos atrás, o que repercutiu até a medula em seu trabalho solo, “Eu menti pra Você”, lançado no mês passado. Sua performance transgressora nos shows confirma: Karina Buhr solo é uma nova cantora, e está deixando até macaco velho de queixo caído.
http://www.youtube.com/watch?v=4NoXdQHHvL0
http://www.youtube.com/watch?v=wg1do0eACYU&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=QLD4fsRYgDI&feature=channel
http://www.youtube.com/watch?v=guDE7x-JLy8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=IsKP48Rhssg&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=KQFDMrnSPis&feature=related
http://www.karinabuhr.com.br/

#Juliana Kehl – Artista plástica formada, a paulistana Juliana sempre amou a música, mas foi só quando musicou poemas da sua irmã, a psicanalista Maria Rita Kehl, que deu-se o start definitivo para a mudança de prumo. O primeiro disco ( adivinhe? independente!) veio neste ano, com dez músicas de sua autoria entre 12. Alguns momentos vocais, embora mais contidos, lembram Elis, outros Leila Pinheiro. As letras/poemas são embaladas em uma sonoridade envolvente, mistura de samba e eletrônica, que a cantora-compositora chama de “música contemporânea brasileira”. Juliana Kehl surge com força.
http://www.youtube.com/watch?v=XH9tdNTvdJY
http://www.youtube.com/watch?v=sqYe_xvBdmU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=PYQtiWCg654&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=N5DYKNw-_8Y&feature=related
http://www.myspace.com/julianakehl

# Iara Rennó – Filha de Alzira Espíndola e do letrista Carlos Rennó, a paulistana Iara Rennó é cantora, compositora, instrumentista, arranjadora e produtora. Junto com Andréia Dias e Anelis Assumpção, formou o DonaZica em 2001, banda com dois discos lançados e muito bem avaliada pela crítica e público. Iara, além de ter músicas gravadas por Ney Matogrosso e Elza Soares, protagonizou em 2008 um dos mais interessantes projetos de resgate da nossa cultura, o CD "Macunaó.peraí.matupi ou Macunaíma Ópera Tupi", idealizado na faculdade de letras da USP. O disco contou com a participação de 60 músicos, entre eles, Moreno Veloso, Tom Zé, Siba e Arrigo Barnabé, para musicar a obra-prima de Mario de Andrade. Corajosa,a Iara.

#Giana Viscardi – poetisa, arquiteta formada na USP, cursou em 1999 a famosa Berklee College of Music, em Boston, onde formou banda de jazz e participou do não menos famoso Montreux Jazz Festival, na Suíça, em 2001. Querem mais? Lançou discos em 2001 e 2006 no exterior, correu mundo com seu parceiro musical, o violonista Michael Ruzitschka e nos últimos tempos, reinstalada no Brasil, vem se apresentando em casas de jazz e estrelando musicais em teatros. Giana é mais uma que chegou na casa dos trinta e merece ser mais conhecida em seu país.
http://www.youtube.com/watch?v=4byUbtI3dsw
http://www.youtube.com/watch?v=bg05CzgCzfQ&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=-LNPZz4rRCY&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Ss8cx6mGcJ8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=X4isYKxC_E0&feature=related
http://www.gianaviscardi.com.br/

#Érika Machado – Outra do clube dos 30 (32), Erika é tudo de bom: a voz doce, com uma certa ternura de criança embutida. A música, tocante, brasileira, mineira, lembrando Milton, Lô, Beto Guedes, e também Pato Fu, Skank. O seu timbre me faz lembrar muito a comovente irmã dos Borges, Solange, que não seguiu carreira, mas deixou marcas em discos do irmão Lô e no coletivo Os Borges, com sua voz terna. O último disco de Érika, independente (novidade!), tem a mão do produtor John Ulhoa e participação de Fernanda Takai ( o casal do Pato Fu). Ah, o Bituca adora ela...
http://www.youtube.com/watch?v=97-aOda4OS4
http://www.erikamachado.com.br/
http://www.youtube.com/watch?v=ZzxAkMXpu5o
http://www.youtube.com/watch?v=36YHqa_AnV0&feature=related

#Cláudia Dorei – Carioca radicada em São Paulo, Claúdia também não é nenhuma adolescente – tem 31 anos – mas embora esteja nos palcos da vida desde 1997, só agora lançou o primeiro disco, Respire ( independente, porque não?), segundo ela, totalmente “trip hop tropical”. Entenderam? Pois então, escutem:

#Céu - Maria do Céu Whitaker Poças é paulistana, filha do maestro Edgar Poças, e embora tenha cara de 18 anos, completa agora no dia 17, 30 anos. Ralou muito até gravar o primeiro disco em 2005, que vendeu 30 mil cópias nos EUA ao ser lançado por lá dois anos depois. O segundo trabalho, lançado no ano passado, vendeu mais ainda e recebeu aclamação da crítica mundial. A sua mistura de música brasileira – com o samba na batuta – e ritmos negros mundiais – hip hop, rithm’blues, jazz –costuma acordar sonâmbulos. Céu vai longe....

#Cibelle Cavalli – Cibelle não é novata: tem 30 anos, mora desde 2002 na Inglaterra e toda a sua carreira foi construída lá fora. Um pouco antes de se mudar para a Europa, fez uma elogiada participação no São Paulo Confessions, cultuado disco do produtor Suba, falecido logo depois em um incêndio. O Brasil não a conhece bem, embora ela passe por aqui quando convidada e já tenha participado do Tim Festival em 2007. A compositora já percorreu quase todo o globo com suas neobossas desembaraçadas e tocou com...pasmem... Afrika Bambaataa, Devendra Banhart, João Parahyba, Apollo Nove, Junio Barreto, Johnny Alf, Pupillo, Xis, Otto, Seu Jorge e Bocato. Cibelle é do mundo.
http://www.youtube.com/watch?v=-MzjYw4BqgQ
http://www.youtube.com/watch?v=PbwRMv6TjUE&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=6-8tTNzbtmA&feature=related http://www.youtube.com/watch?v=2ItrCu0uo-g&feature=related

# Anna Ratto – Ex-Anna Luísa, a compositora carioca segue repleta de influências, como seu primeiro disco, de 2005, recebido com entusiasmo por público e crítica. Seu trabalho alterna canções próprias e outras pérolas de compositores da nova safra como Rodrigo Maranhão e Edu Krieger, em uma interessante mistura de ritmos, com ênfase no maracatu e temperos nordestinos. Já cantou com Edu Lobo, o que não é pouca coisa...

#Ana Cãnas- Tudo foi muito rápido: aos 22 anos, a paulistana Ana descobriu e se apaixonou pelo jazz, e logo estava cantando na noite; aos 25 anos, aprendeu violão e rascunhou suas primeiras músicas; aos 26, lançou o primeiro disco, independente e diretamente ligado às tramas da MPB. Hoje, aos 28 anos, mantém uma fase mais madura nas composições e mais roqueira na embalagem, iniciada no ano passado com o disco Ein?, incluindo parcerias com Arnaldo Antunes. Ana Cãnas continua irrequieta e irreverente, Bons sinais.

#Aline Calixto – Carioca de nascimento, mas criada em Minas, Aline vem se destacando com elogiado disco de estréia pela Warner e em diversas rodas de samba carioca, com o aval de mestres como Monarco, Martinho e Walter Alfaiate. Dizem que essa ponte entre o Rio e Minas é a liga de seu samba diferente, que nos remete imediatamente à saudosa Clara Nunes, mineira e sambista da gema.
Ufa! 2o compositoras! E ainda ficaram de fora nomes importantes. Ceumar, Bruna Caram e Roberta Sá ainda são essencialmente intérpretes, embora já haja prenúncios de composições. Pretendo inclui-las em post futuro, assim como a potiguar Valéria Oliveira, com mais de 13 anos de carreira e uma carreira excepcional no exterior. Anelis Assumpção também terá sua vez, assim como Marina Machado, que já foi backing do Skank, do Tianastacia e cantou com o Milton, que também a adora. E tem tantas mais... Mayra Andrade, Andrea Dias, Lulina, Nina Becker... é, vou ter que fazer um "quem é quem 2". Aguardem. Já a Mallu Magalhães, ainda é pra mim uma grande incógnita: a sua música é autêntica, autoral, mas não me conquistou. Quem sabe um pouco pra frente eu a veja mais amadurecida, mas por enquanto deixo-a em off – nada pessoal, acho eu.

31 de março de 2010

Os encontros, ou melhor, os "encontrões" de Adoniran e Elis

Elis Regina encontrou Adoniran Barbosa pela primeira vez em 1965, quando o compositor ainda não tinha gravado disco, mas já era considerado ícone do samba paulista. O compositor participou ao vivo do Fino da Bossa na Record depois de muita insistência de Elis. Na ocasião, 12 de julho de 1965, após emocionada interpretação de Saudosa Maloca feita por Elis, mais uma entrevista de 10 minutos, os dois levaram ao vivo as músicas Bom Dia, Tristeza e Prova de Carinho. No mesmo ano, quando a Excelsior fechou contrato com a emissora paulista para realizar uma versão inédita do Fino no Rio, Adoniran foi imediatamente relacionado pelo produtor Alberto Helena, mas muitos da direção do programa ficaram receosos com a possível reação negativa da platéia carioca. Qual. Mesmo antes de entrar no palco, Adoniran foi ovacionado pelo público, que cantou em pé seu sucesso instantâneo Saudosa Maloca, recém composto.
Os dois só se reencontrariam 13 anos depois, quando Elis, às voltas com os ensaios do mega show Transversal do Tempo, incluíra Saudosa Maloca na seleção de repertório e precisava da autorização do autor. Como na época era muito complicado contatar o compositor, Elis pediu a força do amigo em comum Walter Negrão, que encontrou Adoniran reticente, mas conseguiu marcar um encontro na padaria Real, próxima à TV Tupi. Cesar Camargo Mariano, marido da cantora na época e Negrão, presenciaram Adoniran, entre torresmos, risadas e copos de cerveja, se levar pelos irresistíveis encantos de Elis. A música foi aprovada, claro, e apareceu com destaque no show e no disco lançado no ano seguinte. A descontração e o clima da padoca rendeu repeteco no final de 1978, no Bar da Carmela no Bixiga, com a dupla dividindo vocais em Iracema. O vídeo deste encontro, feito para o especial de Ano-Novo da cantora na Band, virou, mais de 30 anos depois, um grande must na internet, via Youtube. Além das internas no bar, onde Adoniran canta Samba no Bixiga e arranca gargalhadas contagiantes e espontâneas da cantora, há também um tranquilo passeio da dupla a pé pelo bairro, tendo Saudosa Maloca em pungente interpretação de Elis,ao fundo.
Em 1980, Adoniran retribuiu e chamou a gaúcha para uma participação especialíssima na faixa Tiro ao Álvaro, do seu terceiro LP. Elis chegou ao Rio ( atrasadíssima, para não perder o costume) e depois de um longo abraço no anfitrião, ensaiou e gravou com grande entusiasmo - e nem preciso dizer que a música foi destaque retumbante, virando até compacto de divulgação do trabalho.
Elis Regina faleceu em 19/01/1982, com 36 anos de idade e uns 100 anos de serviços prestados à MPB. Adoniran, que se emocionou muito em seu adeus, partiu no mesmo ano, em 23/11/1982, aos 72 anos, cansado, mas ativo e intenso, como seu velho Bixiga. Assim como Cartola, Geraldo Filme, Nelson Cavaquinho e tantos outros, só foi ter o prazer de ver sua obra gravada em disco próprio no final da vida. Graças, para nós e para a posteridade, que dois dos mais autênticos artistas brasileiros tiveram a chance de se encontrar e unir suas genialidades. A rouquidão e o dialeto de Adoniran + o canto sentido e o riso solto de Elis ecoam ainda hoje por bares, palcos e e-mails compartilhados.
Encontro no Bixiga ( completo): http://www.youtube.com/watch?v=Ea5nMXIRxQM
Elis e Adoniran em Tiro ao Álvaro: http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w

29 de março de 2010

RR 50

Não. Eu não vou me aprofundar na cena punk brasiliense dos anos 70, quando Renato Russo, os irmãos Fê e Flávio Lemos e um filho de diplomata sulafricano, André Petrorius, criaram o pioneiro Aborto Elétrico. Também não vou conjecturar sobre a fase "solo" de Renato Russo entre 81 e 82, quando se apresentava como "Trovador Solitário", munido só com o violão e o vozeirão. Não vou me prolongar também na maior banda de rock dos anos 80, Legião Urbana, que vendeu milhares de discos, encheu estádios e protagonizou momentos bizarros de idolatria e violência. Vou deixar de fora qualquer análise depurada sobre as múltiplas facetas de Renato Russo: o punk indolente, o crânio da escola, o professor de inglês, o homossexual , o debilitado, o drogado, o poeta, o fissurado em música e bandas de rock, o irritante da turma, o agitador cultural, o sensível, o gênio difícil, o vocalista perfeccionista.
Quase tudo foi falado e refalado, escrito e reescrito nos últimos dias, por ocasião dos 50 anos redondos de seu nascimento. Vou deixar nese post solamente minha lembrança/saudade de um artista que faz falta pra cacete neste cenário morno, repetitivo e reciclado do rock brasileiro atual. Renato Russo nunca viveu no meio termo e sua vida pós morte também não é assim: crucificam-no e santificam-no na mesma dosagem. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno, eu, que vivenciei Legião e Renato Russo desde que surgiram para o cenário nacional, fui ao antológico show deles em 1985 em Santo André ( com Mister Átila, no Clube Aramaçan), cantei muitas músicas do Legião em minha banda dos anos 90, W.O, e acompanhei atentamente seus vôos solos e o drama final de sua curta e acelerada vida, sempre o considerei o melhor vocalista que surgiu em qualquer época de nosso pop/rock, um dos melhores letristas de sua geração e um baita cara autêntico. Autêntico, eis um adjetivo que vem faltando às novas bandas rockers, cheias de pompas e circunstâncias, mas sem recheio. Renato Russo não só tinha recheio, como transbordava.
Seguem grandes momentos de sua carreira ( Aborto, Legião, solo em inglês e raridades):
Solo: The Dance - http://www.youtube.com/watch?v=25fITWp06nY&feature=related
Solo: Cherish - http://www.youtube.com/watch?v=6iGKWV_24tM
Legião: O Senhor da Guerra - http://www.youtube.com/watch?v=iEHjJcjtZmg
Legião: Tempo Perdido - http://www.youtube.com/watch?v=059HEaYRve0&feature=related
Legião: Que País é Esse ( Globo de Ouro-1987)- http://www.youtube.com/watch?v=OdMwXkzDusc&feature=related
Aborto Elétrico: Desemprego ( Raro!)- http://www.youtube.com/watch?v=l_GK1CrdFxM&feature=related
Aborto Elétrico: Fátima (Raro!) - http://www.youtube.com/watch?v=uDoQb2nYBYo&feature=related
Renato cantando Cazuza: http://www.youtube.com/watch?v=7Un6XazRDgE&feature=PlayList&p=7BC58971890643B1&playnext=1&playnext_from=PL&index=1

Trovador Solitário: Boomerang Blues - http://www.youtube.com/watch?v=PpuooTNUYVQ&feature=PlayList&p=33EEF9EB8C08F721&playnext=1&playnext_from=PL&index=21

Solo: When You Wish Upon a Star - http://www.youtube.com/watch?v=tPIiwDnbN3A&feature=PlayList&p=33EEF9EB8C08F721&index=24

26 de março de 2010

Baú do Malu 22 - Revista Careta nº 951 - 11/09/1926

Capa - charge de Storni sobre a famosa "política do café com leite"
Cartum de Belmonte

Página com a cobertura da missa de 7º dia de Rodolpho Valentino, no Rio.

A revista Careta foi publicada entre 1908 e 1960, criação do editor Jorge Schmidt ancorada ao longo de sua existência por desenhistas geniais como Raul Pederneiras, Belmonte e Storni, entre outros. O mais genial deles, J.Carlos, considerado por muitos o maior artista gráfico brasileiro, vivenciou a redação da Careta por toda a sua vida, sendo diretor e artista exclusivo da publicação desde o seu início até 1921 e colaborando em suas páginas até a sua morte. J.Carlos ( José Carlos de Brito e Cunha) nasceu em 1884 e faleceu em 1950, três dias após sofrer uma edema cerebral em sua mesa de trabalho. Profissional exemplar, colaborou em 48 publicações e estima-se que deixou para a posteridade a incrível marca de 50 mil desenhos publicados. A Careta foi sua casa, principalmente nas décadas de 10 e 20, quando exercia várias funções editoriais. Na segunda metade da década de 20 ( período da revista em destaque), sem a presença do mestre J, Belmonte e Storni seguravam muito bem a peteca e povoavam a magazine com suas ilustrações provocativas.
A revista, erroneamente chamada de "humorística" pela internet afora, na verdade era uma revista semanal jornalística e de costumes, utilizando-se de muitas ilustrações e fotos para mostrar a política, a cultura e o comportamento do seu tempo. Por ter sempre uma caricatura ou charge como capa, talvez venha daí a pecha equivocada.

* Acima, exemplar do meu baú, com destaque para a capa e dois detalhes internos escolhidos à dedo.

22 de março de 2010

Big Star: morre o brilhante e obscuro Alex Chilton

Alex Chilton, guitarrista e vocalista de Memphis, Tennessee, já chamava a atenção na adolescência pelo seu modo pouco tradicional de tocar e cantar, embebido precocemente em influências britânicas. Com 17 anos, em 1967, estourou com a música The Letter, ao lado de amigos de infância na banda Box Tops. Depois de mais duas canções nas paradas, o grupo se dissolveu em 1969 e Chilton foi tocar a vida solo, aperfeiçoando-se em Nova York . Eis que em 1971 um convite muda para sempre o seu destino na música: a banda Big Star, formada por Chris Bell ( guitarra/vocal), Andy Hummel (baixo) e Jody Stephens (batera) precisava de um guitarrista e viu a luz ao topar com a irresistível aura melódica de Chilton. Formou dupla histórica com Chris Bell em composições imediatamente clássicas - era como uma versão garagística de Lennon/McCartney - mas que por problemas de distribuição do primeiro disco ( #1 Record - 1972), acabou virando cult para poucos privilegiados ( músicos e críticos principalmente) mas desconhecida para o público em geral. Bell não segurou a barra e sartou de banda em 1972 mesmo, iniciando carreira solo tragicamente interrompida seis anos depois, em acidente de carro. O teimoso Chilton seguiu com a Big Star, entre trancos, barrancos e ligeiras interrupções e chegou a gravar outro disco muito cultuado, Radio City de 1974, com as matadoras "September Gurls" e "Back of a Car". Mesmo com um certo burburinho nas rádios, a banda, mais uma vez, não teve o reconhecimento que merecia. No final do ano, após gravações de estúdio que virariam disco só em 1978, a banda resolveu encerrar suas atividades. Só para se ter uma idéia da importância desse subestimado grupo para o Rock 70, simplesmente os três únicos álbuns da banda estão na lista dos 500 melhores de todos os tempos da revista “Rolling Stone”. Mas a vida, ingrata vida, segue. Chilton caiu no mundo again, mais precisamente no olho do furacão novayorquino pré-punk, o CBGB, clube que abrigou ícones do movimento como Ramones, Television, Blonde e Patti Smith, onde conheceu e acabou produzindo os pitorescos The Cramps. Nos anos 80, flanou pelo jazz no Missouri e manteve uma estável e discreta carreira solo, até que um comichão chamado Big Star jogou-o mais uma vez para os palcos do velho power pop, ao lado do parceiro Jody Sthephens, impávido nas baquetas.
A banda tocou muito ao vivo e chegou a gravar um disco de inéditas, In Space, em 2005. Em 2009 foi lançada a caixa comemorativa "Keep an eye on the sky" e um documentário sobre a banda será lançado em 2010. Chilton, que ainda cultivava carreira solo paralela, iria se apresentar com o Big Star no sábado (20), no festival South by Southwest, em Austin, Texas, mas na quarta-feira (17) passou mal, foi hospitalizado e não resistiu a um infarto. A apresentação de sábado aconteceu, como uma grande celebração em sua homenagem em que convidados especiais revezaram-se no palco reverenciando o mestre Alex Chilton. Aos 59 anos, se foi um grande padrinho do rock alternativo americano e das garage e college bands ( que o digam REM , Weezer e tantos outros), um músico e compositor conciso, naturalmente melódico, que brilhou longe dos holofotes, em clubes apertados, festivais alternativos e bares pantanosos.

Frases:
“O ideal para mim seria ganhar um monte de dinheiro sem que ninguém te reconhecesse na rua".
“A fama é muito pesada para sair carregando por aí. Eu não quero ser como Bruce Springsteen. Eu não preciso de tanto dinheiro e não quero 20 seguranças me seguindo”.
“Se eu ficasse realmente famoso, os críticos não gostariam tanto de mim. Eles gostam de promover as zebras musicais”.
Destaques:
Box Tops - The Letter ( programa de TV - 1967)- http://www.youtube.com/watch?v=wD9mCp8SifM&feature=related
Big Star -Thirteen(do álbum #1 Record -1972)- http://www.youtube.com/watch?v=pte3Jg-2Ax4
Big Star-I'm in love with a Girl (do álbum #1 Record -1972)- http://www.youtube.com/watch?v=QIfPIwWn-vg&feature=related
Big Star - September Gurls ( do álbum Rádio City - 1974)-http://www.youtube.com/watch?v=BNKSs1J38EA&feature=related
Big Star- Back of a Car (do álbum Rádio City - 1974)-http://www.youtube.com/watch?v=hsPKKuQmJJQ&feature=related
Big Star -Ballad of El Goodo ( classicão de Bell/Chilton - 1972)-http://www.youtube.com/watch?v=Cn1t6l7UUPc&feature=related
Big Star - In the Street ( ao vivo na tv americana) - http://www.youtube.com/watch?v=fAtb65Z_bkA&feature=related
Big Star - In the Street (versão da abertura do seriado That's 70's Show) - http://www.youtube.com/watch?v=P_3ECxWjPyc&feature=related
Big Star - live -Rhythm Festival Clapham, Bedfordshire- 2008 - http://www.youtube.com/watch?v=obixXiy9ses&feature=related
Big Star - Thank You Friends ( 1971/1972- c/ cenas da formação original) - http://www.youtube.com/watch?v=JC0Wa3P_dO0&feature=related

15 de março de 2010

Glauco e o Salão de Humor de Piracicaba



O Salão Internacional de Humor de Piracicaba é um dos mais importantes salões do Brasil. Desde 1974, sem interrupções, já revelou para o Brasil grandes artistas do traço, como Solda, Chico Caruso, Lor, Flávio. Entre as revelações dos primeiros tempos, um trio que iria estourar a boca do balão na década de oitenta: Laerte, Angeli e Glauco. O primeiro cravou um 1º lugar logo na edição inaugural e repetiu a façanha em 1977. Angeli ficou com o 3º lugar em 1975 e Glauco se destacou em 1977 e 1978 ( 2º e 3º respectivamente).
O livro acima, que eu demorei pra encontrar na atual "zona" que se encontra meu acervo, é uma coletânea dos cartuns premiados no Salão de Piracicaba no período da ditadura ( 1974-1984). Uma curiosidade: nesta mesma época, o irmão de Glauco, Cesar Augusto Vilas Boas, que assina Pelicano, também conseguiu boas colocações nas edições setentistas do salão.
Destaquei acima, a capa do livro ( que retrata a ilustração do poster oficial de 1979, feita por Glauco) e as criações premiadas de Glauco em 1977 e 1978. Por elas, dá pra se ter uma visão nítida do clima reinante e da coragem intrínseca que sempre permeou o Salão de Piracicaba nas barbas ditatoriais.

12 de março de 2010

Glauco

Quantos anos! sou assinante do UOL desde que trabalhava na Editora Abril no início dos 90, e um dos meus hábitos diários desde aquele tempo, era procurar as charges e quadrinhos da incrível trinca Laerte/Angeli/Glauco ( Los 3 Amigos, Angel Villa, Laertón e Glauquito), que vinha publicando esporadicamante desde os anos 70 na Folha de São Paulo, conquistou espaço definitivo no jornal a partir de 1984, e com o advento da internet nos 90, surgiu automaticamente no portal UOL, do mesmo grupo Folha.
Mas bem antes, e eu até postei outro dia aqui, já via os desenhos peculiares de Glauco e Angeli na última página do suplemento Folhetim no início dos anos 80, época em que meu pai comprava a Folhona. Um pouco depois, colecionei a saudosa Chiclete com Banana, revista que marcou os anos 80, com quadrinhos antológicos de Angeli, sempre com convidados especialíssimos, e entre eles, claro, Glauco e Laerte. Foi nesse período que surgiram os primeiros projetos como Los 3 Amigos ( postado aqui também), que teve a adesão posterior de outro louco do bem, Adão Iturrusgarai ( autor de Aline). Com o sucesso da Chiclete, surgiram alguns anos depois "filhotes" editoriais como "Piratas do Tietê" de Laerte, "Geraldão" do Glauco, e "Níquel Náusea", de Fernando Gonsales.
Bom, escrevi todo este histórico pra homenagear Glauco Villas Boas, um dos maiores cartunistas/chargistas/quadrinistas do Brasil, premiado no Salão de Piracicaba, um dos artistas mais ativos a partir do final da Ditadura, autor de diversos personagens marcantes como Geraldão, Geraldinho, Dona Marta, Zé do Apocalipse e Doy Jorge. Triste, porque não é um post-homenagem em vida, como eu bem gostaria. Hoje de madrugada, o cartunista de 53 anos foi morto covardemente dentro da sua casa em Osasco, em tentativa de assalto e sequestro que também levou a vida de seu filho Raoni, 25 anos.
O seu desenho sarcástico, irreverente, doido, veloz vai ficar pra sempre na história do humor brasileiro. Matam-se pessoas, sonhos, projetos, mas a arte, soberana arte - talhada, pintada, desenhada, encenada - essa ninguém mata.

Tiras de Glauco, publicadas no espaço Humor do UOL: http://www2.uol.com.br/glauco/
Obras disponíveis no mercado: http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u705854.shtml

10 de março de 2010

Baú do Malu 21 - Primeiros números da Revista Senhor (1959)

(Senhor nº1 - capa Glauco Rodrigues)

(Senhor nº 5 - capa Glauco Rodrigues)

(Senhor nº 10 - capa Jaguar)
A revista Senhor foi uma senhora revista. Em sintonia com os esperançosos e eufóricos anos JK, a publicação revolucionou o modo de se fazer revista cultural, inovando no design e disposição dos textos, além de capturar com muito senso os novos ares comportamentais da época. Não por acaso, a revista nasceu um ano antes de Brasília e morreu no parto do golpe militar. A lista de colaboradores e editores nos primeiros anos dá uma idéia do alto nível: Nahum Sirotsky (editor chefe), Paulo Francis (editor assistente), Luiz Lobo (editor), Newton Carlos ( redator), Otto Maria Carpeaux, Odylo Costa Filho, Reynaldo Jardim, Flávio Rangel, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Jorge Amado, Antonio Callado, Carlos Lacerda (tu, Lacerda?), Lúcio Rangel, Ivan Lessa, entre tantos outros. E claro, o excepcional departamento de arte, com Carlos Scliar chefiando, Jaguar e Glauco Rodrigues detonando. As capas eram de uma plasticidade acachapante; o logo da revista, oito décadas depois do pioneiro Ângelo Agostini, não tinha parada certa na capa, mudando tamanho, lado e direção de acordo com o layout.
Acima, três exemplares do meu acervo ( nº 1 de março de 1959, nº5 de julho de 1959 e nº 10 de dezembro de 1959).

5 de março de 2010

Faltaria bossa à Bossa se não houvesse Johnny Alf

A Bossa Nova foi ungida a partir da batida diferente do violão de João Gilberto, das composições geniais do piano de Tom Jobim e da apaixonante escrita de Vinicius de Moraes, o primeiro poeta a escrever "letras de canções" de fato, e não poesias musicadas. Esse caldo todo levantou fervura em 1958, quando violão, canção e letra apareceram de uma só vez no LP de Eliseth Cardoso, "Canção do Amor Demais", pontuando o início do movimento, que se reconheceu como tal logo em seguida. Mas cinco, seis anos antes, o pianista Alfredo José da Silva, conhecido na noite como Johnny Alf, já mostrava bossa antes que o termo existisse, em disputadas sessions nas boates de Copacabana. Com vinte poucos anos, Alf já era cultuado entre seus colegas profissionais da noite, como Dolores Duran (que virou sua amiga íntima), Newton Teixeira (com quem dividiu forças depois, em várias boates) e Tom Jobim ( que o apelidou de Genialf) e todos eles não perdiam a oportunidade de "esticar" depois do batente, só pra ouvir a mágica harmonia pianística de Johnny Alf. João Gilberto, recém chegado da Bahia, já era assíduo desde a Cantina do César, primeiro emprego do pianista. No Clube da Chave, Ary Barroso aparecia só pra vê-lo. Além de ser um dos primeiros compositores-intérpretes e misturar Cole Porter com samba-canção, o inusitado instrumentista ainda tinha um vocal vibrante e confessional, que também fez escola. As suas antológicas performances no bar do Hotel Plaza ( entre 1953 e 1954) viviam dando casa cheia - quem quisesse conhecer o que mais de moderno estava sendo feito na música, tinha que dar um pulo no Plaza. Em 1955, deixou sua platéia carioca desamparada quando aceitou convite para tocar em São Paulo na boate Baiúca, mas antes lançou um 78 com as músicas Rapaz de Bem/O Tempo e o Vento ( compostas em 1953), considerado um marco por conter muitas características do que viria a ser Bossa Nova. Finalmente quando a bossa virou Bossa, em 1959, Johnny foi lembrado como pioneiro e participou de muitos shows universitários no Rio, embora continuasse pelas boates paulistas. Até que em 1962, voltou ao Rio, e iniciou uma 2ª fase carioca avassaladora, no Beco das Garrafas - Bottle's, Little Club, Top Club - onde formou o melhor conjunto de sua carreira, com Tião Neto no baixo e Edison Machado na bateria. Vou mais longe: este encontro fantástico foi com certeza uma das melhores formações instrumentais da música brasileira em todos os tempos. A platéia se renovava e novos talentos como Roberto Menescal, Luis Eça e Carlos Lyra corriam ao Beco para ver Alf brilhar. A partir do final dos anos 60, a ensolarada Bossa Nova entrou numa "animação suspensa" e só voltou do coma induzido nos anos 90. Se o nosso Johnny Alf já era retraído, tímido, fugidio, a ponto de recusar o convite para tocar no Carneggie Hall em 1962, na famosa noite da Bossa Nova que consagrou muita gente boa ( e outras nem tão boas assim) por medo de avião, esse período de hibernação bossanovista o fez se refugiar nas sombras ainda mais. Virou professor, continuou tocando na noite ( em São Paulo, agora em definitivo) e compondo lindamente como sempre. Algumas dessas músicas chegaram à luz, como Eu e a Brisa, interpretada por Márcia no III Festival de MPB da TV Record em 1967, que foi desclassificada nas eliminatórias mas virou sucesso de público e uma das músicas mais tocadas do pianista a partir daí. Recusou mais um convite nos anos 70, desta vez de uma de suas musas, Sarah Vaughan, que queria levá-lo para NY. Nos anos 90, com o revival do movimento que ajudou a criar, o sofisticado Johnny Alf deu as caras, primeiro em um belo disco, Olhos Negros, lançado em 1990, com vários intérpretes homenageando sua obra em duetos. Seguiram-se shows por todo o Brasil, um prêmio Shell em 1999 e momentos emocionantes nos 50 anos da Bossa, quando interagiu ao vivo com grandes nomes como Tom Jobim, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra e Stan Getz, no telão montado para a exposição "Bossa na Oca" no Ibirapuera-SP, e no ano passado, quando comemorou seus 80 anos no Sesc Pinheiros ao lado de sua amiga Alaíde Costa e Emílio Santiago.
Há três anos vinha se tratando de um câncer de próstata, e como a música sempre esteve em primeiro plano em sua vida, passou a ensaiar como membro fixo do coral do Hospital Mário Covas em Santo André-SP, próximo à casa de repouso onde passou a residir. O mesmo hospital que o homenageou em 2008 com a presença de Toquinho e convidados. Por essa época, quando soube que o grande pianista estava há poucos quilômetros de minha casa, tive um estalo de fã e fui até o hospital em dia de ensaio. Cheguei no finalzinho, e ainda consegui pegar seus últimos acordes no piano. Fui apresentado ao mestre, que me estendeu a mão e sorriu, e comentei com o professor responsável que pretendia me integrar ao grupo, mesmo sabendo que o coral era para funcionários e seus familiares - nada mais poderia justificar minha presença ali. Saí satisfeito por ter presenciado as inebriantes notas de Johnny Alf, mesmo que por poucos minutos. No ônibus, de volta pra casa, relembrei o que já lera sobre sua trajetória: a perda do pai aos três anos de idade; o encontro com o piano aos 9 anos, na casa em que sua mãe trabalhava como doméstica, sob total consentimento dos patrões; o seu amor pelas músicas americanas, que o fez se aproximar do clube Sinatra-Farney, ainda nos anos 40; o rompimento com a mãe, logo que iniciou sua carreira como pianista da noite; a imensa timidez e o gigantesco talento, sempre juntos, que o fizeram um artista cult e admirado, mas que ao mesmo tempo o distanciaram dos holofotes e do sucesso comercial; seus poucos e mal distribuidos discos, sempre com composições modernas e lampejos geniais.
Ontem, dia 04 de março, uma brisa suave, como as notas de seu piano, levou o octagenário e silencioso Johnny Alf.
Vídeos:
Chico Buarque e Johnny Alf: http://www.youtube.com/watch?v=jQWLgdiU_gI

3 de março de 2010

Baú do Malu 20 - Zé Carioca - Horas felizes nº 10 - Melhoramentos (1945)



Zé Carioca surgiu durante a política de boa vizinhança engendrada pelos EUA na iminência da 2ª Guerra. Washington estava de olho grande na influência nazista em países latino americanos e essa preocupação incluía também o Brasil, em pleno regime ditatorial de Getúlio Vargas. O "enviado" Walt Disney, recusou a faceta política da visita, mas fechou um gordo contrato com o governo americano para produzir curtas da viagem. Disney viajou ao longo de 1941 pela America do Sul com uma enorme equipe de desenhistas. No Brasil, visitaram Manaus e jantaram com Getúlio Vargas na antiga capital federal. J.Carlos, nosso cartunista maior, não só se encontrou com a comitiva no Rio, como colaborou nos esboços que dariam vida a um certo papagaio. O seu domínio latente e absoluto no desenho fez com que Disney o chamasse para trabalhar com sua equipe em Hollywood, e ele quase foi: aos 45 minutos do segundo tempo, desistiu. O papagaio esboçado chegou aos States, virou Joe Carioca e estrelou já no ano seguinte o filme Saludo, Amigos! ( Alô, Amigos!) onde ciceroneava o Pato Donald no Rio. Em 1945, enquanto o papagaio malandro voltava às telas no filme Você já foi à Bahia? (The Three Caballeros), contracenando novamente com Donald, além do mexicano Panchito e e alguns artistas de carne e osso ( como Aurora Miranda), a Editora Melhoramentos trazia Zé Carioca para a sua coleção Horas Felizes, com história baseada no filme de 1942. O sucesso e a importância deste livro foram tais, que motivaram a editora a lançar em 1995 uma edição comemorativa de 50 anos, preservando as imagens originais e o enredo.
Lá em cima, a capa de 1945; em seguida, a capa comemorativa (1995); e por último, uma cena interna da edição de 1945.

1 de março de 2010

Cilibrinas do Éden

Como o quilométrico post anterior citou, as Cilibrinas do Éden eram Rita Lee e Lucia Turnbull nos idos de 1973, logo depois da primeira ter saído dos Mutantes. Na verdade, podemos considerar que Lucinha também saiu do grupo, pois no LP de 1972, O primeiro Dia do Resto de Sua Vida ( solo de Rita Lee, mas com toda a trupe mutante à tiracolo), participou cantando e tocando guitarra. A proposta da dupla relâmpago era fazer um rock acústico e baladeiro, e esta linha foi sua ruína: o público queria ver ao vivo um som parafernálico a la mutante e encontraram flautas, vocais suaves e theremin. Na estréia das Cilibrinas, no Phono 73, algumas vaias e um suspeito silêncio sobrepujaram os poucos aplausos. Lucia sentiu na pele o clima e Rita declarou na época que o som ficou uma droga. Será mesmo? Ainda assim, seguiram, e conseguiram gravar um disco pela Philips, mas como reza a lenda - e essa história de cilibrinas e éden está coberta de lenda - o boss André Midani interviu pessoalmente e abortou o projeto. E a lenda segue emocionante: em represália ao ato ditatorial do chefe, Rita se uniu a Tim Maia, desafeto recente de Midani, e destruiu seu escritório na gravadora em uma certa madrugada. Outra boa, e esta não é lenda: no seu disco solo, Arnaldo Baptista dá uma cutucada em Rita em trecho da música Ce tá pensando que eu sou lóki?: "cilibrinas pra lá, cilibrinas pra cá, eu tô velho mas gosto de viajar…"
O disco de 10 faixas tem um ar amador e desencanado que soa intencional, em oposição às suítes roqueiras de então. Há belos momentos vocais e sons que remetem à dupla hippie Luli & Lucinha ( contemporâneas, mas que só gravaram anos depois). O grupo acompanhante era o Persona, com Carlini, Marcucci e Emilson, um pouco antes de virar Tutti Frutti. Muitas músicas foram reaproveitadas anos depois: Mamãe Natureza foi recauchutada pela Philips e utilizada no disco de estréia do Tutti Frutti no ano seguinte; Bad Trip inspirou Shangri-lá, do repertório solo de Rita e Gente Fina é Outra Coisa transformou-se em Loco-Motivas, faixa da trilha da novela global homônima de 1977 com o Tutti Frutti.
Um disco descolado e bacana, simples até, que no distanciamento do tempo, ganhou sua aura de brilho. Virou lenda, mas está disponível pra quem quiser conhecer, graças à fãs incondicionais que o lançaram em LP e vinil em 2008 na Europa ( e inevitavelmente dowloadou pela internet) e disponibilizaram página no MySpace.

Tutti Frutti na linha de frente do Rock 70

Nos obscuros anos 70, bandas de rock surgiam aos borbotões no Brasil, mas assim como vinham à tona, submergiam sem deixar vestígios. A ditadura e seus tentáculos, afundavam o rock no underground com a pecha de "música marginal". Paralelamente ao preconceito oficial, a própria postura dos envolvidos, que não queriam "se vender ao sistema", faziam com que todo roqueiro brasileiro tivesse mesmo cara de bandido, como bem frisou Rita Lee em feliz achado que logo tratou de musicar ( "todo roqueiro brasileiro tem cara de bandido", na música Orra Meu, 1980). Se a maioria, ao centrar forças no hard ou no progressivo, não aparecia para o grande público, algumas poucas bandas conseguiram furar o bloqueio, caso do O Terço, Os Mutantes e Rita Lee & Tutti Frutti. Outras como O Som Nosso de Cada Dia, Made in Brazil, Bolha, Casa das Máquinas, O Peso, viraram cults, mais pelos fãs fiéis e momentos isolados na carreira que propriamente pelo êxito comercial. O Terço era progressivo por essência, mas casava muito bem a excelente instrumentação com letras viajantes e um pé na vida hippie. Depois do auge entre 1973 e 1977, passou por várias fases e gêneros e resiste até hoje, sob a batuta do fundador Sérgio Hinds. Já os Mutantes, após o estouro nos anos 60 e alguns sucesso iniciais nos 70 ( Top Top, Balada do Louco...), fincaram bandeira no progressivão a partir de 1973, ano em que Rita Lee foi "despachada" pelos rapazes. A banda não se encontrou mais com o sucesso, viu Arnaldo Batista sair logo em seguida e embora continuasse lotando os shows, acabou em 1978, após várias mudanças, sob os ombros cansados do insistente Sérgio Dias. Rita Lee, depois de uma frustrada dupla com Lucia Turnbull (Cilibrinas do Éden), que participou do show coletivo Phono 73 e fez um disco inteiro não lançado pela gravadora Philips, formou o Tutti Frutti ao lado da própria Lucia (vocal e guitarra), e integrantes do grupo Lisergia, Luis Sergio Carlini (guitarra solo), Lee Marcucci (baixo – ele mesmo, fundador do oitentista Rádio-Táxi) e Emílson Colantonio, bateria. Lançaram em 1974 o LP Atrás do Porto tem uma Cidade, primeiro disco oficial de Rita Lee longe do Mutantes – seus dois primeiros solos não contam aqui porque foram gravados com a sua banda anterior ( Build Up em 1970 e Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida, 1972). O disco, muito criticado, não revelou toda a explosão que a banda mostrava ao vivo, mas trouxe dois sucessos, Menino Bonito e Mamãe Natureza ( esta, uma versão remodelada dos tempos das Cilibrinas) e revelou a sinergia de Lucia e Rita, letras irreverentes e bem tramadas ( sempre de Rita), a espaçosa guitarra de Luis Sérgio Carlini e a cozinha segura (a bateria em estúdio, foi revezada por Mamão e Paulinho). Na capa, por imposição da gravadora, a nova banda surgia como Rita Lee & Tutti Frutti ( logotipo que apareceria nos próximos discos também). Neste primeiro lançamento, já ficava claro o direcionamento musical do grupo, sem resquícios do progressivo que flanava sobre seus contemporâneos: um rock bem urdido, com temperos de blues, Stones , Faces e a postura glitter de Bowie e T-Rex.
Lucia Turnbull, primeira guitarrista do rock brasileiro, saiu pouco depois do lançamento, após desentendimentos com o produtor Mazola, e perdeu a chance de participar de um dos melhores discos de rock tupiniquim dos anos 70, Fruto Proibido, de 1975, pela Som Livre. O grupo, embora tenha ficado com uma só guitarra, arregimentou um pianista ( Guilherme S. Bueno, só no estúdio), um tecladista (Paulo Maurício) e backing vocals ( os irmãos Rubens e Gilberto Nardo), fixou um batera ( Franklin Paolillo) e chamou o multi-instrumentista Manito, ex-Incríveis e ex-Mutantes ( onde ficou por pouco tempo no lugar de Arnaldo Baptista), na época no Som Nosso de Cada Dia, para tocar sax, flauta e órgão em algumas faixas.
O resultado foi além das expectativas. Rita Lee encorpou mais seus vocais (puxados para o grave), dimensionou suas composições ( três com Paulo Coelho, uma com Luis Sérgio, outra com Lee, além de quatro só com a sua assinatura) e se desgarrou do passado mutante. Carlini se consagrou neste disco, em várias passagens, mas principalmente pelo seu solo em Ovelha Negra, inspiradíssimo e inspirador. O LP vendeu bem e rendeu pelo menos três grandes sucessos: Agora Só Falta Você, Esse Tal de Roque Enrow e Ovelha Negra. Antes de engatar o terceiro disco, Entradas e Bandeiras (1976), a banda cravou uma ótima música na trilha sonora da novela O Grito, Lá Vou Eu (saída de um compacto duplo e creditada só para Rita Lee), uma balada rock com a cidade de São Paulo ao fundo, gravada depois por Zélia Duncan. O terceiro disco veio em um ano conturbado para o grupo. Rita ficou estafada ao longo do primeiro semestre, as gravações se arrastaram e quando finalmente ficou pronto, decepcionou público e crítica ( e o prório Tutti Frutti). Além de não gerar nenhum hit, as mixagens deixaram o LP sem “viço”, pasteurizado e empastelado. Carlini e banda continuavam honrando os instrumentos (o batera agora era Sergio Della Monica), mas a gravação não ajudou. O engraçado é que o técnico de gravação era Luis Cláudio Baptista, irmão mais velho dos mutantes Arnaldo e Serginho, considerado um mago da sonoplastia e acústica, exercendo a mesma função no aclamado disco anterior. O que pode ter interferido no resultado é a co-participação de outros dois técnicos, acho eu. Entre estafas e estofos, ainda deu pra salvar alguns momentos, como a pungente Coisas da Vida ( um dos melhores momentos de Rita) e Bruxa Amarela, uma versão com letra totalmente remodelada da censurada Check-Up (Raul Seixas- Paulo Coelho). 1976 não daria só estafa à Rita, mas também uma prisão, um marido e uma gravidez! Conheceu o instrumentista Roberto de Carvalho, da banda de Ney Matogrosso ainda na estafa, engravidou logo em seguida e em agosto, teve sua casa invadida pela polícia, que flagrou-a com posse de maconha e decretou sua prisão. Rita ficou uma semana no Deic, um mês no hipódromo feminino e um ano em prisão domiciliar.
Sem poder excursionar pelo resto do ano, a banda se preparou para as próximas gravações e no início de 1977 soltou no mercado o compacto de maior vendagem em sua história: Arrombou a Festa , mais uma parceria de Rita Lee e Paulo Coelho, feita ainda na prisão, e que avacalhava com muita perspicácia a apática MPB do final daquela década. O LP do ano foi ao vivo e em parceria com Gilberto Gil e sua banda Refavela (que tinha entre seus membros, Lucia Turnbull), Refestança ( Som Livre – 1977). Claro que o hino do disco foi a velha É Proibido Fumar – além de Rita, Gil também tinha virado bode expiatório no ano anterior com sua prisão por posse de maconha.
O Tutti Frutti neste período já incluía Roberto de Carvalho nos teclados e foi com ele e seus arranjos que o grupo lançou um estouro em vendas, o long-play Babilônia, com os hits Babilônia e Miss Brasil 2000. Mas junto com os holofotes do sucesso, veio a ruptura. O fundador Luis Sergio Carlini, que havia semeado na Pompéia o germe da futura Tutti Frutti, ao lado de Emilson e Marcucci em bandas como Coqueiro Verde e Lisergia no início dos 70, se sentia no final da década totalmente deslocado. E acabou ‘sartando’ fora, deixando Rita, Marcucci & Cia, mas levando no bolso o nome Tutti Frutti. Vale lembrar que Babilônia foi o primeiro disco da banda com destaque na capa apenas para o nome de Rita Lee. Rita & Roberto seguiram em sua lua-de-mel musical pelos anos seguintes, colecionando hits pops, como todo mundo já sabe. O Tutti Frutti recomeçou do zero, com Carlini recrutando seu velho amigo Simbas no vocal ( ex-Casa das Máquinas), Juba na bateria ( que logo depois pulou para a Blitz) e Renato Figueiredo no baixo. Mas o entusiasmo inicial, que incluía novíssimas músicas e gravadora nova (Capitol), logo virou novela dramática, quando uma música retida na censura atrasou o lançamento do disco e acabou desfazendo o contrato fonográfico, depois de um compacto sem grandes conseqüências no início de 1979. Com novo baterista, Marinho Thomaz, a banda finalmente lança em 1980 seu LP, Você Sabe qual o Melhor Remédio, pela RCA, mas promessas vãs de um outro disco e dificuldades diversas no prosseguimento da carreira fizeram com que o antológico Tutti Frutti encerrasse suas atividades em 1981. Por esse disco derradeiro dá pra perceber o quanto Carlini continuava craque. O novo século viu um retorno do Tutti Frutti pelas mãos do incansável Luis Sérgio Carlini e ele vem mantendo um boa média de shows pelo país. Vale a pena ver um ícone da guitarra no Brasil. Um cara que levantou e segurou por anos a fio a bandeira do rock nos esquisitos anos 70, tempos de uma ditadura criminosa que taxava de criminoso e bandido quem impunhava uma guitarra.
(Valeu, Almir, eis o Tutti aqui)
Seguem alguns grandes momentos do Tutti Frutti:
*SuperStafa (1976) - http://www.youtube.com/watch?v=Ue5fxQfTb70&feature=PlayList&p=C79ACE944CA3396B&playnext=1&playnext_from=PL&index=34
*Ovelha Negra (clipe do Fantástico- 1975) - http://www.youtube.com/watch?v=pJ4FMFPIf40&feature=PlayList&p=C79ACE944CA3396B&playnext=1&playnext_from=PL&index=33
* Splish Splash (ao vivo 1975) - http://www.youtube.com/watch?v=ORiIlPKMgts
* Sem Cerimônia ( ao vivo no 1ºHollywood Rock ) - http://www.youtube.com/watch?v=2fgixlMFkNg&feature=related
* Mamãe Natureza ( ao vivo no Teatro Bandeirantes -1974 ) - http://www.youtube.com/watch?v=X0wI1aVP69E&feature=related
* De pés no Chão ( ao vivo no Teatro Bandeirantes -1974) - http://www.youtube.com/watch?v=eWIdcXCXkOM&feature=related

25 de fevereiro de 2010

George Harrison, aniversariante do dia

George Harrison, falecido em 2001, faria 67 anos hoje. O mais tímido dos Fab Four deixou um legado inquestionável de canções atemporais, incluindo clássicos eternos nos Beatles, e embora tenha feito uma carreira solo discreta perto de seus ex-companheiros John e Paul, construiu-a com muito cuidado e solidez. Não faltaram shows humanitários (onde foi pioneiro com o concerto para Bangladesh), sucessos duradouros ( My Sweet Lord, Give me Love, Love Comes to Everyone...) e participações especiais de amigos como Bob Dylan, Eric Clapton, Ringo Starr, Peter Frampton, Billy Preston, Jeff Lynne, entre tantos.
Como homenagem ao grande guitarrista, selecionei dois momentos que eu considero memoráveis: a surpreendente performance de estúdio em Dark Horse (1974) e a sua participação emocionante no supergrupo Travelling Willburys (1988), ao lado de Tom Petty, Jeff Lynne, Bob Dylan e Roy Orbison.

Mais GH no blog irmão Consciarte: http://consciarte.wordpress.com/

24 de fevereiro de 2010

O adeus do Cordel do Fogo Encantado


Tanta banda atual deplorável poderia findar, implodir ou pedir arrego, e eis que uma das mais interessantes formações do cenário tupiniquim estanca sua trajetória de repente.
O Cordel do Fogo Encantado, com 11 anos de estrada, cravou seu fim hoje, através de nota do empresário/produtor decretando que "a decisão implica na "suspensão das apresentações ao vivo, como também da gravação em estúdio de material inédito". O encerramento das atividades se deu após comunicado do líder e fundador Lirinha: "Revelo, por respeito aos que me acompanham, a minha vital necessidade de trilhar novos caminhos. Ajudei a desenvolver um dos espetáculos mais originais da cultura pop do país e é com esse sentimento de orgulho que sigo em frente".
O Cordel surgiu de um espetáculo poético idealizado pelo próprio Lirinha (José Paes de Lira) na cidade de Arcoverde ( interior pernambucano), que durou três anos e desencadeou a formação musical de mesmo nome. Com dois músicos recifenses se unindo à trupe, seguiu-se uma carreira de três discos, um DVD e shows pelo Brasil todo. A proposta inusitada do grupo, que inclui teatro, letras carregadas de lirismo do vocalista, resgate das tradições orais e escritas da história nordestina - Patativa do Assaré é referência constante, o violão inspirado de Clayton Barros, a força de Rafa Almeida e Nego Henrique nos tambores e o espírito rocker de Emerson Calado, logo chamou a atenção, tanto do circuito MPB como da ala mais roqueira.
Apesar do fim anunciado, a banda promete lançar ainda este ano, CD e DVD com o registro do último show em Recife, além de material inédito de arquivo.
Fica a torcida para que todos os integrantes continuem com esse espírito de cordel, fogo e encantamento em seus projetos futuros.

23 de fevereiro de 2010

Baú do Seu João 3 - Álbum de figurinhas Ídolos da Tela - Editora Vecchi - out/nov/dez 1958


Desci até as catacumbas mágicas do meu pai mais uma vez e encontrei entre pergaminhos e hieroglifos talhados na pedra, este maravilhoso álbum de figurinhas Ídolos da Tela. Nos anos 50, o rádio ainda imperava com força, pois a televisão ainda engatinhava e tropeçava na inexperiência de sua primeira infância. Se o rádio era o rei do lar, as salas de cinema ainda eram a grande atração do fim de semana dos enamorados. Ao lado de revistas como Cinemin, Cinelândia e Cine-Fan, algumas editoras como Vecchi e Agência Portuguesa de Revistas editavam álbuns de cromos com (quase) todos os atores e atrizes atuantes no ano referente. Como as figurinhas eram dispostas aleatoriamente, sem ordem alfabética ou divisão por nacionalidade, as páginas desses álbuns eram bem "democráticas", incluindo numa mesma sequência, atores consagrados e estreantes, homens e mulheres, brasileiros, americanos e italianos. A página selecionada acima dá uma boa noção desta miscelânea divertida de artistas: na primeira fileira temos Paulo Autran, Joan Crawford e Colé; na terceira fileira vemos a bela Brigitte Bardot ao lado de Milton Ribeiro ( novíssimo!), além do feio Wilson Grey na ponta; na última fila, Peter Baldwin ( é o pai dos irmãos Baldwin?) ao lado da elétrica Consuelo Leandro; além do "canastra" Victor Mature na segunda ala e sete artistas que eu não conheço ( Seu João com certeza se lembra de todos). D+!!!!!

Edição Super e Milionária

Um colecionador anônimo adquiriu através do site de leilão ComicsConnect.com, a edição nº1 de Action Comics, de junho de 1938, pela "bagatela" de US$ 1 milhão! A revista, cujo preço de capa na época era de US$ 0,10, é famosa e valiosa por publicar pela primeira vez, uma aventura do lendário Super-Homem, o primeiro personagem "super" dos quadrinhos. Existem poucas revistas destas no mundo - a mais cara vendida anteriormente, bem menos conservada que esta última, atingiu o preço de US$ 317 mil. A revista milionária tem pedigree e saiu na verdade de uma das mais famosas e antigas coleções de quadrinhos dos EUA, a Kansas City, o que confere a ela prestígio e valor. Segundo o Comic Book Pedigree, um gibi para ter pedigree precisa ter entre outros critérios, alta qualidade de conservação, ter sido comprada por um único indivíduo desde a sua publicação e vir de uma coleção com grande volume de edições raras, seja por gênero ou títulos importantes. A referida edição passou com nota 8 na classificação da CGC (Certified Collectibles Group - Comics Guaranty), o que demonstra uma conservação quase impecável. O tal colecionador pra manter esta qualidade vai precisar desembolsar mais uma boa grana com ambientação e cuidados constantes, mais ou menos como aqueles mecenas que cuidam de suas coleções de carros fora-de-série ou adegas seculares.

19 de fevereiro de 2010

Baú do Malu 19 - Noel Rosa, uma Biografia (1990)

E pra fechar o assunto, eis o meu exemplar da biografia de Noel Rosa, que está embargada pela justiça. Guardada com orgulho, com durex na capa, riscos e rasgos, pois afinal, emprestei muito este livro durante estes 20 anos. Comprei assim que saiu nas livrarias, e paguei na época um preço salgado. Valeu a pena. Pra mim, é uma das biografias mais completas feitas até hoje.

Precisamos de Noel ( e Adoniran, Cartola, Silas, Nelson Cavaquinho...) nas escolas, nas esquinas e nas livrarias

Aproveitando o gancho do Noel, deixo também o meu desabafo. Li no Estadão ( aliás, ótima matéria do Lucas Nobile, na segunda-feira, que meu deu subsídios para este e também o post anterior), que o livro Noel Rosa - Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, está embargado! é isso mesmo: embargado, impedido, paralisado; o que nos faz relembrar, e não tem como não relembrar, o caso da biografia do Roberto Carlos.
A biografia de Noel, que eu comprei assim que saiu, é uma das obras mais completas e detalhistas sobre a vida de um músico brasileiro e embora passe longe do sensacionalismo, incomodou as herdeiras do legado do compositor carioca, filhas do seu irmão Hélio Rosa. Resultado: a obra ficou em catálogo até 1994 e por culpa deste embrólio, nunca mais foi reeditada, tornando-se artigo de colecionador - alguns exemplares à venda na internet chegam a R$400,00.
A biografia, de 534 páginas, resgatou momentos obscuros e mal explicados na carreira do Poeta da Vila, e tanto fez emergir composições até então perdidas, como trouxe à tona episódios polêmicos de sua vida - daí certamente a intervenção da família. Pra piorar a situação, os autores Didier e Máximo não se falam desde 1997, o que dificulta ainda mais uma negociação amigável ( na matéria ao menos, parece que há uma chance de reaproximação de ambas as partes).
A lei a respeito das biografias precisa ser revista no Brasil, pois enquanto autores, herdeiros e advogados digladiam-se nos tribunais, fãs, alunos, historiadores, pesquisadores, jornalistas e amantes da história cultural brasileira são impedidos de ter acesso à tão rica e profunda informação. Noel, Cartola, Adoniran ( que tem pelo menos sua ótima biografia feita pelo Celso de Campos Jr, reeditada em 2010), Nelson Cavaquinho, Silas de Oliveira, Geraldo Filme e tantos outros deveriam na verdade entrar no currículo das escolas primárias e secundárias e seus livros e biografias, livres de ameaças e tribunais. Eles e suas obras são maiores do que qualquer desavença terrena.

Carnaval 2010: patrocínios mil, memória zero


(Noel Rosa e Adoniran Barbosa -reproduções)

O Carnaval, e não é de agora, cada vez mais surge como um espetáculo portentoso, megalômano, calculista e comandado pela mídia e patrocinadores. Exemplo: a Rosas de Ouro trocou o nome do seu samba-enredo "Cacau é show", além de partes da letra, porque a Rede Globo se sentiu incomodada. O patrocinador e a escola tiveram que se contentar com "Cacau chegou" até o momento do último voto da apuração, que sagrou a Rosas campeã e permitiu o desabafo em rede nacional da presidente da agremiação carnavalesca: "...Agora podemos dizer que o cacau é show. A Rosas de Ouro acredita em parceiros".
E enquanto patrocinadores, emissoras e dirigentes discutem o que realmente importa para o carnaval de hoje, heróis do samba popular e carnavalesco como Noel, Adoniran e Cartola são esquecidos e banidos dos atuais enredos manipulados. Exemplos não faltam: já em 1982, a Colorado do Brás homenageou o grande Adoniran Barbosa ( sem saber que seria seu último carnaval em vida) mas no momento do desfile o homeageado quase foi impedido de desfilar por não estar fantasiado. Outra: em 2008, a Mangueira preferiu saudar na avenida o frevo, ao invés de comemorar com enredo os 100 anos de seu próprio fundador, Cartola. E o carnaval de São Paulo neste ano se superou: nenhuma escola paulistana fez questão de homenagear os 100 anos de Adoniran. Triste e lamentável. Mesmo a louvável homenagem à Noel Rosa no desfile da sua Vila Isabel neste ano, não partiu da escola, como é de se supor. A intenção inicial da agremiação na verdade era ter o próprio Martinho da Vila como tema, que com sua finesse habitual, declinou do convite, antes de propor uma efeméride mais adequada para o momento: os 100 anos de Noel Rosa. A escola aceitou a sugestão e o enredo, composto pelo próprio Martinho, levantou o Sambódromo e fez jus ao maior compositor da vila. Por pouco, Noel não foi para o banco de reservas, fazer companhia à Adoniran.
Esse é o carnaval oficial em 2010: se por um lado, ainda traz fagulhas de criatividade, como a aclamada comissão de frente da campeã Unidos da Tijuca, mancha sua própria história com descaso total aos pioneiros e desmemória crônica.

17 de fevereiro de 2010

Três anos com a Mundo dos Super Heróis

A Mundo dos Super Heróis, sob a batuta do editor Manoel de Souza, já é referência para artistas, especialistas, colecionadores e fãs dos quadrinhos. A edição atual (nº20) comemora os três anos de existência da premiada revista, e basta dar uma passada pelas suas 100 páginas para perceber que a amplitude das matérias, a diversidade das pautas e a busca incessante pela qualidade e informação continuam lá, do mesmo jeito que estavam na longínqua número 1. A matéria de capa com o segundo dossiê dos X-Men veio à tona graças aos incessantes pedidos dos leitores, pois como esclarece o próprio Manoel em seu editorial, "...os pedidos dos leitores, o que sempre norteia a pauta da Mundo, começaram a aumentar. Bem, se os leitores querem, nós fazemos". E assim foi feito: 24 páginas destrinchando a saga dos mutantes entre 1988 e 2000!
A Mundo é assim: elaborada por profissionais apaixonados pelos quadrinhos, e também por animação, games, cinema, toys e super heróis em geral. E feita também pelos seus ávidos leitores, que vivem discutindo pautas nos fóruns e salas espalhados pela internet, além é claro, das comunidades sobre a revista no Orkut.
Na edição do mês destacam-se também as fichas do histórico herói Gavião Negro (DC) e do singular cavaleiro espacial Rom (Marvel), a entrevista com o mais novo brasileiro de sucesso nos States, Will Conrad, toda a mitologia do estimado Fantasma ( na Seção De A a Z), o perfil do magistral artista Joe Kubert e uma matéria-homenagem ao precursor dos mangás no Brasil, o editor Minami Keizi, falecido recentemente. Esta última, aliás, foi pra mim uma das mais emocionantes reportagens da Mundo em homenagem a um mestre dos quadrinhos nacionais.
Como eu mencionei em uma carta publicada em uma das primeiras edições da revista, a minha estante já tem um espaço reservado para muitas e muitas edições da Mundo dos Super Heróis. Basta apenas que Manoel de Souza e equipe continue a nos brindar com esse coquetel bem balanceado de informação, pesquisa e claro, superação, coisa que todo bom super-herói guarda pra si.

Baú do Malu 18 - Original de Jerry Robinson (1999)

Em 1999, Jerry Robinson, em visita à Abril, na época casa editorial de toda a linha de heróis da Marvel e DC no Brasil, fez este desenho de Batman especialmente para a editora responsável na Abril Press, agência internacional da empresa. Como eu sempre tive a fama de colecionador e "guardador" de relíquias culturais e editoriais, fui agraciado algum tempo depois com este singular desenho original à caneta de um dos mais importantes artistas dos quadrinhos mundiais. Mr.Robinson é simplesmente o co-criador do Curinga e do Robin e um dos autores que solidificaram conceitos do universo do homem-morcego usados até hoje. E não foi só: além de assistente de Bob Kane(criador de Batman) e artista principal do personagem por anos, produziu para muitos gêneros, como policial, guerra, terror e cartuns políticos ( Life With Robinson) até se tornar nos últimos tempos, representante de centenas de criadores e distribuidor de tiras e cartuns para o mundo todo.
Jerry Robinson continua ativo, aos 88 anos, lutando como sempre, pela dignidade e direitos dos artistas dos quadrinhos e cartuns.

Baiano e os Novos Caetanos:humoristas tropicalistas e um baita som! (homenagem à Arnaud Rodrigues)


Arnaud Rodrigues faleceu ontem em um naufrágio no Tocantins, aos 67 anos de idade. Muitos só o conhecem como humorista da Praça é Nossa no SBT, onde se apresentava desde os anos 80. Mas Arnaud tem uma longa folha corrida no humor, como roteirista, ator, além de músico e compositor atuante. Nos anos 70, ao lado de Chico Anysio, compôs diversas músicas relacionadas aos programas humorísticos de seu parceiro, chegando ao sucesso em 1974, com "Baiano e os Novos Caetanos", uma sátira ao tropicalismo - o grupo, na verdade um trio, além dos personagens Baiano (Chico Anysio) e Paulinho Boca de Profeta ( Arnaud), tinha também a participação do onipresente instrumentista Renato Piau, no papel dele mesmo (além, é claro, de outros grandes músicos em disco). As músicas Vô Batê pa Tu (alusão aos delatores da ditadura), Ciranda e Folia de Reis tocaram muito na época, propiciando um segundo disco, "Baiano e os Novos Caetanos 2". Em 1976, Arnaud lançou o disco "As Músicas de Paulinho", pela RCA Victor, ainda na cola do personagem, mas sem a chancela da Globo. Nos anos 80, houve um retorno de Baiano e Novos Caetanos em disco, com o LP "A Volta" (1982) e "Sudamerica" (1985), mas sem o sucesso esperado. Arnaud seguiu lançando discos solos, talvez menos do que almejava, enquanto sua carreira de humorista deslanchava nos anos 80 com o personagem Soró em novela da Globo e posteriormente com diversos personagens na Praça é Nossa.
Fiquem com raridades extraídas do primeiro disco do grupo, imagens nos programas e solos de Arnaud:
http://www.youtube.com/watch?v=-r6g3wD3ce0
http://www.youtube.com/watch?v=-5mO_vc8TGc
http://www.youtube.com/watch?v=83XUt_qOdII
http://www.youtube.com/watch?v=81WW7UNcbLk
http://www.youtube.com/watch?v=29kX3lnX-Dg&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=aQOfaz2L8X8&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=H6_1cIFMfPs&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=yjffssQTl28&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=p91zSr3MYCc
http://www.youtube.com/watch?v=dimXIOVK92E

10 de fevereiro de 2010

Duane Allman/Tommy Bolin/Randy Rhoads:grandes guitarristas de vida curta

Randy Rhoads
Tommy Bolin
Duane Allman
Escolhi esses três nomes por conta de várias coincidências em suas curtas trajetórias: todos são americanos, guitarristas, frequentam sempre a lista dos melhores de todos os tempos e morreram de forma trágica, com a mesma idade. Duane Allman (20/11/1946- 29/10/1971), era especialista em slide guitar - o seu estilo de tocar incluía vidros vazios de remédios (mais detalhes aqui: http://poeirablog.wordpress.com/2009/06/25/o-slide-preferido-de-duane-allman/) - e um cara de bem com a vida, que adorava música, motos e estrada. Tocou e gravou com muita gente, incluindo Eric Clapton ( a introdução de 7 notas de Layla foi feita por Duane) e sessões de estúdio com cobras do jazz, blues e rock. Quando morreu em 71, estava no auge, em sintonia com Clapton e estraçalhando com seu irmão Greg e amigos de infância na mítica The Allman Brothers Band, cujo álbum At Fillmore East, do mesmo ano, é considerado um dos melhores discos ao vivo da história. Poucas semanas antes de completar 25 anos, bateu em alta velocidade com sua moto chopper em um caminhão desgovernado. Duane Allman foi considerado pela Rolling Stone em 2003 o segundo melhor guitarrista de todos os tempos (atrás de Jimi Hendrix). Já Tommy Bolin (01/08/1951 - 04/12/1976), foi um guitarrista versátil, de estilo jazzy, que participou de dezenas de bandas de rock entre os anos 60 e o início dos 70, até chamar a atenção pela sua participação no disco de 1973 do baterista Billy Cobham, Spectrum. Ainda em 1973, entra para o James Gang, onde permanece por um ano. Em 1975 lança seu primeiro solo, Teaser e logo em seguida substitui com grandes expectativas Richie Blackmore no Deep Purple. Embora tenha se saído bem em estúdio no álbum Come Taste The Band, sua avançada dependência em drogas pesadas prejudicou a performance da banda em turnê, que já abalada por outros fatores, se desfez em 1976, depois de show em Liverpool onde Bolin sofreu uma overdose. Pouco depois de gravar o afamado segundo disco solo, Private Eyes, Tommy Bolin morreu de overdose na manhã do dia 04/12/1976, depois de horas em agonia na madrugada , sem sequer ser socorrido pelos seus “amigos” junkies, que não queriam problemas com a polícia.
Nosso terceiro guitarrista, Randy Rhoads (06/12/1956-18/03/1982) nasceu em uma família musical e com 15 anos já era um requisitado professor de guitarra na escola de sua mãe. Com 16, entrou para o Quiet Riot e logo arregimentou fãs do seu estilo agressivo e ao mesmo tempo harmônico e personalíssimo. Depois de dois álbuns com o Quiet, Randy decidiu participar de um teste para a banda de Ozzy Osbourne, que iniciava sua carreira solo. Ozzy escutou centenas de guitarristas e já no limite de sua paciência, sem encontrar um instrumentista de estilo próprio, resolveu ouvir o último músico:bastou Randy ligar sua aparelhagem e dedilhar algo, para Mister Osbourne contratá-lo no ato. O jovem guitarrista gravou os discos Blizzard of Ozz de 1980 e Diary of a Madman de 1981, que muito pela sua presença, são considerados os melhores da carreira de Ozzy. Em 19/03 do ano seguinte, em plena turnê rumo à Orlando, Randy Rhoads aceitou dar umas voltas de avião com o ex-piloto que hospedava a banda; após acrobacias desnecessárias e rasantes perigosos, o pequeno avião raspou uma das asas no ônibus estacionado da banda e explodiu ao chocar-se com uma garagem. Randy Rhoads, 25 anos, morria tragicamente e no auge.
Três acidentes estúpidos (existe acidente que não é estúpido?) limaram a vida desses três magníficos guitarristas, que certamente tinham muito o que mostrar ainda na carreira. É realmente de tirar o chapéu o que eles fizeram para a história do rock em tão pouco tempo.
Deixo-lhes com os três, em imagens que dizem tudo:
Randy Rhoads: http://www.youtube.com/watch?v=LhgIuPcRIAE&feature=related
Tommy Bolin: http://www.youtube.com/watch?v=BjjoKCWIXiA&feature=related
Duane Allman: http://www.youtube.com/watch?v=uACfGFxS4oM&feature=related
e http://www.youtube.com/watch?v=pV8RoNePzfI&feature=related

5 de fevereiro de 2010

Porque vale a pena ouvir Oswaldo Montenegro

Chega a ser irônico. Oswaldo Montenegro é compositor múltiplo, de um leque considerável de ritmos; instrumentista estudado, mas que mantém a intuição; letrista dos bons, homem que revolucionou os musicais no teatro, poeta sensível, diretor musical, especialista em trilhas sonoras, apresentador e pesquisador, entre otras cosas mas. Menestrel, portanto, é um nome que lhe cai bem. E porque então a crítica especializada lhe vira as costas? porque os livros de MPB não lhe colocam no devido lugar de importância? porque a pecha equivocada de chato o persegue?
Muitos conhecem Oswaldo através dos festivais dos anos 80 e só, embora ele seja um bom vendedor de discos. Portanto, lembram-se dele pela emocionante Bandolins ( Festival da TV Tupi - 1979 - 3º lugar), Agonia ( 1º lugar no MPB-80 da TV Globo) e Condor ( finalista do Festival dos Festivais da Globo em 1985). Eu, que conheço sua obra a fundo, considero relevante entre essas três, só Bandolins, uma doce e perfeita canção feita sob medida para o ótimo entrosamento vocal entre o compositor e seu colega brasiliense Zé Alexandre. Agonia, composição do seu colega de infância Mongol é interessante, mas na minha opinião, cansativa e eu não torci pra ela naquele festival. Condor não está entre as melhores composições dele, embora seja bem otimista - ao meu ver, sua estrutura caberia mais como jingle.
Quem conhece Oswaldo Montenegro na grande mídia, portanto, não tem a verdadeira dimensão da sua extensa carreira além dos festivais, permeada por musicais premiados no teatro, descobertas importantes de talentos ( como Zélia Duncan, Cássia Eller, o saxofonista Milton Guedes e a atriz Teresa Seiblitz) , lançamentos independentes antológicos e trilhas sonoras constantes.
Quem o tem por "cantor de festival" ( talvez por conta de Agonia), ou compositor de algumas novelas globais, talvez mude de opinião se ouvir com um pouco mais de atenção suas composições intrincadas e sua poesia forte, vindas, principalmente de suas produções teatrais independentes. Não estou menosprezando esse seu lado que aparece mais, de maneira nenhuma - inclusive porque sua produção mantém uma qualidade excepcional em todas as fases.
Oswaldo Montenegro, que tem se destacado na programação do Canal Brasil com seus programas que investigam a essência da música nacional e sempre conta com um público fiel em seus shows, merece mais destaque nas tais cronologias musicais da MPB contemporânea.
Ouçam e vejam esse interessante lado "menestrel/hippie/poético de sua carreira e tirem suas conclusões:
História Estranha (c/ OM, Eduardo Costa e Tânia Maya): http://www.youtube.com/watch?v=kxF7ifPtxcU
Incompatibilidade ( acompanha um vídeo crazy): http://letras.terra.com.br/oswaldo-montenegro/47881/

3 de fevereiro de 2010

O fulminante Stevie Ray Vaughan

Conheci o jovem músico Bruno no fervilhante salão de cabeleireiro do Dinho e no meio do papo musical, quando falávamos sobre grandes guitarristas, ele cravou esta: "- Se o Stevie Ray Vaughan não tivesse morrido de helicóptero, mais cedo ou mais tarde morreria de coisas mais pesadas". Concordei e não concordei, porque desde que travei contato com a obra e a carreira de Stevie nos anos 80, senti sua urgência, que jorrava aos borbotões através dos riffs da guitarra e de seu decorrente e desaforado blues. Talvez o peso aqui nem seja droga ou alcool, dupla com quem travou grandes batalhas; quem sabe o peso do seu próprio blues? Houve chances e recomeços, como veremos adiante.
Esse Stevie fulminante foi o mesmo que deixou o "God of Guitar" em pessoa, Eric Clapton, de queixo caído. A mesma reação tiveram seus ídolos Buddy Guy e Albert King e talvez tivesse quem sabe, Jimi Hendrix, se vivo fosse. Seu virtuosismo, aliado ao mix de estilos adquirido dos mestres aqui citados (+ Freddy King, Albert Collins e Ottis Rush) modelou seu blues em algo novo e característico.
Depois de iniciar sua carreira tocando baixo na banda do irmão mais velho Jimmie (outra grande influência), no final dos 70, montou a banda Double Trouble, que o iria acompanhá-lo pelo resto da vida. Logo chamou a atenção de David Bowie, que o lançou em seu disco Let´s Dance, na faixa homônima e em China Girl. Seu debut junto ao Double Trouble foi em Texas Flood de 1983, um lançamento inspirado e inspirador, que o elevou no ato à "grande guitarrista do blues". Os discos subsequentes seguraram o nível, até 1986, quando um colapso nervoso, fruto de seus vícios cada vez mais constantes e pesados, o colocou em tratamento por um bom tempo. Sua volta, em 1989, foi por cima, fortalecida pela velha técnica e a pegada de sempre. Pena que essa segunda chance durou muito pouco: em 27 de agosto de 1990, um dia depois de um show magistral ao lado de Robert Cray, Eric Clapton e o brother Jimmie, Stevie se encaixou no helicóptero que levava a equipe de Clapton para mais uma apresentação conjunta, quando minutos depois, sob forte névoa, um choque violento da nave, jogou todos a bordo de encontro a morte. Aos 35 anos, faleceu um colosso da guitarra, intuitivo e visceral como tantos da história do blues rock; precoce e fulminante como outros tantos, a começar pelo pioneiro Robert Johnson, passando por Jimi Hendrix e Duane Allman. Para Eric Clapton, que depois de quase morrer, talvez não morra mais, Stevie Ray foi um amigo, irmão e companheiro de palco, e talvez por sina, mais uma perda em sua longa e acidentada estrada.
A "pedrada" Pride and Joy: http://www.youtube.com/watch?v=NU0MF8pwktg
O último show (com Cray e Clapton):